Em 20 de novembro de 1980, um buraco gigante em lago raso na Luisiana drenou o Lago Peigneur em três horas, engoliu 3,4 bilhões de galões de água, sugou barcaças, explodiu um gasoduto, criou uma cachoeira ao contrário e deixou cicatriz ambiental profunda, cara e visível até hoje do espaço
Um buraco gigante em lago de apenas três metros de profundidade transformou o Lago Peigneur, na Luisiana, em um vórtice capaz de sugar tudo ao redor. Em poucas horas, 3,4 bilhões de galões de água desapareceram, 11 barcaças de 61 metros, um rebocador, um cais de 280.000 m² e parte da ilha Jefferson foram engolidos, enquanto o fundo do lago cedia sobre uma mina de sal oculta.
Nos minutos seguintes, o que era um lago de água doce menor que o Central Park virou um buraco negro aquático com mais de 400 metros de largura, uma explosão de gasoduto lançou chamas visíveis a quilômetros de distância e, logo depois, a água do Golfo do México correu ao contrário, formando uma cachoeira de mais de 50 metros. Décadas depois, a área continua marcada como cicatriz permanente no coração geológico da Luisiana, e novos projetos sobre o mesmo domo de sal mantêm o risco de repetição da tragédia.
Como um buraco gigante em lago engoliu o Peigneur em poucas horas

Antes do colapso, o Lago Peigneur era um lago raso, com cerca de 3 metros de profundidade média, usado por moradores locais para remar e pescar sem colete salvavidas.
-
A estrada que cruza 8 estados, tem quase 4.000 km e se tornou símbolo dos Estados Unidos: a Route 66 liga Chicago à Califórnia e preserva um século de história nos EUA
-
Caminhoneiros brasileiros começam a ser liberados após impasse que travou cargas por mais de 20 dias e expôs um problema envolvendo quase 1 milhão de registros
-
Dois estudantes brasileiros criaram uma maca hospitalar que se ajusta apenas pela voz do paciente, sem manivelas nem telas, e levaram o prêmio de melhor projeto internacional na Mostra de Ciência 2026 de Portugal, dando mais autonomia a idosos, pessoas com mobilidade reduzida e até tetraplégicos
-
Eleita a melhor ilha do mundo 11 vezes seguidas, este paraíso português no meio do Atlântico virou paixão dos brasileiros: território vulcânico de 737 km² guarda uma floresta de 20 milhões de anos, Patrimônio Mundial da UNESCO, vinhos históricos e a terra natal de Cristiano Ronaldo
Toda a área de aproximadamente 2 milhas quadradas parecia estável e previsível, até o dia em que uma perfuração de petróleo mudou tudo.
Na manhã de 20 de novembro de 1980, uma plataforma flutuante de 150 toneladas, avaliada em 5 milhões de dólares, operada para a Texaco Oil, perfurava o fundo do lago em busca de petróleo.
O plano era descer até 400 metros de profundidade.
Aos 365 metros, a broca simplesmente travou, não girava, não subia, não descia. Poucos segundos depois, ouviu se o som de metal se rompendo e rochas desmoronando.
A plataforma inclinou bruscamente e a superfície do lago começou a ferver como uma panela gigante, com pequenos redemoinhos se unindo em um único funil enorme.
Em minutos, o fluxo de água chegou a 50.000 m³ por minuto, o equivalente a 20 piscinas olímpicas drenadas a cada 60 segundos, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos.
O vórtice chegou a mais de 400 metros de largura e fez o lago inteiro desaparecer em cerca de três horas.
O que havia debaixo do lago: domo de sal, mina e erro de perfuração

