Movimento global de capital volta a favorecer emergentes, enquanto Brasil reaparece no radar de investidores estrangeiros com expectativa de queda dos juros, retomada do mercado de capitais e posição estratégica na América Latina.
O Brasil voltou ao radar de investidores globais em um momento de reorganização dos fluxos para mercados emergentes, segundo Augusto Urmeneta, presidente do Bank of America na América Latina.
Para o executivo, o País reúne condições para se destacar fora da China, impulsionado por mercado consumidor relevante, empresas bem administradas e expectativa de queda dos juros.
Em entrevista ao Brazil Journal, Urmeneta afirmou que o Brasil vive “um dos melhores momentos” desde 2011 para atrair capital estrangeiro.
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A avaliação considera o avanço do interesse dos Estados Unidos pela América Latina, a busca de investidores por alternativas fora da China e o volume de recursos disponíveis no mercado financeiro internacional.
Segundo o Bank of America, há cerca de US$ 8 trilhões aplicados em money market funds nos Estados Unidos e outros US$ 3 trilhões em capital ainda não investido por fundos de private equity.
Ao mesmo tempo, o fluxo para emergentes excluindo a China chegou a US$ 96 bilhões, quase o dobro do registrado no ano anterior, de acordo com dados citados pelo banco.
“Minha visão é que o Brasil pode acabar sendo o principal emerging market, excluindo a China, nessa próxima fase”, disse Urmeneta.
Para ele, o investidor estrangeiro enxerga o País com menos pessimismo do que o mercado local, embora reconheça os problemas conhecidos da economia brasileira.
Brasil ganha espaço entre mercados emergentes
Na leitura do executivo, a América Latina passou a ter mais relevância estratégica para os Estados Unidos, e o Brasil se diferencia dentro da região por combinar escala de consumo, empresas competitivas e ambiente empreendedor.
O México, segundo ele, tem força industrial, mas o Brasil oferece uma base doméstica mais ampla para negócios voltados ao consumidor.
Esse reposicionamento ocorre em meio à diversificação de carteiras globais.
Depois de anos de concentração em ativos americanos e chineses, parte dos investidores passou a buscar mercados com preços considerados atrativos, liquidez suficiente e fundamentos empresariais sólidos.
Ainda assim, Urmeneta pondera que a entrada de capital no Brasil não se tornou plenamente estrutural.
Na visão dele, parte do fluxo atual ainda tem caráter tático, apoiado principalmente no juro real elevado e na expectativa de ganhos com a redução da Selic.
Selic elevada continua pressionando empresas e bolsa
A taxa básica de juros segue como um dos principais entraves para uma retomada mais ampla do mercado de capitais.
Em abril de 2026, o Copom reduziu a Selic para 14,5% ao ano, após o início do ciclo de cortes em março, mas a política monetária continuou restritiva.
“Não dá para conviver com Selic de 14,5% por muito tempo”, afirmou Urmeneta.
Segundo ele, a queda mais relevante dos juros tende a favorecer o retorno dos fluxos locais para a bolsa e abrir espaço para uma retomada mais consistente de ofertas públicas iniciais.
O executivo citou o IPO da Compass como sinal de que há demanda internacional por empresas brasileiras quando a tese de investimento é clara.
A companhia levantou R$ 3,2 bilhões em sua estreia na B3, no primeiro IPO da bolsa brasileira em quase cinco anos.
Empresas de tecnologia da América Latina seguem descontadas
Apesar do maior interesse por emergentes, o dinheiro ainda chega de forma seletiva às empresas brasileiras e latino-americanas.
No setor de tecnologia, o Bank of America aponta que companhias da região acumulavam queda de 17% desde janeiro, mesmo com crescimento de receita e lucro superior ao de muitos pares globais.
A explicação, segundo Urmeneta, passa pela liquidez e pela concentração do interesse global em inteligência artificial nos Estados Unidos.
Empresas como Mercado Livre e Nubank têm maior capacidade de atrair investidores por causa do tamanho e da negociação mais intensa de suas ações, enquanto companhias menores enfrentam mais dificuldade.
Fora da tecnologia, a América Latina tem se beneficiado mais da tese de commodities e da perspectiva de redução dos juros.
Esse movimento favorece setores ligados à infraestrutura, energia, consumo e serviços financeiros, desde que apresentem fundamentos consistentes.
Cenário fiscal e eleições seguem no radar do mercado
A sucessão presidencial brasileira aparece como fator de atenção, mas não altera, na visão de Urmeneta, o ponto central para investidores: o desafio fiscal.
Para ele, qualquer governo terá de lidar com a mesma restrição de contas públicas, independentemente do resultado eleitoral.
O executivo afirmou que o mercado já conhece o padrão de atuação de Lula.
Em caso de mudança de governo, o cenário pode melhorar ou piorar, mas a necessidade de ajuste fiscal continuará presente.
Ainda assim, ele disse ver o Brasil como oportunidade.
Na avaliação do presidente do BofA na América Latina, o investidor estrangeiro tende a dar menos peso a um eventual quarto mandato de Lula do que o investidor doméstico.
A razão, segundo ele, está na percepção de que muitas empresas brasileiras continuam bem administradas, mesmo em ambientes econômicos difíceis.
Mercado privado reduz pressão por novos IPOs
A retomada dos IPOs, segundo Urmeneta, deve depender mais da queda dos juros do que de uma necessidade imediata de capital.
Nos últimos anos, o mercado privado cresceu e passou a oferecer financiamento com prazos mais longos, permitindo que companhias adiassem a abertura de capital.
Para o executivo, esse intervalo pode ajudar empresas a ganhar escala, consolidar setores e chegar ao mercado público mais preparadas.
Em vez de uma corrida por IPOs, o ciclo pode incluir fusões, aquisições e outras operações de mercado.
Urmeneta também relativizou a comparação entre o boom de tecnologia de 2021 e a bolha da internet dos anos 2000.
Para ele, houve exageros de avaliação, mas muitas empresas latino-americanas tinham produto, receita e mercado real, diferentemente de parte das companhias sem modelo operacional sólido no início do século.
Inteligência artificial concentra investimentos globais
A inteligência artificial continua no centro da disputa por recursos, especialmente nos Estados Unidos.
O executivo reconhece que há forte investimento em datacenters e infraestrutura, mas ressalta que a questão principal é saber se a demanda permanecerá elevada no longo prazo.
Na avaliação de Urmeneta, o uso crescente de computadores, celulares e serviços digitais indica que a necessidade por capacidade computacional existe.
No entanto, os ganhos de produtividade ainda não aparecem de forma clara nos balanços das empresas.
Esse intervalo entre investimento e resultado é visto como um risco do ciclo atual.
Mesmo assim, o executivo afirmou que a inteligência artificial deve transformar a economia global, embora ainda esteja no início de seu impacto sobre empresas e mercados.

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