O míssil supersônico BrahMos, desenvolvido por Índia e Rússia, chega ao Vietnã em um acordo bilionário com Nova Déli. O pacote prevê baterias costeiras, treinamento de pilotos e a futura integração aos caças Su-30MK2, criando um arco de dissuasão diante das ilhas disputadas com a China no Mar do Sul.
O Vietnã fechou com a Índia um acordo bilionário para receber o BrahMos, um dos mísseis de cruzeiro supersônicos mais rápidos do mundo. O contrato, confirmado por autoridades indianas no fim de maio, reforça a parceria estratégica entre os dois países do Indo-Pacífico e mira proteger as fronteiras marítimas vietnamitas no tenso Mar do Sul da China.
Estimado entre 625 e 700 milhões de dólares, o pacote inclui baterias de defesa costeira, lotes iniciais de mísseis, treinamento de pilotos e suporte logístico de longo prazo. Como ambição futura, o Vietnã estuda integrar o BrahMos aos seus caças Su-30MK2, o que ampliaria seu poder de ataque contra alvos navais e terrestres.
O que é o BrahMos e por que ele assusta

O BrahMos é fruto de uma joint venture entre a Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa da Índia (DRDO) e a empresa russa NPO Mashinostroyenia. Ele deriva do míssil soviético P-800 Oniks, criado na Guerra Fria para neutralizar grupos de porta-aviões da Otan, e é considerado um dos principais ativos da indústria de defesa indiana. Pode ser lançado de plataformas terrestres, navais e aéreas, sempre com foco em ataques de precisão.
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O que o torna temido é a combinação de velocidade e furtividade. O BrahMos voa entre Mach 2,8 e Mach 3, quase três vezes a velocidade do som, e segue uma trajetória rasante sobre a água para escapar dos radares. Essa mistura reduz drasticamente o tempo de reação das defesas inimigas, tornando a interceptação muito difícil, exatamente o tipo de vantagem que o Vietnã busca para suas águas.
O acordo entre Índia e Vietnã e o foco costeiro
A assinatura foi confirmada pelo secretário de Defesa indiano, Rajesh Kumar Singh, durante o Diálogo Shangri-La, no fim de maio, e ganhou impulso na recente visita do presidente vietnamita, To Lam, à Índia. O negócio, um dos maiores de defesa já feitos por Hanói, está avaliado em algo entre 629 e 700 milhões de dólares e integra a Parceria Estratégica Abrangente Aprimorada entre os dois países.
Na prática, o foco imediato do Vietnã são as baterias de defesa costeira, com sistemas antinavio baseados em terra para proteger as fronteiras marítimas. Esse arsenal complementa, e não substitui, o sistema russo Bastion que o país já opera. Junto com os mísseis, o pacote prevê treinamento de operadores e apoio logístico, aprofundando a presença da Índia no ecossistema de segurança do Sudeste Asiático.
Su-30MK2: a ambição de levar o BrahMos para o ar
A integração do BrahMos aos caças Su-30MK2 é tratada como um passo seguinte, e não como parte já fechada do contrato. Há um obstáculo técnico: os Su-30MK2 vietnamitas, fabricados em Komsomolsk-on-Amur com foco em exportação e custo menor, têm aviônicos relativamente antigos, do início dos anos 2000, e diferem dos Su-30MKI indianos, produzidos em Irkutsk com forte customização. Por isso, a adaptação exigiria modernizações, tendo a experiência indiana como modelo.
Se concretizada, essa etapa daria ao Vietnã um salto de capacidade. Com o BrahMos embarcado, os Su-30MK2 poderiam atingir embarcações a centenas de quilômetros em velocidade supersônica, aplicando o conceito de negação de acesso, o chamado A2/AD. A meta declarada é operar, ao lado da Índia, um arco de dissuasão ao longo da costa e perto das ilhas disputadas no Mar do Sul da China, com treinamento de pilotos e compartilhamento de tecnologias, ainda que com limites de know-how.
A estratégia da Índia: Act East, exportações e o cerco à China
Segundo informações da Revista Fórum, o acordo se encaixa na política Act East, com que a Índia busca servir de contrapeso à presença da China no Indo-Pacífico, conectando seu nordeste às nações da Asean por meio de projetos como a Rodovia Trilateral e o corredor de transporte Kaladan.
Em paralelo, Nova Déli impulsiona a doutrina Atmanirbhar Bharat, de autossuficiência militar: o índice de componentes nacionais do BrahMos chegou a cerca de 83% em 2025, com meta de 85% em 2026 e de 90% a 95% nos anos seguintes.
Vender o sistema diretamente a aliados regionais ajuda a Índia a se firmar como uma das maiores exportadoras de armas do mundo e a driblar as pressões e sanções ocidentais ligadas à Rússia, que aprovou os repasses. O Vietnã segue a trilha das Filipinas, primeiro cliente internacional do míssil, em um contrato de cerca de 375 milhões de dólares de 2022, e a Indonésia negocia um acordo parecido. Para a China, porém, a multiplicação desses sistemas soa como um cerco, o que tende a elevar ainda mais a tensão no Mar do Sul.
A chegada do BrahMos ao Vietnã mostra como a Índia avança no tabuleiro asiático e como o Mar do Sul da China vira um barril de pólvora cada vez mais armado.
Conte nos comentários se você acha que esse arco de dissuasão ajuda a conter conflitos ou se apenas joga mais lenha na disputa com a China.

A China, no que diz respeito ao poder militar, é uma potência com reduzida experiência em guerras modernas, embora esteja a investir fortemente na modernização e sofisticação das suas forças armadas. Com o cerco cada vez mais apertado pelos seus vizinhos diretos, como as Filipinas, o Vietname, a Índia e Taiwan, poderá crescer a ambição chinesa de afirmar o seu poder estratégico, levando-a a escolher um teatro de operações onde possa testar a eficácia do seu arsenal militar, bem como a capacidade de ataque e contra-ataque das suas tropas.
Nessa senda, o Vietname poderia constituir um campo adequado para a China testar o seu arsenal, por ser um país com influência norte-americana relativamente reduzida. Com sucesso ou não numa eventual ação contra o Vietname, a China poderia, posteriormente, preparar-se para um confronto com Taiwan, aliado direto dos Estados Unidos na região, onde seriam efetivamente postas à prova as capacidades de defesa e ataque das duas maiores potências do planeta.
Em suma, o cerco que vem sendo imposto à China impulsiona esta grande nação a fortalecer cada vez mais as suas capacidades de ataque e defesa para um eventual confronto militar. Na prática, esse cerco funciona como um catalisador desse processo.