A Índia está a 140 metros de concluir o Zojila, túnel rodoviário bi-direcional mais longo da Ásia, em uma obra que avança há quase seis anos sob o passo homônimo na Caxemira, a 3 mil metros de altitude, com breakthrough da escavação confirmado para a primeira semana de junho e custo final perto de R$ 4 bilhões.
São 14,15 quilômetros de túnel principal escavados num maciço onde a temperatura externa cai a 40 graus negativos no inverno.
O trabalho avança simultaneamente pelos portais leste, em Minamarg-Drass no lado de Ladakh, e oeste, em Sonamarg, no Vale da Caxemira, usando o método austríaco moderno de tunelagem.
A MEIL, Megha Engineering and Infrastructure Limited, tocou a obra desde 15 de outubro de 2020 pela Corporação Nacional Indiana de Desenvolvimento de Infraestrutura Rodoviária, a NHIDCL.
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O orçamento total foi revisado para algo perto de R$ 4 bilhões com inflação e manutenção embutidas, valor acima do aprovado no contrato original.
Seis anos cavando rocha a 12 mil pés
O Zoji La é uma passagem montanhosa de 3.528 metros que conecta o Vale da Caxemira à região budista de Ladakh.
Durante seis meses por ano o passo fica fechado pela neve, isolando todo o território do resto da Índia por via terrestre.
A galeria principal tem formato em U e pista bidirecional de duas faixas com cerca de nove metros de largura.
Em paralelo corre uma galeria de evacuação de mesma extensão, pensada pra retirada em caso de acidente ou incêndio dentro do túnel principal.
Os trabalhos não cessam nem quando a coluna de mercúrio bate em quarenta graus abaixo de zero, condição habitual no inverno da Caxemira a 3 mil metros.

A gente olha um número como quarenta graus negativos em planilha e parece abstração. Pra quem opera escavadeira ali, é cinco horas diárias de turno com risco de hipotermia mesmo dentro da máquina.
A MEIL passou de cinco quilômetros escavados em 2022 pra mais de dez no início deste ano. Hoje, cento e quarenta metros separam a equipe do encontro entre os dois portais.
O que muda em Ladakh quando o Zoji La fechar pra neve
Ladakh tem cerca de 274 mil habitantes espalhados num planalto maior que Santa Catarina.
Por seis meses todo ano, a única opção pra chegar lá é avião pra Leh ou um desvio de quase quinhentos quilômetros via Manali, no estado vizinho de Himachal Pradesh, com cerca de nove horas adicionais de viagem.
Quando o túnel ficar pronto, a travessia entre Sonamarg e Drass cai de três horas e meia pra quinze minutos, segundo a NHIDCL.
E o ganho não é só logístico. Ladakh faz fronteira direta com o Aksai Chin, território controlado pela China desde a guerra de 1962, e está a poucas horas do Paquistão pelo lado da Caxemira.
Toda a movimentação militar pra Linha de Controle Real e pra Linha de Controle, as duas fronteiras quentes, passa por essa estrada.
Hoje, em pleno inverno, suprimentos pro Exército indiano viajam de helicóptero ou ficam estocados em depósitos no lado de Ladakh. O Zojila destrava esse corredor durante o ano todo.

Fora o uso militar, o turismo deve responder pela maior mudança visível: Ladakh recebe cerca de meio milhão de visitantes por ano, número que praticamente desaba no inverno justamente pelo fechamento do passo.
O que o Brasil aprende olhando pra Caxemira?
Enquanto o Brasil debate há três décadas o trem-bala Rio-São Paulo sem chegar a um leilão definitivo, a Índia tocou um túnel de 14 quilômetros a 3 mil metros de altitude em pouco menos de seis anos.
Não é caso isolado. Engenheiros japoneses estão cavando 32 quilômetros sob montanhas de Hokkaido pra estender o Shinkansen até Sapporo, e a NEOM, na Arábia Saudita, contratou a escavação de dois túneis paralelos de 28 quilômetros cada na megacidade The Line.
São obras com porte e timeline parecidos com o Zojila, tocadas em paralelo.
Confesso que olho pro Zojila e fico imaginando o que o Brasil faria em condições parecidas. A gente projeta túneis em São Paulo e Rio com pouca neve e zero risco de fronteira militar, e mesmo assim arrasta cronograma por uma década inteira.

O Zojila tem operação plena prevista pra fevereiro de 2028, depois das etapas de pavimentação, sistema de ventilação, controle de tráfego e centro de monitoramento.
Antes disso, o breakthrough da galeria principal entre Sonamarg e Drass deve sair no início de junho. É o momento em que as equipes que vinham trabalhando em direções opostas se encontram no meio da rocha.
Pra mim, esse instante de encontro no meio da montanha sempre teve um peso simbólico que vai além do cronograma. É a parte da obra que diz: deu certo. E você, conta nos comentários se acredita mesmo que algum projeto brasileiro do mesmo porte sai do papel nesse ritmo.
Algum projeto de infraestrutura brasileiro desse porte tem chance real de sair do papel antes de 2028?
