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Casal revive restaurante histórico abandonado em Guarulhos e converte o espaço da família em refúgio de objetos garimpados e improváveis, tradições italianas e histórias reconstruídas

Publicado em 04/12/2025 às 09:15
Atualizado em 04/12/2025 às 09:23
Assista o vídeoCasal, restaurante, Sora
Imagem: Reprodução / X / PEGN
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Um imóvel herdado em 1958 ganhou nova vida após décadas de mudanças, perdas e reinvenções, quando Adriana e Luigi decidiram reconstruir a própria história e transformar o espaço no gastropub que retomou a memória da família

Em uma avenida tradicional de Guarulhos, um imóvel discreto abriga hoje um gastropub que mistura lembranças antigas, memórias de família e um processo longo de reconstrução pessoal. O Sora Bernardes ocupa esse espaço porque resgata parte da culinária local, além de representar resistência em diferentes fases.

O visitante encontra quadros variados e objetos improváveis, que ajudam a contar a história iniciada décadas antes dos atuais proprietários.

O ambiente passou por muitas mudanças, portanto virou símbolo de como um negócio pode sobreviver ao tempo e às perdas.

A trajetória começa em 1954, quando Teresa Maria, italiana, chegou ao Brasil com o marido e o filho Serafino.

A família fugia da guerra e desembarcou com pouco dinheiro. Assim buscou apoio de um parente que vivia na região.

Quatro anos depois eles receberam o terreno onde o restaurante funciona até hoje.

Na antiga casa simples, Teresa começou a cozinhar para trabalhadores de uma empresa próxima. As refeições improvisadas atraíram clientes porque ofereciam sabor familiar e preço acessível.

O local virou ponto de encontro. Famílias comemoravam casamentos e aniversários ali, segundo Adriana Bernardes, atual chef e sócia do gastropub. A cozinheira italiana se tornou referência até 1978, quando morreu e deixou um legado importante.

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A reinvenção constante conduzida por Luigi Ongaro

Após a morte de Teresa, o marido transformou o imóvel em bar. Depois virou lanchonete. Mais tarde, em 1991, numa época em que Guarulhos não conhecia o conceito de pub, Luigi Ongaro, filho mais novo da fundadora, inaugurou o Italian Bar. Assim trouxe uma proposta inédita à cidade.

Ongaro sempre gostou de futebol. Em 1983, ao casar pela primeira vez, voltou à Itália para tentar carreira esportiva. Participou de teste no Inter de Milão e jogou com Aldo Serena, que disputou Copas em 1986 e 1990.

Mas a falta de apoio financeiro e a dificuldade de adaptação da esposa impediram sua permanência. Então o casal voltou ao Brasil. Luigi reabriu uma lanchonete no mesmo ponto e seguiu empreendendo.

Em 2011, o local se tornou Whiskeria 8.1/2 e, depois, Los Braseiros, inaugurado em 2017 como uma picanharia que atraiu moradores da região.

A rotina mudaria drasticamente em 2018, quando a esposa de Luigi recebeu diagnóstico de câncer agressivo. Ela morreu em 2020, e o empresário entrou em luto profundo, fechando o restaurante.

O espaço ficou abandonado até que Adriana voltou à vida dele.

O reencontro que reativou um negócio e duas histórias pessoais

Adriana Bernardes conhecia Luigi desde jovem. Ela comprava lanches na antiga lanchonete da família, embora os dois só tenham retomado contato em 2012.

A empresária começou a trabalhar aos 15 anos na metalúrgica do pai e assumiu a empresa aos 19, após sua morte inesperada.

Ela relata que sofreu tentativas de sabotagem porque era a única mulher na equipe de 45 homens.

Precisou aprender sobre máquinas e processos para manter o controle do negócio. Depois de anos, fechou a fábrica ao enfrentar depressão severa.

Quando começou a namorar Luigi e visitou o imóvel esquecido, Adriana se indignou ao ver tudo fechado e cheio de poeira. Ela sempre quis ter uma cozinha e sugeriu que reerguessem o restaurante juntos.

