O campo de Búzios exportou 14,1 milhões de metros cúbicos de gás natural em um único dia e passou pela primeira vez da marca de 10 milhões na média de um mês inteiro, e o mais interessante é que nenhuma plataforma nova entrou em operação para isso acontecer.
Os dois recordes foram divulgados pela Petrobras. Segundo a companhia, a média mensal de exportação chegou a 10,8 milhões de metros cúbicos por dia em julho, o primeiro mês em que o campo superou a barreira dos 10 milhões desde que começou a produzir.
O recorde diário veio pouco depois. Em 6 de agosto, Búzios exportou 14,1 milhões de metros cúbicos em 24 horas, superando a marca anterior, de 13,9 milhões, registrada ainda em julho. Ou seja, o campo bateu o próprio recorde duas vezes em poucas semanas.
O salto do campo de Búzios em dois anos
Para dimensionar o avanço, vale olhar para trás. Conforme os dados da Petrobras, em julho de 2024 a exportação média diária do campo era de 4,7 milhões de metros cúbicos. Em cerca de dois anos, portanto, o volume mais que dobrou.
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Esse tipo de crescimento normalmente é explicado pela entrada de uma unidade nova. Uma plataforma chega, começa a produzir, e o número do campo sobe. Não foi o caso aqui.

De acordo com a Petrobras, os ganhos não resultaram da entrada de novos sistemas de produção, mas da otimização das unidades que já estavam lá. É uma distinção que muda completamente a leitura do resultado, porque otimização não custa o que custa uma plataforma nova.
A engenharia por trás: trocar as membranas que separam o CO₂
O detalhe técnico é o coração da história. Segundo a companhia, a principal iniciativa foi um programa de modernização das plantas de tratamento de gás das plataformas P-74, P-75, P-76 e P-77, com a substituição das membranas de remoção de dióxido de carbono.
Vale explicar por que isso importa tanto. O gás que sai junto com o petróleo no pré-sal vem carregado de CO₂, em proporções altas. Antes de mandar esse gás para terra, é preciso separar o dióxido de carbono, e essa separação acontece em membranas que funcionam como filtros seletivos. Quando a membrana perde eficiência, o gargalo deixa de ser o poço e passa a ser a planta de tratamento.
O resultado da troca foi expressivo. Conforme a Petrobras, a capacidade de exportação dessas unidades subiu de aproximadamente 1,5 milhão para 3 milhões de metros cúbicos por dia em cada plataforma. Em outras palavras, dobrou.

Multiplique isso por quatro plataformas e aparece o motivo dos recordes. O gás já estava sendo produzido. O que faltava era capacidade de tratar e escoar, e essa capacidade foi destravada trocando um componente, não construindo um casco.
Há uma diferença de prazo que ajuda a entender o peso disso. Uma plataforma nova leva anos entre a decisão de investimento, a contratação do estaleiro, a construção, o reboque até o campo e a interligação dos poços. Uma campanha de substituição de membranas acontece dentro da unidade que já está ancorada e produzindo, em janelas de parada programada.
Vale lembrar ainda que o gás de Búzios não é um subproduto qualquer. Ele sai associado ao óleo, com teor elevado de CO₂, e a legislação e o próprio modelo de operação exigem destino para esse gás. Reinjetar parte dele no reservatório ajuda a manter a pressão, mas o que se consegue exportar vira receita e vira insumo em terra.
O que ainda vem pela frente até 2032
A expansão não para por aí. De acordo com a Petrobras, a ampliação da capacidade de exportação de gás deve continuar nos próximos anos, com a entrada em operação dos sistemas previstos para as plataformas P-78 e P-79 até 2027.
No desenho completo, 8 das 12 plataformas previstas para o campo terão capacidade de exportar gás. A última peça desse arranjo é a unidade Búzios 12, com operação estimada para 2032 e capacidade prevista de 5,5 milhões de metros cúbicos por dia.
Confesso que o número que mais me chama atenção não é o recorde diário, e sim o de julho de 2024. Sair de 4,7 milhões para 14,1 milhões de metros cúbicos em pouco mais de dois anos, boa parte disso por eficiência, é o tipo de ganho que costuma passar despercebido justamente porque não tem inauguração nem foto de plataforma chegando.

Há um efeito de cadeia nisso que interessa muito além da produção de petróleo. Gás que chega em terra abastece indústria, termelétrica e a cadeia de fertilizantes, setores que no Brasil convivem há anos com preço alto e oferta apertada. Cada milhão de metros cúbicos a mais no gasoduto é insumo disponível para quem produz.
Para quem acompanha o setor, esse é o tipo de resultado que revela maturidade operacional. Campo novo cresce por adição de unidade, o que é previsível. Campo maduro cresce por engenharia fina, encontrando folga onde parecia não haver, e isso exige conhecer o ativo em detalhe.
Registro também o que a Petrobras não informou. O valor investido no programa de modernização das plantas de tratamento não consta da divulgação, assim como o prazo total de execução da troca de membranas nas quatro unidades.
Fica a lição de engenharia, que serve para muito mais coisa do que plataforma de petróleo. Às vezes o ativo não precisa ser ampliado. Precisa que alguém encontre onde está o estrangulamento e resolva aquele ponto específico, que costuma ser bem menor do que a obra inteira que se imaginava necessária.
Dobrar a exportação de gás trocando membranas em vez de erguer plataforma: o que você acha desse tipo de ganho?

