Mesmo com uma melhora entre abril e junho, o prejuízo dos Correios cresceu 30,4% no semestre; após empréstimo de R$ 12 bilhões, estatal negocia mais R$ 7 bilhões e terá previsão de aporte federal de R$ 6 bilhões em 2027
Os Correios perderam R$ 5,55 bilhões somente nos primeiros seis meses de 2026. O número, por si só, já chama atenção. Porém, existe um dado ainda mais preocupante: mesmo com sinais de melhora no segundo trimestre, o prejuízo dos Correios aumentou 30,4% em relação ao mesmo período de 2025 e mantém a estatal no caminho para terminar o ano com o pior resultado financeiro de sua história.
Os números definitivos foram divulgados pelos Correios no sábado, 29 de agosto de 2026, e atualizam informações preliminares que circulavam anteriormente. O próprio CPG havia mostrado que a estatal acumulava cerca de R$ 5,4 bilhões negativos enquanto as demonstrações ainda estavam sendo consolidadas. Agora, o balanço fechado elevou esse valor para R$ 5,55 bilhões. Veja a matéria anterior do CPG sobre o prejuízo dos Correios
A situação cria um contraste difícil de ignorar. Os Correios estão conseguindo reduzir algumas despesas e diminuíram o prejuízo de um trimestre para outro. Ainda assim, continuam perdendo bilhões de reais, precisam de crédito para sustentar a reestruturação e já contam com uma nova injeção de recursos federais prevista para 2027.
-
Luciano Hang inaugurou no sábado (29) a 196ª loja da Havan, uma megaloja em Caldas Novas erguida com R$ 100 milhões, 200 empregos diretos e mais de 350 mil produtos, e comemorou nas redes sociais que faltam apenas quatro unidades para a rede bater a meta de 200 filiais no Brasil
-
ANTT libera o edital do corredor ferroviário que vai ligar o interior de Minas ao porto de Angra dos Reis, com 733 quilômetros divididos em dois lotes e leilão marcado para o último trimestre
-
Sancionada a lei que dá ao governo a régua para cortar tributos federais sobre importação, produção e venda dos principais combustíveis, e que ainda abre benefício para fertilizantes e minerais críticos
-
Governo prorroga por 60 dias o imposto de 12% sobre a exportação de petróleo no mesmo dia em que a Justiça Federal derruba a cobrança por liminar, e o setor fica com duas decisões opostas na mesa
Prejuízo cai de um trimestre para outro, mas o buraco do semestre ficou maior
À primeira vista, os números mais recentes trazem uma notícia positiva.
No primeiro trimestre de 2026, os Correios haviam registrado R$ 3,16 bilhões de prejuízo líquido. Entre abril e junho, a perda caiu para R$ 2,39 bilhões, uma redução de 24,4% na comparação entre os dois períodos.
Quando comparado ao segundo trimestre de 2025, o resultado também apresentou melhora. Naquela ocasião, a estatal havia perdido aproximadamente R$ 2,53 bilhões.
O problema aparece quando se amplia a fotografia.
Somados, janeiro, fevereiro, março, abril, maio e junho deixaram um rombo de R$ 5,55 bilhões. Um ano antes, no mesmo intervalo, o prejuízo havia sido de aproximadamente R$ 4,26 bilhões.
Ou seja, embora a velocidade das perdas tenha diminuído entre o primeiro e o segundo trimestre, o prejuízo acumulado continua muito acima daquele registrado há apenas um ano.
É exatamente essa combinação que ajuda a explicar por que a direção da estatal fala em melhora, enquanto especialistas continuam enxergando um problema financeiro estrutural.
Correios já tiveram prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões — e 2026 pode ser ainda pior
A comparação fica mais delicada quando se olha para o resultado do ano passado.
Em 2025, os Correios fecharam o exercício com prejuízo de aproximadamente R$ 8,5 bilhões, até então o maior resultado negativo da história da companhia.
O CPG acompanhou aquele balanço e mostrou como a deterioração das contas já obrigava a estatal a acelerar seu plano de reestruturação. Relembre no CPG o prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões registrado pelos Correios em 2025
Agora, a expectativa dentro do próprio governo é que 2026 termine com uma perda ainda superior à registrada em 2025. Isso faria deste ano um novo recorde negativo para a companhia.
A projeção, contudo, não significa que o resultado final já esteja definido. Ainda faltam os balanços do terceiro e do quarto trimestres.
O que existe até agora é uma trajetória financeira suficientemente negativa para colocar esse risco no radar.
Receita encolhe enquanto custos continuam consumindo quase tudo o que entra
O desafio não está somente no tamanho do prejuízo.
A receita líquida dos Correios somou cerca de R$ 7,87 bilhões no primeiro semestre, queda de aproximadamente 3,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Entre o primeiro e o segundo trimestre houve alguma recuperação: a receita líquida passou de R$ 3,86 bilhões para R$ 4,01 bilhões, crescimento de 3,8%.