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O renascimento do Sora Bernardes em meio a crédito e improviso

A decisão ocorreu em outubro de 2021, mas o casal não tinha capital suficiente. Adriana pediu ajuda a uma amiga gerente de banco, vendeu uma máquina antiga e reuniu R$ 28 mil para reiniciar o projeto.

Eles ganharam um fogão industrial, usaram panelas fabricadas por Adriana na época da metalurgia e contaram com apoios pontuais. Um empresário permitiu parcelar o forno, e um primo de Luigi parcelou compras no boleto.

Em maio de 2022, o Sora Bernardes foi inaugurado oficialmente.

Nos primeiros três dias a casa ficou cheia, e o boca a boca impulsionou o retorno do público ao endereço histórico.

Poucos meses depois, o lugar recuperou relevância e alcançou faturamento de R$ 60 mil por mês. Assim consolidou nova fase sem perder a ligação com o passado da família.

O nome que une duas memórias afetivas

O nome “Sora Bernardes” homenageia duas histórias. “Sora” representa Teresa Maria; “Bernardes” lembra o pai de Adriana, falecido quando ela tinha 19 anos. Para eles, a união dos nomes simboliza reconstrução e memória familiar.

Os dois descobriram ainda que a mãe de Adriana havia sido babá de Luigi aos 12 anos. Ela relatava que só se alimentava bem quando visitava a casa da italiana. Esse vínculo reforçou o sentido emocional do restaurante.

O garimpo que virou identidade visual e atrai curiosos

A decoração chama atenção. Quadros de desconhecidos aparecem ao lado de Marilyn Monroe. Há violão, rede de pesca no teto e objetos variados ligados à cultura da família.

Segundo Adriana, essa estética vem da tradição italiana de reaproveitar materiais, porque a escassez marcou a chegada da família ao Brasil.

Luigi começou a garimpar caçambas quando dirigia o bar Whiskeria 8.1/2 no Tatuapé. Uma tampa de mesa virou moldura. Um bandô de cortina se transformou em frente de bar.

Móveis comprados em leilões foram restaurados por ele. Esse trabalho rendeu um prêmio de sustentabilidade da prefeitura.

No Sora, Adriana reforça que o garimpo tem curadoria. Eles não desejam acumular objetos sem critério.

Entre peças raras estão o primeiro pôster do filme Homem Aranha, o último de um show da Elis Regina, uma mesa de mármore Carrara e um crucifixo feito de oliveira trazido de Israel.

Clientes também participam dessa construção. Alguns doaram miniaturas, xícaras pintadas à mão e até um secador rosa usado para a formatura de uma mãe. Recentemente, chegaram fotos antigas de James Dean e Sophia Loren.

Casal, restaurante, Sora
Imagem: Reprodução / X / PEGN

A família inteira movendo a operação do restaurante

O Sora é administrado pela família. Adriana cuida da cozinha, compras e parte administrativa. Luigi, formado pela International Bartenders Association, é bartender, pizzaiolo e anfitrião.

Letícia, filha de Adriana, é bartender formada e vice campeã brasileira de coquetelaria.

Eduardo, de 13 anos, estuda pizza clássica e participa de treinamentos.

Três freelancers reforçam os fins de semana, mas de terça a quinta a operação fica apenas com eles.

O molho da casa segue a receita de Teresa Maria, aperfeiçoada por Adriana, que iniciou cursos aos 12 anos e retomou estudos no IGA em 2012. A chef também se especializou em massas e planeja estudar três meses na Itália.

Hospitalidade como prática diária e futuro mais intimista

A hospitalidade define o Sora Bernardes. O casal trata cada cliente como visitante de sua sala. Eles explicam a história do restaurante e criam vínculos constantes.

Por isso muitas pessoas celebram aniversários ali. Outras voltam semanalmente, escolhem a mesma mesa e participam da construção afetiva do lugar.

Adriana projeta um futuro com cardápio sem itens fixos. Ela pretende servir apenas o prato especial do dia, como almoço de mãe. Uma surpresa a cada jantar, mantendo a essência de acolhimento que sempre guiou o Sora.

Com informações de Pequenas Empresas e Grandes Negócios.

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Romário Pereira de Carvalho

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