Transferência de tecnologia e produção nacional colocam o Brasil no caminho da independência em saúde pública
O Brasil deu um passo decisivo rumo à autossuficiência na produção de insulina, consolidando uma cooperação inédita e estratégica com a China. Desde 2009, os dois países mantêm uma parceria comercial sólida e crescente.
Entretanto, até recentemente, o Brasil dependia fortemente da importação de tecnologias. Agora, essa relação muda completamente, pois o novo projeto liderado pela Fiocruz (Bio-Manguinhos), a Biomm e a farmacêutica chinesa Gan&Lee transforma essa dinâmica.
A iniciativa transfere tecnologia e conhecimento, garantindo ao país domínio total sobre a produção nacional do medicamento essencial no tratamento do diabetes. Assim, o Brasil deixa de ser dependente e passa a produzir internamente.
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Cooperação estratégica e resultados imediatos
Durante a visita do presidente Lula à China, em maio de 2025, o acordo foi firmado com objetivo de revolucionar a produção de insulina.
Por meio do Ministério da Saúde, o governo brasileiro e as empresas parceiras assumiram o compromisso de produzir insulina glargina, amplamente usada no tratamento de diabetes tipo 1 e tipo 2.
Inicialmente, o medicamento será embalado pela Biomm em Nova Lima (MG), em uma fábrica inaugurada por Lula em 2024, simbolizando a retomada da produção nacional após duas décadas de dependência externa.
Além disso, segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o primeiro lote, com 207 mil unidades de insulina humana dos tipos regular e NPH, foi entregue em 11 de julho de 2025.
Esse marco histórico integra as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), modelo que une o setor público e privado para fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS).
Graças à iniciativa, cerca de 350 mil pessoas em todo o país já estão sendo beneficiadas, o que demonstra o impacto imediato da cooperação sino-brasileira.
Transferência tecnológica e soberania científica
O projeto determina que, até 2035, o Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) será integralmente produzido na nova fábrica da Fiocruz em Eusébio (CE).
Essa será a primeira planta de insulina da América Latina, construída com recursos do Novo PAC e investimento de R$ 930 milhões.
Com isso, o país deve atingir produção anual de 70 milhões de unidades, fortalecendo sua autonomia científica e segurança no abastecimento nacional.
A transferência de tecnologia envolve repasse de patentes, capacitação profissional e adaptação das fábricas. Assim, engenheiros, farmacêuticos e cientistas brasileiros aprendem diretamente com os especialistas chineses.
Dessa forma, o Brasil avança na cadeia produtiva global, deixando de ser apenas comprador para se tornar produtor de conhecimento e inovação.
Como destacou o cientista político Diego Pautasso (UFRGS/PUC Minas), “o desafio não é se afastar da China, mas redefinir o papel do Brasil como protagonista tecnológico”.
Impacto na saúde pública e na economia nacional
A insulina NPH, de ação intermediária, e a insulina regular, de ação rápida, são fundamentais no controle do diabetes.
Juntas, elas atendem 50% da demanda nacional, o que equivale a 45 milhões de doses anuais, reforçando a importância da autonomia produtiva.
Além disso, o investimento federal de R$ 142 milhões fortalece a Estratégia Nacional para o Desenvolvimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, criada para reduzir importações e consolidar o SUS.
De acordo com a Federação Internacional de Diabetes (IDF, 2025), o Brasil possui 20 milhões de pessoas com diabetes, sendo 600 mil dependentes de insulina diária.
No mundo, 589 milhões de adultos vivem com a doença, e o número pode chegar a 853 milhões até 2050, caso medidas não sejam adotadas.
Portanto, a produção nacional de insulina representa um avanço estratégico para a saúde pública e para a soberania tecnológica do país.
Relação comercial entre Brasil e China em números
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o comércio bilateral movimentou US$ 157,6 bilhões em 2024.
Desse total, o Brasil obteve superávit de US$ 51 bilhões, consolidando a China como seu principal parceiro comercial e estratégico.
Contudo, 87% das exportações brasileiras ainda estão concentradas em soja, minério de ferro e petróleo bruto, enquanto a China exporta produtos industrializados e farmacêuticos de alta tecnologia.
Por isso, a parceria para produção de insulina representa um marco na reindustrialização nacional e fortalece a cooperação tecnológica entre os dois países.
Assim, o Brasil avança de forma concreta rumo à autonomia produtiva, à redução da desigualdade tecnológica global e à independência científica.

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