Publicado na revista Geophysical Research Letters, o estudo do Instituto Potsdam usou observações diretas e concluiu que a mancha fria se estende até mil metros de profundidade, o que aponta para correntes mais fracas, e não para a atmosfera. Ainda assim, cientistas divergem sobre a proximidade de um ponto de inflexão.
Enquanto quase todo o planeta esquenta desde o século XIX, uma área do Atlântico Norte faz o caminho inverso e ganhou dos cientistas o apelido de mancha fria. Um novo estudo publicado na revista Geophysical Research Letters, em 2026, traz evidências adicionais sobre o fenômeno e aponta como causa mais provável o enfraquecimento de um grande sistema de correntes oceânicas no Atlântico. A região fica ao sul da Groenlândia e da Islândia, no chamado Atlântico subpolar.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, liderados pelo climatologista Stefan Rahmstorf. Em vez de depender apenas de modelos, a equipe recorreu a observações diretas feitas por satélites, boias e navios. A principal novidade é que o resfriamento não se limita à superfície e chega a cerca de mil metros de profundidade, o que muda a interpretação sobre o que está por trás da mancha fria.
Onde fica e o que é a mancha fria do Atlântico Norte

Ela se localiza no Atlântico subpolar, logo ao sul da Groenlândia e da Islândia.
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O resfriamento é registrado há cerca de 150 anos, desde a era pré-industrial, e por isso destoa de forma tão clara da tendência de aquecimento global observada no planeta.
Nas décadas mais recentes, o centro dessa região chegou a esfriar cerca de um grau Celsius, segundo os dados de temperatura usados no estudo.
O contraste fica evidente nos mapas de temperatura da superfície do mar, em que a área aparece como uma marca azul cercada por águas que esquentam.
É justamente esse comportamento na contramão que transformou a mancha fria em um dos enigmas mais estudados da ciência do clima.
A AMOC e por que as correntes oceânicas importam
A explicação mais provável, segundo o estudo, está no enfraquecimento da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC.
Trata-se de um sistema de correntes oceânicas que funciona como uma esteira transportadora, levando águas quentes e salgadas dos trópicos rumo ao norte do Atlântico.
Ao chegar perto do Ártico, essa água esfria, fica mais densa, afunda e retorna ao sul pelas profundezas, em um ciclo que distribui calor, carbono e nutrientes.
Esse mesmo movimento ajuda a regular o clima da Europa e da América do Norte, o que torna qualquer alteração relevante.
Diversos estudos vêm apontando sinais de que a AMOC pode estar perdendo força, e uma das hipóteses centrais é o derretimento acelerado das geleiras da Groenlândia, provocado pelo aquecimento global de origem humana.
O degelo despeja água doce no oceano, reduz a salinidade e mexe no equilíbrio de densidade que mantém as correntes oceânicas funcionando, o que pode estar por trás da mancha fria.
O que o novo estudo encontrou
Para testar as explicações em disputa, os autores compararam o conteúdo de calor do oceano entre 1955 e 2024 com o fluxo de calor na superfície entre 1955 e 2022.
Havia duas hipóteses concorrentes para a mancha fria.
Uma atribuía o resfriamento à perda de calor para a atmosfera, puxada por mudanças no vento e nas nuvens.
A outra apontava para correntes mais fracas, que levariam menos calor à região.
Os dados favoreceram a segunda explicação.
A perda de calor pela superfície não aumentou no período, e até diminuiu um pouco, enquanto o resfriamento se aprofundava até cerca de mil metros.
Para a equipe, esse padrão indica que o problema está no transporte de calor pelas correntes oceânicas, e não no que ocorre na superfície.
Nas palavras de Rahmstorf, ventos e nuvens explicam apenas uma fração modesta do fenômeno, o que reforça a hipótese de uma AMOC mais lenta.
Por que ainda há cautela entre os cientistas
Apesar do peso das novas evidências, o próprio estudo não afirma quão perto a circulação estaria de um ponto de inflexão.
Há limitações reconhecidas, a começar pelo fato de que o fluxo de calor na superfície não foi medido diretamente, mas estimado por modelos.
Além disso, um estudo de 2021, que usou parte das mesmas bases de dados, chegou a atribuir a maior parte da mancha fria ao fortalecimento dos ventos, o que mostra que o tema segue em aberto.
Pesquisadores que não participaram do trabalho pedem prudência na leitura dos resultados.
David Thornalley, da University College London, considera o estudo útil, mas avalia que ele não será a palavra final sobre as causas da mancha fria. Neil Fraser, da Scottish Association for Marine Science, lembra que os dados ainda são limitados e que explicações alternativas não podem ser totalmente descartadas.
A mensagem é que o resultado soma evidências, sem encerrar o debate.
Os possíveis impactos de um enfraquecimento
Caso a AMOC enfraqueça de forma extrema ou venha a colapsar no futuro, os efeitos seriam sentidos muito além do Atlântico Norte.
Entre as consequências citadas pela ciência estão o resfriamento de partes da Europa, mudanças nos regimes de chuva em várias regiões do planeta e a elevação do nível do mar ao longo da costa leste dos Estados Unidos.
Rahmstorf chama atenção ainda para o giro subpolar, uma circulação menor que, se ultrapassar seu próprio ponto de inflexão, poderia afetar o oeste europeu já na década de 2040.
O tema chegou à cultura popular com o filme O Dia Depois de Amanhã, estrelado por Dennis Quaid e Jake Gyllenhaal.
Na trama, uma parada brusca das correntes oceânicas mergulha o planeta em uma nova era glacial em poucos dias.
A velocidade mostrada na ficção é muito exagerada, mas a preocupação de fundo, com a sensibilidade do sistema climático a mudanças nas correntes, tem base em pesquisas reais como as que investigam a mancha fria.
O novo estudo não decreta um colapso iminente, mas reforça a ideia de que o Atlântico Norte vem passando por transformações que merecem atenção.
Ao mostrar que a mancha fria se aprofunda no oceano, a pesquisa fortalece a hipótese de uma AMOC mais lenta e coloca o foco no papel das correntes oceânicas dentro da crise climática.
Ao mesmo tempo, as incertezas que permanecem lembram que ciência se faz com acúmulo de evidências, e não com conclusões apressadas.
E você, já tinha ouvido falar da mancha fria do Atlântico Norte e do papel da AMOC no clima do planeta? Acredita que o tema recebe a atenção que merece, ou passa despercebido diante de outras pautas ambientais? Deixe sua opinião nos comentários, com respeito às diferentes opiniões, e compartilhe esta matéria com quem se interessa por ciência e clima.


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