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Cabos submarinos instalados para transmitir internet agora também ajudam cientistas a detectar terremotos

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 29/03/2026 às 15:32
Atualizado em 29/03/2026 às 15:35
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Enquanto transportam dados por milhares de quilômetros, cabos submarinos passam a identificar abalos sísmicos, seguir o movimento das águas e captar sinais do fundo oceânico, abrindo uma nova frente de monitoramento que muda a leitura estratégica.

Os cabos submarinos usados para transmitir internet deixaram de ser apenas canais de comunicação entre continentes. Em vários trechos do oceano, essa infraestrutura passou a servir também para captar sinais do ambiente marinho e transformar vibrações em informação científica.

Na prática, isso abre uma nova frente para monitorar terremotos, acompanhar movimentos da água e observar alterações no fundo do mar sem depender apenas da instalação de equipamentos novos em larga escala. O efeito mais direto é ampliar a vigilância em regiões oceânicas onde faltam sensores.

Tecnologia já instalada começa a ler o oceano

A principal mudança está no uso da própria fibra óptica como sensor. Em vez de operar só como meio de transmissão de dados, o cabo passa a registrar pequenas variações físicas provocadas por ondas, vibrações e deslocamentos ao longo do trajeto submerso.

Esse tipo de leitura permite captar sinais que vêm do mar e do subsolo. Com isso, uma estrutura criada para levar internet também ajuda a montar uma espécie de rede contínua de observação em áreas profundas e de difícil acesso.

Localização da matriz. a Mapa local mostrando a localização da Belgium Distributed Acoustic Sensing Array (BDASA, linha vermelha) e da estação de banda larga próxima BOST (triângulo azul), com um mapa regional em destaque. b Mapa mundial mostrando a localização da matriz (caixa vermelha), a solução GCMT para o terremoto profundo de Fiji de 19 08 2018, magnitude Mw 8,2, e o trajeto de grande círculo entre o epicentro do terremoto e a matriz (linha amarela).

Mediterrâneo mostrou avanço na detecção de sismos

Testes feitos em cabos no Mediterrâneo já indicaram capacidade real de registrar microvibrações, movimentos sísmicos regionais e até abalos que ocorreram a grandes distâncias. O ganho está na densidade da cobertura, já que o cabo percorre longas faixas do leito marinho.

Em alguns casos, a leitura foi suficiente para localizar sinais ao longo do trajeto e identificar anomalias associadas a terremotos moderados e grandes. Isso reforça o potencial de uso em monitoramento contínuo e em resposta mais rápida a eventos geológicos.

Correntes oceânicas também entram no radar com cabos ativos

Além dos sismos, os cabos passaram a oferecer pistas sobre o comportamento do mar. O movimento das ondas e da água provoca alterações detectáveis na fibra, o que permite inferir velocidade e direção de correntes em determinados cenários.

Esse avanço é relevante porque o oceano ainda tem grandes vazios de monitoramento. Ao usar a infraestrutura que já cruza zonas costeiras e áreas profundas, os pesquisadores conseguem ampliar a leitura da dinâmica marinha com custo menor que o de uma nova rede exclusiva.

Projeto SMART amplia pressão, temperatura e alerta no fundo do mar

No meio dessa evolução, segundo UIT, agência da ONU para telecomunicações e padrões globais, a proposta dos cabos SMART prevê incluir sensores dedicados para medir pressão, temperatura e atividade sísmica no fundo do oceano.

Esse passo vai além da leitura da fibra já existente. A ideia é usar novos sistemas comerciais com sensores incorporados para reforçar a observação climática, melhorar o acompanhamento de tsunamis e ampliar o monitoramento de mudanças físicas no leito marinho.

Fundo do mar passa a ser observado com mais continuidade

Quando o cabo registra deformações, vibrações e mudanças no ambiente ao redor, ele também ajuda a perceber transformações no fundo do mar ao longo do percurso. Isso inclui sinais ligados a sedimentos, perturbações locais e alterações físicas em áreas submersas.

Ainda não se trata de substituir todos os métodos clássicos de mapeamento do relevo submarino. O que muda é a capacidade de acompanhar com mais frequência o que acontece exatamente onde esses cabos já estão instalados, criando uma leitura mais constante do ambiente.

Limites ainda existem, mas o alcance científico cresceu

Nem todo cabo entrega o mesmo nível de resposta. A eficiência depende de fatores como profundidade, posição no leito marinho, tipo de leitura óptica e grau de contato do cabo com o fundo.

Mesmo assim, o avanço é considerado relevante porque aproveita uma malha que já existe em escala global. Em vez de começar do zero, a ciência passa a extrair valor adicional de uma estrutura que já sustenta parte da conexão mundial de dados.

Os cabos submarinos agora ocupam um espaço estratégico que vai muito além da internet. Eles ajudam a registrar abalos, acompanhar sinais do oceano e ampliar a observação de áreas onde o monitoramento ainda é escasso.

Com isso, a infraestrutura digital ganha peso também na ciência e na prevenção. A combinação entre comunicação, vigilância ambiental e leitura geológica muda a forma de enxergar o oceano e reposiciona a leitura estratégica.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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