O casal Ademar e Marisa trocou décadas de comércio em Passos pela fazenda de família em São João Batista do Glória, na beira da Serra da Canastra, onde hoje transformam cada litro de leite tirado à mão em queijo artesanal curado, frescal e com pingo, usando madeira da própria terra e preservando a história de três gerações.
Tem histórias que só a roça produz. Ademar nasceu na fazenda que pertenceu aos avós, foi criado por uma segunda mãe em Passos, estudou administração em Belo Horizonte, conheceu Marisa num prédio de apartamentos, casou, montou uma distribuidora de produtos farmacêuticos que abastecia toda a região e passou décadas longe da terra onde havia nascido. O casal construiu um negócio sólido, criou raízes na cidade e, quando chegou a hora, tomou uma decisão que muita gente sonha mas poucos executam: vendeu tudo e voltou para a fazenda.
Não era qualquer fazenda. Era a propriedade dos avós paternos de Ademar, localizada a 12 quilômetros de São João Batista do Glória e a 1.500 metros da Cachoeira da Capitinga, na beira da Serra da Canastra, uma das regiões mais reconhecidas do Brasil pela qualidade do queijo artesanal. Segundo o Canal Vida no Campo, o casal reformou a sede histórica usando madeira retirada de pontes e barracões antigos da própria propriedade, instalou uma queijaria, e hoje transforma 230 litros de leite por dia em queijos que não sobram: a demanda chega antes do produto terminar, com encomendas vindas de São Paulo e Belo Horizonte.
A fazenda que veio dos avós e guardou três gerações

A propriedade em São João Batista do Glória não é uma aquisição recente. Ela passou dos avós para o pai de Ademar e do pai para ele, uma linha de herança que atravessou décadas sem perder o endereço. A sede original já estava lá quando Ademar era criança, e foi nela que ele aprendeu a tirar leite desde os cinco anos de idade, ao lado do pai e do irmão João.
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Quando o casal decidiu voltar, a casa precisava de cuidados, mas a estrutura estava intacta. Ademar e Marisa optaram por preservar ao máximo a arquitetura original, fazendo apenas adaptações necessárias, banheiros novos, um quiosque nos fundos e uma garagem.
Tudo que foi acrescentado usou material da própria fazenda: madeira seca retirada de pontes antigas, currais desativados e barracões que já não serviam mais. Uma mesa de maçaranduba com quatro metros de comprimento, que pertencia ao pai de Ademar e na qual todos os irmãos estudaram, segue no mesmo lugar onde sempre esteve.
230 litros de leite por dia, tudo tirado à mão

O processo começa às cinco da manhã. O gado de leite da fazenda é criado exclusivamente a pasto, sem ração e com uma única ordenha diária, uma escolha que reduz o estresse dos animais, preserva a qualidade do leite e resulta num produto com menos química e mais sabor. Cada vaca tem nome, reconhece os retireiros e mantém contato com o bezerro durante a manhã inteira, sendo separada apenas por uma hora para a ordenha.
Os 230 litros diários são transferidos da área de ordenha para a queijaria em lotes de 30 litros, mantidos na temperatura de 37 graus em que saem da vaca. O coalho é adicionado imediatamente, lote a lote, até completar o total do dia.
Essa técnica, que Ademar descreve como a forma mais antiga de fazer o queijo canastra, garante que cada batelada coalhe no momento certo, com o leite ainda fresco e na temperatura natural, sem pasteurização industrial e sem aditivos além dos exigidos por lei.
O queijo que Marisa começou brincando e que não para de crescer

A queijaria não fazia parte do plano original. O casal voltou para a fazenda pensando em viver da produção de leite, mas Marisa, que admite não conseguir ficar parada, começou a experimentar a produção de queijo em fevereiro do ano anterior quase como um hobby. Os primeiros elogios vieram rápido, o entusiasmo cresceu e a quantidade produzida foi aumentando junto com a demanda.
Hoje a queijaria produz três tipos de queijo: o frescal, o curado e o queijo com pingo, uma versão maturada que usa o soro natural do próprio processo como fermento, seguindo a tradição mais antiga da produção canastrinha.
Nenhum queijo é enviado ainda pelo correio de forma regular, mas o casal está aberto a negociar encomendas direto pelo telefone da queijaria. Doce de leite e iogurte são produzidos por encomenda em menor escala, e a expansão para esses produtos de forma regular está no plano assim que a documentação legal estiver completa.
A queijaria e o cuidado que virou padrão da casa

A queijaria da fazenda foi projetada com apoio da arquiteta Cristina Grilo, de Passos, e tem uma característica que chama atenção: o leite entra pelo lado de fora, através de um funil, sem que ninguém precise entrar no ambiente de produção durante o processo. Essa barreira de contaminação é o coração do controle de qualidade que Marisa e Silvia, a queijeira da fazenda, estabeleceram desde o início.
A água usada na queijaria vem de um poço artesiano, com cloro na medida exigida pela legislação. A água da serra, que chega naturalmente à propriedade, abastece a aguada dos animais e enche a lagoa que Ademar construiu reaproveitando pedras de um antigo curral.
O fluxo é controlado: em período de chuvas fortes, a água é desviada para as represas. No tempo seco, é redirecionada para encher a lagoa. É o tipo de gestão hídrica que quem viveu sempre na cidade raramente consegue imaginar em detalhe.
A casa preservada e a memória que o lugar guarda
Sentar no quiosque dos fundos da sede, olhar para a Serra da Canastra ao fundo e escutar o vento é, para Ademar, quase uma terapia. Ele diz que quando chega à fazenda e olha para os morros, vê a imagem do pai e dos avós, o trabalho que fizeram, as escolhas que tomaram, o que deixaram para trás. Marisa completa: a vontade de viajar diminuiu, e as duas querem sempre voltar logo quando saem.
A mesa de quatro metros onde os irmãos estudaram ainda está lá. As cadeiras do pai de Ademar foram reformadas mas não substituídas. Os balcões ao lado do fogão a lenha foram feitos de coxeiras desmanchadas.
Cada objeto conta uma parte da história que o casal decidiu não deixar desaparecer, e que agora recebe visitas, queijeiros, turistas que passam pela estrada da Serra da Canastra e curiosos que ligam pedindo queijo depois de ver o vídeo no YouTube.
Você conhecia a história do queijo canastra feito com leite tirado à mão de vaca a pasto? Já visitou alguma fazenda na Serra da Canastra ou comprou queijo direto do produtor? Deixa nos comentário, e se você também sonha em trocar a cidade pela roça, conta o que ainda te segura.


Queria saber o nome deles, da empresa pra poder comprar os queijos. Obrigada.
Eu tive o privilégio de conhecer o casal, degustar os sabores dois queijos e compra- lós.
A recepção é extraordinária .
Meu sonho fazer esta troca .seria a melhor coisa que me aconteceria o que me impede que minha esposa foi criada em cidade movimenda aí ja sabe como é mas estou orando a Deus para mudar o modelo de pensamento e irmos ser feliz.