Ainda assim, a margem disponível depois dos custos diretamente relacionados aos serviços permanece muito estreita.
Esse é um ponto importante para entender a crise.
Não basta aos Correios colocar bilhões de reais dentro do caixa todos os meses por meio das vendas. A companhia precisa gerar dinheiro suficiente depois de pagar os custos das operações para bancar salários, administração, dívidas, despesas financeiras, processos judiciais e investimentos.
Quando essa sobra é pequena, qualquer aumento significativo em juros, despesas judiciais ou queda de receita pode empurrar novamente o balanço para baixo.
Negócio internacional perdeu R$ 460 milhões em receita
Outra peça desse quebra-cabeça aparece nas encomendas internacionais.
O balanço apontou uma redução de aproximadamente R$ 460,4 milhões nas receitas do segmento internacional durante o primeiro semestre.
Essa queda acontece justamente quando o mercado brasileiro de encomendas passa por mudanças profundas.
Durante décadas, os Correios ocuparam uma posição praticamente natural na logística de pequenas encomendas. O avanço do comércio eletrônico, entretanto, trouxe novos competidores, redes próprias de distribuição e transportadoras cada vez mais integradas às grandes plataformas digitais.
Ao mesmo tempo, o serviço postal tradicional perdeu relevância econômica.
Na prática, a estatal precisa sustentar uma enorme infraestrutura nacional enquanto disputa os segmentos mais rentáveis com empresas privadas que nasceram ou cresceram justamente para atender ao comércio eletrônico.
Empréstimo de R$ 12 bilhões deu fôlego, mas não resolveu o problema
Para impedir que a falta de caixa interrompesse obrigações essenciais, os Correios recorreram ao sistema financeiro.
No fim de 2025, a companhia contratou R$ 12 bilhões em crédito com garantia da União.
O tamanho da operação colocou os Correios em uma posição inédita entre as empresas públicas. Conforme o CPG mostrou em abril, a estatal passou a concentrar 77,6% das garantias da União relacionadas às operações de crédito de empresas estatais. Entenda no CPG como o empréstimo de R$ 12 bilhões transformou os Correios na estatal com maior dívida avalizada pelo Tesouro
Segundo a própria companhia, o dinheiro permitiu regularizar compromissos de curto prazo e reorganizar o perfil da dívida.
Parte do crédito também foi usada para quitar antecipadamente R$ 1,8 bilhão de uma dívida bancária mais onerosa. A regularização de passivos vencidos teria proporcionado economia de aproximadamente R$ 322 milhões.
Além disso, houve alongamento de parte relevante da dívida, cujo prazo passou de 18 para 180 meses.
Isso reduz a pressão imediata sobre o caixa.
Mas não elimina o problema principal: a companhia continua apresentando prejuízo operacional e financeiro elevado.
Depois dos R$ 12 bilhões, mais R$ 7 bilhões estão sendo negociados
É justamente aí que aparece outro número importante.
Mesmo após contratar os R$ 12 bilhões, os Correios estão negociando uma segunda operação de crédito na casa dos R$ 7 bilhões.
O Conselho Monetário Nacional já havia autorizado uma nova contratação de até R$ 8 bilhões com garantia do Tesouro, enquanto as negociações passaram a trabalhar com aproximadamente R$ 7 bilhões.
Caso a nova operação seja concluída nesse valor, os dois empréstimos somariam aproximadamente R$ 19 bilhões.
Isso não significa que R$ 19 bilhões tenham sido perdidos. São recursos de financiamento que precisam ser pagos posteriormente, acrescidos das condições financeiras previstas nos contratos.
O ponto central é outro: o tamanho da necessidade de crédito revela quanto caixa a estatal precisa para atravessar sua reestruturação sem interromper pagamentos e operações.
E ainda há R$ 6 bilhões previstos para entrar em 2027
A conta financeira não termina nos empréstimos.
O governo federal decidiu incluir no Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027 uma previsão de aporte de R$ 6 bilhões nos Correios.
Esse valor não surgiu agora.
O aporte estava ligado às condições negociadas com os bancos que participaram do empréstimo de R$ 12 bilhões firmado no fim de 2025.
Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander participaram daquela operação. A previsão de uma capitalização federal ajudou a dar segurança financeira ao acordo.
Na prática, portanto, o plano de recuperação dos Correios combina três grandes frentes financeiras: R$ 12 bilhões já contratados, cerca de R$ 7 bilhões em uma nova operação ainda negociada e R$ 6 bilhões previstos como aporte federal em 2027.
São mecanismos diferentes e não devem ser tratados como se representassem uma única transferência de dinheiro público. Ainda assim, juntos dão uma dimensão do esforço financeiro necessário para reorganizar a companhia.
Mais de 6,5 mil trabalhadores já deixaram os Correios
A reestruturação também chegou diretamente aos trabalhadores.
