Em Shingu, na região de Kyushu, a Nishida Shoun, liderada por Masumi Nishida, recolhe banha do tonkotsu ramen e óleo de tempurá usado, reage com insumos químicos e produz cerca de 3 mil litros mensais de biodiesel, combustível que já abastece diretamente metade de 170 caminhões e mira reduzir CO2.
No pátio de uma transportadora que depende de caminhões a diesel, a cena parece comum até o detalhe que muda tudo: parte da frota roda com combustível nascido do ramen, daquelas panelas de tonkotsu que costumam ficar no bastidor dos restaurantes, longe de qualquer posto.
A iniciativa é conduzida por Masumi Nishida, presidente da Nishida Shoun, que encontrou no resíduo do tonkotsu ramen e no óleo de cozinha usado uma forma de abastecer veículos, encarar custos e ainda perseguir uma meta ambiental concreta, com redução de CO2 como norte declarado.
De onde veio a ideia e por que o ramen entrou na equação

A origem do projeto não foi um laboratório distante nem uma campanha de marketing, e sim uma dor bem cotidiana de quem serve tonkotsu ramen: o que fazer com a sopa e, principalmente, com a gordura que sobra depois do serviço.
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Um dono de restaurante conhecido de Nishida teria relatado dificuldade para descartar o excedente, e a pergunta abriu uma rota inesperada dentro de uma empresa que precisa de diesel todos os dias.
A chave foi enxergar o resíduo como matéria-prima, não como lixo. Ao mesmo tempo em que a cozinha buscava uma saída para a sobra do ramen, a transportadora tinha um problema estrutural: caminhões a diesel são essenciais para a operação, e o uso contínuo de combustível fóssil aumenta emissões de CO2, justamente o ponto que Nishida diz ter passado a encarar com mais peso conforme a empresa cresceu.
A história pessoal também pesa nesse empurrão. A trajetória citada é de longo prazo: a empresa teria começado há cerca de 54 anos com apenas um caminhão e, conforme a frota aumentou, a consciência sobre emissões se tornou parte do debate interno.
Nesse contexto, o tonkotsu ramen deixou de ser apenas um prato típico e virou uma fonte de insumo energético.
Como a banha do tonkotsu e o óleo usado viram biodiesel

O coração técnico do projeto é a transformação da gordura separada da sopa de tonkotsu ramen em biodiesel, combinada com óleo de cozinha usado, como o de tempurá.
O procedimento descrito passa por retirar a banha do caldo e fazê-la reagir com substâncias químicas para chegar a um combustível utilizável em motores a diesel.
A primeira tentativa teria sido rápida, com resultado em cerca de uma semana, mas isso não significa que o caminho tenha sido “apertar um botão”.
Combustível não é só uma receita, é controle de qualidade, porque qualquer variação na composição da banha do ramen ou do óleo usado pode alterar o comportamento do biodiesel no sistema de injeção, na combustão e na estabilidade do armazenamento.
O ponto prático que sustenta a iniciativa é a comparação de desempenho: é dito que a eficiência energética do combustível feito a partir da sopa de tonkotsu ramen fica “quase igual” à do diesel convencional.
Essa equivalência, mesmo tratada de forma geral, ajuda a entender por que a frota conseguiu incorporar o biocombustível sem depender de uma mudança total de tecnologia no caminhão.
Logística de coleta: a parceria com restaurantes de ramen em Kyushu

