Relatório da FAO e da Organização Meteorológica Mundial revela que o calor extremo já ameaça a produção de alimentos e os meios de subsistência de mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. Cada grau de aquecimento global reduz em cerca de 6% a colheita das quatro principais culturas do planeta, e a intensidade dos eventos extremos pode quadruplicar se a temperatura subir 3 graus.
A produção global de alimentos está sendo empurrada para o limite pelo calor extremo, e os números do mais recente relatório das agências de alimentação e meteorologia da ONU deixam pouco espaço para otimismo. Segundo o documento publicado pela FAO e pela Organização Meteorológica Mundial, cada aumento de um grau na temperatura média global reduz a produção das quatro principais culturas do mundo, milho, arroz, soja e trigo, em aproximadamente 6%. O dado é alarmante porque o aquecimento global está se acelerando: 2025 figura entre os três anos mais quentes já registrados.
O relatório vai além das estatísticas de colheita e toca em uma questão que afeta diretamente a vida de quem trabalha no campo. Kaveh Zahedi, chefe do escritório de mudanças climáticas da FAO, afirmou que o calor extremo está reescrevendo o roteiro sobre o que os agricultores, pescadores e silvicultores podem cultivar, quando podem cultivar e, em alguns casos, se ainda conseguem trabalhar. Mais de 1 bilhão de pessoas dependem de sistemas agroalimentares que já operam sob pressão térmica crescente, e a margem de segurança da qual plantas, animais e seres humanos dependem para funcionar está diminuindo.
Como o calor extremo reduz a produção das principais culturas do planeta
Segundo informações divulgadas pelo portal g1, a relação entre temperatura e rendimento agrícola segue uma curva que tem um ponto de ruptura claro. A produtividade da maioria das principais culturas cai significativamente quando as temperaturas ultrapassam cerca de 30°C, limiar a partir do qual processos biológicos essenciais como a fotossíntese e a polinização são prejudicados. Acima desse patamar, cada grau adicional intensifica as perdas de forma desproporcional.
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O caso do Marrocos ilustra o que acontece quando o calor extremo se soma à seca prolongada. Seis anos consecutivos de seca seguidos por ondas de calor recordes levaram a uma queda de mais de 40% na produção de cereais do país, além de dizimar colheitas de azeitonas e frutas cítricas. Para Zahedi, o exemplo marroquino não é uma exceção, mas um sinal do que pode se tornar rotina em regiões agrícolas vulneráveis ao redor do mundo se o aquecimento continuar no ritmo atual.
O que acontece com a produção de alimentos se a temperatura subir 2 ou 3 graus
Os riscos aumentam de forma não linear à medida que o aquecimento global avança. Segundo o relatório, a intensidade dos eventos extremos de calor dobra aproximadamente a 2°C de aquecimento e quadruplica a 3°C, em comparação com o cenário de 1,5°C que o Acordo de Paris estabeleceu como meta. Isso significa que a diferença entre 1,5°C e 3°C não é apenas numérica: ela separa cenários de adaptação possível de cenários de colapso agrícola em regiões inteiras.
Para a produção de milho, arroz, soja e trigo, a matemática é direta. Se cada grau reduz o rendimento em 6%, um aquecimento de 2°C representaria perda de 12% na colheita global dessas culturas, e um cenário de 3°C chegaria a 18%. Esses números não consideram os efeitos combinados de seca, pragas e degradação do solo, que tendem a se intensificar simultaneamente com o calor, criando um efeito multiplicador que os modelos agrícolas ainda lutam para quantificar com precisão.
Os oceanos também estão sofrendo e a pesca entra na conta
O impacto do calor extremo não se limita à terra. As ondas de calor marinhas estão se tornando mais frequentes, reduzindo os níveis de oxigênio na água e ameaçando os estoques de peixes que alimentam centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Em 2024, 91% dos oceanos sofreram pelo menos uma onda de calor marinha, segundo o relatório da FAO e da ONU.
A elevação da temperatura da água compromete a cadeia alimentar marinha desde a base, afetando o fitoplâncton e reduzindo a disponibilidade de nutrientes para espécies comerciais. Para comunidades costeiras que dependem da pesca como fonte de renda e proteína, a combinação de oceanos mais quentes e estoques em declínio representa uma ameaça existencial que se soma aos problemas enfrentados pela agricultura terrestre. O relatório trata ambos os fenômenos como partes de um mesmo problema: a pressão térmica sobre os sistemas que alimentam a humanidade.
O que a ONU propõe para proteger a produção de alimentos diante do calor
A FAO e a Organização Meteorológica Mundial afirmam que as respostas fragmentadas adotadas até agora são inadequadas. O relatório pede melhor governança dos riscos climáticos e sistemas meteorológicos de alerta antecipado que permitam aos agricultores ajustar suas decisões de plantio e colheita antes que o calor cause danos irreversíveis. Zahedi enfatizou que, se os dados climáticos chegarem às mãos dos agricultores a tempo, eles poderão escolher o que plantar, quando plantar e quando colher com mais segurança.
No entanto, o documento é claro ao afirmar que a adaptação sozinha não resolve o problema. A única solução duradoura para a ameaça crescente do calor extremo sobre a produção global de alimentos é uma ação ambiciosa e coordenada para conter a mudança climática na origem, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa que alimentam o aquecimento do planeta. Sem essa ação estrutural, os sistemas de alerta e as técnicas de adaptação serão insuficientes para compensar perdas que crescem a cada grau adicional de temperatura.
Você já percebeu os efeitos do calor extremo na produção de alimentos ou no preço do que compra no supermercado? Conte nos comentários se a realidade descrita pelo relatório da ONU faz sentido na sua região e o que acha que deveria ser feito para proteger a agricultura.

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