Segundo os dados mais recentes, 6.545 empregados já deixaram os Correios por meio de programas de desligamento voluntário, sendo 2.767 somente durante o primeiro semestre de 2026.
Mesmo após reajuste salarial de 5,1%, a empresa afirma ter conseguido reduzir suas despesas com pessoal em aproximadamente 4%.
Mas o ajuste ainda não acabou.
O CPG mostrou em junho que os Correios preparavam uma nova etapa de seu Programa de Demissão Voluntária capaz de alcançar até 7 mil trabalhadores, concentrando parte dos desligamentos justamente em unidades que seriam afetadas pela reorganização da rede. Veja no CPG os detalhes do novo PDV que pode atingir até 7 mil funcionários dos Correios
A primeira tentativa de reduzir o quadro já havia encontrado dificuldades.
Em outra reportagem, o CPG mostrou que pouco mais de 3 mil trabalhadores aderiram a uma rodada anterior do PDV, quando a meta inicialmente considerada era chegar a 10 mil desligamentos. Entenda por que o primeiro PDV dos Correios ficou muito abaixo da meta de desligamentos
Fechamento de unidades e venda de imóveis entram no plano
Os cortes de pessoal fazem parte de uma transformação mais ampla.
O plano de reestruturação prevê medidas como fechamento de unidades, revisão de contratos, venda de imóveis, redução de despesas e mudanças no modelo operacional.
Uma das frentes envolve cerca de mil pontos entre agências e unidades relacionadas ao tratamento de cargas, segundo informações divulgadas sobre o programa.
A estatal também busca novas formas de utilizar sua estrutura física, incluindo parcerias com o poder público e empresas privadas.
A lógica é relativamente simples: uma rede construída para um mercado postal muito maior precisa ser adaptada para um cenário em que cartas perderam espaço e as encomendas enfrentam concorrência muito mais agressiva.
Mas executar essa mudança sem prejudicar a cobertura nacional é justamente uma das partes mais difíceis da reestruturação.
Entregas atrasadas também custam dinheiro
Existe ainda um problema que aparece menos nas grandes cifras, mas chega diretamente à experiência de quem utiliza os serviços.
Os Correios registraram aumento de despesas relacionadas a indenizações por objetos entregues fora dos prazos, especialmente devido ao desempenho operacional observado no primeiro trimestre.
Isso cria um ciclo delicado.
A empresa precisa cortar despesas para reduzir o prejuízo. Ao mesmo tempo, não pode fazer uma redução tão agressiva de estrutura e pessoal que piore as entregas, afaste clientes e reduza ainda mais a receita.
Em uma empresa de logística, economizar sacrificando a qualidade pode acabar criando novas perdas posteriormente.
Correios dizem que reestruturação começa a aparecer nos números
Apesar do cenário, a direção dos Correios argumenta que os resultados entre abril e junho já mostram os primeiros efeitos das mudanças.
Além da redução do prejuízo trimestral, houve crescimento de 3,8% da receita líquida em relação ao primeiro trimestre e redução de aproximadamente 25% do resultado negativo antes das despesas financeiras.
Em comunicado oficial, a companhia afirmou que o resultado acumulado ainda permanece desafiador e que pretende continuar trabalhando na recuperação das receitas, aumento da eficiência, revisão de contratos e modernização de seu modelo de negócios.
Confira o comunicado oficial dos Correios sobre os resultados do segundo trimestre de 2026
Essa melhora entre os trimestres, portanto, existe.
O problema é a distância que ainda separa uma redução das perdas de uma recuperação financeira verdadeira.
A grande pergunta agora é quanto os Correios ainda vão perder até dezembro
Os próximos dois trimestres serão decisivos.
Para evitar um novo recorde negativo, os Correios precisariam reduzir de maneira bastante significativa o prejuízo registrado na segunda metade do ano.
A referência é 2025: R$ 8,5 bilhões negativos.
Com R$ 5,55 bilhões já acumulados até junho, qualquer deterioração mais forte no segundo semestre aumenta a possibilidade de 2026 ultrapassar essa marca.
É por isso que os números recém-divulgados contam duas histórias ao mesmo tempo.
Uma delas mostra uma empresa que reduziu o prejuízo entre o primeiro e o segundo trimestre, cortou gastos, renegociou dívidas e conseguiu algum fôlego financeiro.
A outra mostra uma estatal que ainda perdeu R$ 5,55 bilhões em apenas seis meses, precisa negociar outros R$ 7 bilhões em crédito e terá R$ 6 bilhões previstos no Orçamento federal de 2027 para sustentar sua recuperação.
Entre essas duas histórias está o verdadeiro teste para os Correios: provar que a melhora registrada entre abril e junho não foi apenas uma pausa no avanço das perdas, mas o início de uma reversão capaz de impedir que 2026 termine registrado como o pior ano financeiro de sua história.

