Entre 16 e 27 de março, 15 países das Américas participam de exercício aéreo multinacional em Campo Grande em um contexto delicado: os Estados Unidos avaliam classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, o que tensiona a relação diplomática entre Washington e Brasília.
Militares brasileiros e norte-americanos participarão de um exercício de treinamento conjunto no Brasil em um momento de aumento das tensões políticas e diplomáticas entre os dois países, motivado pela discussão nos Estados Unidos sobre a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
O exercício é parte da operação Cooperación XI, treinamento multinacional coordenado no âmbito da cooperação aérea entre países das Américas, cuja fase de planejamento foi concluída na última sexta-feira, 6 de março, segundo informações da Força Aérea Brasileira.
A operação será realizada entre os dias 16 e 27 de março na Base Aérea de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, reunindo delegações de 15 países do continente.
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Participam do treinamento representantes das forças aéreas de Argentina, Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Brasil.
Simulação de desastres naturais em ambiente multinacional

O exercício simula um cenário multinacional de resposta a desastres naturais de grande escala, com foco em incêndios florestais e operações de assistência humanitária.
As atividades envolvem planejamento operacional conjunto, coordenação logística, missões aéreas integradas e operações de busca e salvamento, reproduzindo situações que exigem cooperação entre forças de diferentes países com doutrinas e equipamentos distintos.
Segundo a FAB, o objetivo central do treinamento é desenvolver mecanismos de interoperabilidade entre as forças aéreas das Américas, com ênfase em sistemas de comando e controle e na capacidade de coordenação de missões conjuntas em cenários complexos.
Embora o cenário seja humanitário, o exercício também serve para testar a integração entre diferentes forças militares, permitindo que pilotos, centros de operações e equipes logísticas aprendam a atuar de forma coordenada em operações multinacionais de alta exigência.
EUA avaliam classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas
A participação dos Estados Unidos ocorre em um momento de acirramento do debate naquele país sobre a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras — as chamadas Foreign Terrorist Organizations (FTO).
Pela legislação norte-americana, essa designação ampliaria significativamente os instrumentos legais e operacionais disponíveis para Washington no combate ao crime transnacional, abrindo caminho para sanções financeiras globais, bloqueio de ativos, ampliação das operações de inteligência e a possibilidade de ações contra estruturas dessas organizações fora do território americano.
O governo brasileiro se opõe a essa classificação e, desde maio de 2025, vem alertando diferentes delegações americanas de que rejeita esse caminho, avaliando que o enquadramento de facções como grupos terroristas poderia abrir espaço para ações unilaterais e representar uma interferência nos assuntos internos do país.

Em outubro de 2025, o Brasil apresentou aos Estados Unidos uma proposta concreta de cooperação bilateral para enfrentar o crime organizado transnacional, mas o projeto não avançou, e o tema passou a ser considerado um dos pontos centrais de uma eventual reunião entre Trump e Lula, inicialmente prevista para março.
Histórico de cooperação e episódios de tensão
O treinamento da próxima semana se insere em um histórico mais amplo de cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos, que inclui exercícios conjuntos, intercâmbio de oficiais e treinamentos multinacionais realizados ao longo das últimas décadas.
No entanto, esse histórico também foi marcado por momentos de tensão. Durante o governo de Jair Bolsonaro, militares norte-americanos viajaram a Brasília para alertar a cúpula das Forças Armadas de que o governo Biden não daria respaldo a qualquer tentativa de ruptura institucional, e parlamentares do Senado americano chegaram a propor a suspensão da cooperação militar caso houvesse uma quebra democrática no Brasil.
Mais recentemente, a eleição de Donald Trump em novembro de 2024 voltou a alterar o tom das relações entre os dois países, com novos pontos de atrito em temas como segurança regional e combate ao crime organizado na América Latina.
Nesse contexto, dois exercícios bilaterais relevantes foram cancelados em 2025: a Operação CORE, exercício conjunto entre o Exército Brasileiro e o Exército dos EUA previsto para Pernambuco, e a edição da Operação Formosa, exercício anfíbio tradicional organizado pela Marinha do Brasil.
No governo Lula, cresce a avaliação de que o debate sobre combate ao crime organizado pode estar sendo utilizado como instrumento de pressão diplomática e de influência no ambiente político interno, às vésperas das eleições de 2026.