Para produzir biodiesel em escala mensal, não basta ter a ideia, é preciso garantir fluxo constante de matéria-prima. A solução foi expandir a coleta para a região de Kyushu, firmando parceria com restaurantes de tonkotsu ramen e organizando a separação da gordura diretamente nas lojas.
Na prática, cada restaurante precisaria separar a banha da sopa de ramen e armazená-la, enquanto funcionários da Nishida Shoun fazem a retirada. O que era descarte vira rotina, e isso reduz o atrito para o restaurante, que deixa de lidar sozinho com a sobra de gordura e passa a integrar um circuito de reaproveitamento.
A relação foi descrita como vantajosa para ambos os lados: os ingredientes chegam “gratuitamente” para quem produz o biodiesel, e a destinação da banha deixa de ser um problema para a loja.
Também aparece a referência de um valor mensal em torno de 5.000 ienes para um restaurante, com taxa de processamento gratuita, o que sugere um modelo de parceria em que o ponto central não é vender combustível, e sim viabilizar a coleta e a conversão do resíduo do ramen em energia.
O que muda no dia a dia dos caminhões e como medir desempenho
O número que dá dimensão ao projeto é direto: cerca de 3 mil litros por mês de biodiesel, usados para abastecer aproximadamente metade dos 170 caminhões da empresa.
Em operação, isso significa que o combustível do tonkotsu ramen não está restrito a um teste isolado, ele entra no planejamento de abastecimento e na continuidade do serviço.
Mesmo assim, o cotidiano do caminhoneiro não pode depender de surpresas. Se o biodiesel varia, a operação sente. Por isso, quando se fala em “desempenho quase igual ao diesel”, o combustível precisa manter padrão para não prejudicar partidas, resposta do motor e confiabilidade em rotas longas.
Há ainda um detalhe humano que ajuda a entender a aceitação: a ideia do “caminhão de sopa de ramen” chama atenção, gera conversa e, segundo o relato, começa a ser percebida na rua, quando alguém vê o caminhão passando e associa a iniciativa à popularização.
Esse tipo de reconhecimento social não substitui o critério técnico, mas influencia o quanto a equipe compra a proposta e a sustenta no dia a dia.
Redução de CO2: o raciocínio por trás do “ciclo do carbono” do biodiesel

A promessa ambiental do biodiesel, no discurso apresentado, não é mágica, é argumento de ciclo: combustíveis fósseis como o diesel vêm de fontes subterrâneas e, ao queimar, adicionariam CO2 “novo” à atmosfera.
Já o biodiesel feito de óleos animais e vegetais, como a banha do tonkotsu ramen e o óleo usado, se apoia na ideia de que o carbono emitido na combustão foi recentemente incorporado por cadeias biológicas, reduzindo o aumento líquido da concentração atmosférica.
Esse é o tipo de meta ambiental que depende de consistência, não de slogans. Para que a redução de CO2 seja mais do que intenção, é preciso manter a substituição real de diesel por biodiesel ao longo do tempo, garantir que o volume produzido não seja apenas simbólico e preservar o funcionamento confiável dos caminhões, porque frota parada também tem custo ambiental indireto.
O próprio histórico atribuído à presidente reforça a persistência: são citados mais de 20 anos de pesquisa e aprimoramento em biocombustíveis, o que coloca o projeto do ramen como parte de uma linha contínua de tentativa, erro, ajuste e uso prático, em vez de uma experiência pontual para “viralizar”.
Limites, desafios e o que faltaria para todos os 170 caminhões
Transformar o biodiesel do tonkotsu ramen em combustível para metade de 170 caminhões já é um marco operacional, mas o passo seguinte é ainda mais exigente: a intenção declarada é que, no futuro, todos os caminhões rodem com combustível de biomassa.
Para isso, a equação precisa fechar em três frentes ao mesmo tempo: matéria-prima suficiente, processo estável e logística de distribuição interna do combustível.
O ponto mais sensível tende a ser a oferta contínua de gordura do ramen e de óleo usado. Se a coleta oscila, a produção oscila.
Se a produção oscila, a frota volta a depender mais do diesel convencional. Escala é uma disciplina, e ela exige rede de parceiros, armazenamento, padronização do que chega e do que sai, além de uma operação que não comprometa o serviço de transporte.
Também existe o desafio de percepção: por mais que a história seja “acolhedora” e fácil de contar, o que sustenta a mudança é a performance e a previsibilidade do combustível.
O biodiesel do ramen precisa continuar entregando resultado “quase igual” ao diesel, mês após mês, para que a meta de substituir toda a frota deixe de ser horizonte e vire cronograma.
A história de caminhões abastecidos com tonkotsu ramen chama atenção porque junta dois mundos que quase nunca se encostam, a cozinha e a estrada, e transforma sobra em abastecimento real.
Não é um truque, é uma cadeia organizada, com coleta, separação de gordura, conversão química e uso contínuo em uma frota grande o bastante para mostrar que a ideia saiu do campo do curioso.
Se você tivesse um restaurante de ramen na sua cidade, toparia separar a banha para alimentar uma frota de caminhões, ou acha que esse tipo de parceria só funciona onde a cultura do reaproveitamento já está madura?
O que precisaria acontecer, na prática, para isso virar algo comum no Brasil também?


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