A chave para entender o buraco gigante em lago está no subsolo da região.
Centenas de milhões de anos atrás, a área hoje ocupada pela Luisiana era coberta por um mar raso.
Quando esse mar recuou e evaporou, grandes camadas de sal ficaram enterradas sob sedimentos de areia, argila e rocha.
Com o tempo, a pressão fez esse sal subir lentamente, como uma bolha de ar sob a água, formando um domo de sal com quilômetros de altura e largura.
Na superfície, a Texaco Oil perfurava em busca de petróleo. No subsolo, a Diamond Crystal Salt Company extraía sal exatamente do mesmo domo.
Duas empresas trabalhavam sobre o mesmo ponto geológico, uma em cima e outra embaixo, separadas apenas por camadas de rocha que funcionavam como teto da mina.
Quando a broca da Texaco saiu do alinhamento, atingiu diretamente o teto da mina de sal.
A água do lago começou a infiltrar se pela fissura e, como sal se dissolve cerca de 100 vezes mais rápido que calcário, a caverna subterrânea cresceu em velocidade assustadora.
Em pouco tempo, a mina inteira virou um enorme vazio, sem sustentação, e o Lago Peigneur colapsou como um prédio que perde a fundação.
Redemoinho colossal, barcaças sugadas e a cachoeira ao contrário
À medida que o buraco gigante em lago aumentava, o redemoinho duplicou de tamanho em menos de uma hora, de cerca de 213 para 426 metros de largura.
Onze barcaças de 61 metros foram puxadas para baixo, virando na vertical e desaparecendo como se caíssem em um buraco negro. Um rebocador e um pedaço da própria ilha Jefferson também foram engolidos.
Um pescador relatou que viu seu barco ainda amarrado ao tronco de uma árvore sendo arrastado, junto com a árvore inteira, até sumir dentro do vórtice.
Casas, árvores e estruturas de cais caíram de uma vez, enquanto o solo emitia estrondos contínuos.
Vista do alto, a cena lembrava uma ferida gigante na superfície da Terra, com água girando em direção ao centro e tudo ao redor sendo puxado para baixo.
No meio do lago, um gasoduto se rompeu.
Um estrondo ecoou e uma coluna de fogo se ergueu com centenas de metros de altura, iluminando o céu da Luisiana como se fosse dia.
A fumaça ficou tão alta que autoridades aeronáuticas precisaram redirecionar voos por risco de novas explosões.
Quando o lago já havia praticamente desaparecido, o fenômeno mais improvável ainda estava por vir.
A água do Golfo do México começou a correr ao contrário, alimentando o buraco gigante em lago com uma corrente reversa.
Formou se uma cachoeira de mais de 50 metros de altura, maior que um prédio de 15 andares, caindo diretamente dentro da cratera recém formada.
O lago, antes com 3 metros de profundidade, passou a ter cerca de 60 metros e se tornou o mais profundo da Luisiana.
Do lago de água doce ao laboratório salobro de espécies misturadas
Antes do desastre, o Lago Peigneur era um lago de água doce associado a atividades agrícolas e de pesca na região.
Em poucas horas, esse ecossistema foi completamente apagado.
Quando a água salgada do Golfo invadiu o lago, os peixes de água doce apareceram boiando brancos na superfície, formando uma espécie de manta funerária.
A salinidade subiu até níveis semelhantes aos do mar.
Espécies como robalo, bagre e camarão de água doce desapareceram, enquanto caranguejos, camarões marinhos, corais e outras criaturas típicas do oceano passaram a ser vistos naquele espaço.
O antigo lago agrícola virou um laboratório estranho, onde espécies de água doce e salgada tentavam coexistir em um ambiente completamente distorcido.
Apesar da magnitude, nenhum trabalhador morreu no episódio de 1980.
Ao perceberem os primeiros ruídos e movimentos anormais, os funcionários acionaram o alarme e cerca de 55 mineiros, a 457 metros de profundidade, correram para o elevador.
O equipamento era lento e levava apenas oito pessoas por vez, mas todos conseguiram escapar antes que a mina fosse inundada.
Quem pagou a conta do desastre ambiental na Luisiana
A grande pergunta dos moradores e das autoridades era quem deveria assumir a responsabilidade pelo buraco gigante em lago.
A Texaco culpou a Diamond Crystal, alegando que nunca recebeu o mapa completo da mina de sal.
A Diamond Crystal respondeu que a Texaco perfurou fora da coordenada correta, confundindo pés com metros e atingindo o teto da mina.
Meses de disputa judicial se seguiram até que a Justiça da Luisiana apontou a Texaco como principal responsável.
A empresa foi condenada a pagar 45 milhões de dólares à Diamond Crystal e mais 12 milhões à Live Oak Foundation, que representava famílias com 64 acres de terras destruídas.
A Wilson Brothers, operadora da plataforma, ainda pagou outros 32 milhões de dólares.
Somados, os prejuízos passaram de 90 milhões de dólares, sem contar as perdas ecológicas e sociais de longo prazo.
Depois do processo, a mina de Jefferson Island foi fechada definitivamente.
Centenas de trabalhadores perderam o emprego, casas foram abandonadas e muitos moradores deixaram a área em silêncio.
O que restou foi um lago com 61 metros de profundidade, salobro, marcado pela cratera que começou como um buraco gigante em lago aparentemente tranquilo.
Dolinas em série: a Luisiana como tecido geológico remendado
O episódio do Lago Peigneur não foi um caso isolado na Luisiana.
Em 1968, a mina de sal de Belle, a pouco mais de 100 quilômetros de distância, já havia desmoronado, soterrando 21 mineiros a centenas de metros de profundidade, sem que nenhum corpo fosse encontrado.
O desastre, em vez de servir como alerta, caiu no esquecimento.
Em 2012, outro colapso em domo de sal, na região de Bayou Corne, abriu uma cratera com mais de 100 metros de largura e 120 de profundidade, que se expandiu até cerca de 14 hectares, o equivalente a 20 campos de futebol.
Cerca de 350 pessoas foram obrigadas a evacuar, e a área permanece abandonada até hoje.
Em 2020, na mina de sal de Avery Island, o teto cedeu novamente, matando dois trabalhadores e ferindo outros, mesmo após alertas oficiais sobre dezenas de violações técnicas.
Segundo o Departamento de Recursos Naturais da Luisiana, existem pelo menos 27 cavernas de sal inseguras exatamente sob a região de domos, algumas próximas ao aquífero Chicot, principal fonte de água potável local.
A Luisiana se tornou um tecido geológico remendado, onde uma perfuração mal planejada, um tremor ou uma chuva mais forte podem transformar um vilarejo inteiro em nova dolina em poucos segundos.
A pergunta que permanece, 40 anos depois, é simples e inquietante: o buraco gigante em Lago Peigneur foi um acidente isolado ou apenas o capítulo mais famoso de uma sequência de riscos ainda em curso sob o solo da Luisiana?
Na sua opinião, depois de conhecer a história desse buraco gigante em lago, a exploração de domos de sal para petróleo, sal e armazenamento de gás na Luisiana deveria continuar ou ser limitada drasticamente para evitar um novo colapso desse tamanho?


-
-
2 pessoas reagiram a isso.