Mineral estratégico entra no centro das disputas globais por energia limpa, impulsiona projetos no Brasil com capital estrangeiro e reforça debate sobre cadeias de suprimento, processamento industrial e transição para veículos elétricos, em meio à concentração do mercado e à busca por alternativas fora da China.
O Brasil passou a integrar discussões internacionais sobre minerais considerados críticos após o avanço de projetos de níquel com coprodução de cobalto no Piauí e em São Paulo.
As iniciativas contam com participação de capital estrangeiro e preveem, de forma agregada, produção em torno de 3 mil toneladas por ano nos próximos anos, segundo dados divulgados pelas próprias empresas.
O metal é classificado como estratégico para determinadas tecnologias de baterias e para usos industriais, em um contexto global de busca por cadeias de suprimento menos concentradas.
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Esse interesse ocorre em meio à preocupação de governos e empresas com a dependência de poucos fornecedores e com a segurança de insumos essenciais à transição energética.
O debate ganhou força à medida que países passaram a mapear riscos geopolíticos associados à mineração e ao processamento de minerais utilizados em tecnologias de baixo carbono.
Cobalto e sua importância para baterias e indústria
Popularmente chamado de “ouro azul”, o cobalto é utilizado principalmente em baterias de íon-lítio que adotam composições com níquel, manganês e cobalto.
De acordo com especialistas do setor, o metal contribui para a estabilidade química do cátodo e pode influenciar a durabilidade e o desempenho dessas baterias, embora existam diferentes tecnologias em desenvolvimento que reduzem ou eliminam seu uso.
Além do setor automotivo, o cobalto aparece em aplicações industriais variadas.
O material é empregado na produção de ligas metálicas resistentes ao calor, em ferramentas industriais, em componentes eletrônicos específicos e em pigmentos utilizados por diferentes segmentos da indústria.

Essa diversidade de usos explica por que o metal integra listas oficiais de minerais críticos elaboradas por governos e organismos internacionais.
Avanço dos veículos elétricos e impacto na demanda
A expansão do mercado de carros elétricos segue como principal vetor de demanda.
Dados da Agência Internacional de Energia indicam que as vendas globais desses veículos cresceram cerca de 60% em 2022, ultrapassando 10 milhões de unidades no ano.
Esse movimento ampliou o consumo de matérias-primas associadas às baterias, entre elas o cobalto.
Por outro lado, números frequentemente citados sobre a evolução da demanda exigem contextualização.
Relatórios recentes do Cobalt Institute apontam que o consumo global do metal superou 200 mil toneladas em 2024, com crescimento anual de dois dígitos.
Em algumas análises setoriais, o patamar de 222 mil toneladas aparece associado ao consumo registrado nesse mesmo ano, e não como projeção futura.
Essas revisões alteram a leitura sobre equilíbrio entre oferta e demanda.
Estudos de mercado publicados ao longo de 2024 e 2025 discutem, por exemplo, períodos pontuais de excesso de oferta, ao mesmo tempo em que destacam incertezas de médio prazo ligadas a investimentos, políticas industriais e escolhas tecnológicas das fabricantes de baterias.
China concentra refino e amplia preocupações geopolíticas
Quando o foco se desloca da mineração para o processamento, a concentração aumenta de forma significativa.
Levantamentos de mercado indicam que a China responde pela maior parte do refino global de cobalto, embora os percentuais variem conforme o recorte analisado e o tipo de produto considerado.
Além disso, dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos mostram que empresas chinesas possuem participação relevante em operações de extração na República Democrática do Congo.
O país africano concentra grande parte da produção mundial do metal.
Essa combinação entre controle na origem e domínio do refino alimenta preocupações sobre dependência excessiva de um único polo industrial.
Diante desse cenário, Estados Unidos e países europeus vêm defendendo, em documentos oficiais e fóruns multilaterais, a diversificação das cadeias de suprimento.
Iniciativas como a Minerals Security Partnership buscam estimular investimentos em mineração, processamento e reciclagem em diferentes regiões.
A proposta envolve ênfase em padrões ambientais e rastreabilidade.
Investimentos no Piauí e em São Paulo entram no radar internacional
No Brasil, um dos projetos mais citados nesse contexto é o empreendimento de níquel no Piauí liderado pela British Brazilian Nickel.
Informações institucionais da empresa indicam um investimento estimado em US$ 1,4 bilhão, com início de operação previsto para 2029.
A meta divulgada inclui a produção anual de aproximadamente 27 mil toneladas de níquel e cerca de 1.000 toneladas de cobalto, considerado um subproduto do processo.
A presença de capital norte-americano aparece associada à TechMet.
Segundo comunicados públicos, a agência dos Estados Unidos Development Finance Corporation aportou US$ 25 milhões na empresa.
Parte dos recursos foi destinada ao avanço do projeto no Piauí.
No Sudeste, a multinacional Jervois divulgou planos para retomar a refinaria de São Miguel Paulista, em São Paulo.
De acordo com materiais da companhia, o estudo de viabilidade prevê capacidade anual em torno de 2.000 toneladas de cobalto e 10.000 toneladas de níquel após a reabertura.
Também há previsão de possibilidades de expansão futura.
Consideradas em conjunto, as metas apresentadas publicamente por esses empreendimentos explicam a estimativa de cerca de 3 mil toneladas anuais de cobalto associadas a projetos no país.
Especialistas do setor ressaltam, no entanto, que os cronogramas dependem de licenciamento ambiental, infraestrutura, condições de mercado e decisões finais de investimento.
Cadeia de valor, regulação e o futuro do cobalto no Brasil
O debate não se limita à extração mineral. Analistas apontam que o principal desafio está em avançar no processamento e na integração à cadeia de valor.
O foco envolve a produção de materiais de maior valor agregado e eventual aproximação com a indústria de baterias.
Também influenciam esse cenário as regras de descarbonização em grandes mercados consumidores.
A União Europeia aprovou, em 2023, a revisão de padrões de emissões para veículos novos. O objetivo é reduzir drasticamente as vendas de modelos a combustão até 2035.
Propostas em discussão nos anos seguintes passaram a considerar ajustes nessas metas. Essas mudanças podem alterar projeções de demanda conforme as decisões políticas avancem.
Para o Brasil, a inserção nesse debate internacional sobre minerais críticos é vista por especialistas como uma oportunidade condicionada a fatores regulatórios, ambientais e econômicos.
A efetiva consolidação do país como fornecedor relevante dependerá da execução dos projetos anunciados, da previsibilidade regulatória e da capacidade de atender às exigências de compradores internacionais.
Com investimentos em curso e expectativas em torno do cobalto, resta acompanhar se o país conseguirá transformar projetos planejados em produção estável e competitiva em um mercado cada vez mais disputado.

