Enquanto o Brasil debate há mais de 25 anos a reforma definitiva do Maracanã e enfrenta dificuldade para manter a Arena MorumBis aberta com cronograma garantido, o Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi assinou contrato de US$ 1,7 bilhão para erguer em ilha artificial no Golfo Pérsico a segunda Sphere do mundo, com 20 mil lugares e abertura prevista para o terceiro trimestre de 2029.
O anúncio saiu do escritório do DCT Abu Dhabi em 23 de maio.
A escolhida para tocar a obra é a ALEC Holdings, mesma empresa local que executou o Etihad Arena em Yas Bay, sede recorrente das viradas de ano da capital emiradense.
O contrato cobre projeto, engenharia, supply chain e construção. Pacote turn-key.
-
Arquiteto enterrou 7 mil copos de barro de chá na laje, cobriu com mosaico e fez do teto um ar-condicionado natural, deixando a casa 5 °C mais fresca e cortando a conta de luz
-
Nova tendência em reformas residenciais mostra como pintar pisos de concreto sem comprometer a estrutura existente: técnica aumenta a durabilidade da superfície, reduz custos de manutenção e moderniza garagens, quintais e varandas com rapidez
-
Denver usou o método Moradia Primeiro e derrubou a população de rua em 64% em três anos: censo de 2026 achou só 518 vivendo na rua e 7.700 já foram para moradia permanente
-
Casal comum comprou quartel de bombeiros abandonado por US$ 90 mil, sem paredes, luz nem vaso sanitário, e o marido tocou quase toda a reforma sozinho por uma década até virar a casa dos sonhos
A esfera vai ocupar um terreno entre o Yas Mall e o SeaWorld Abu Dhabi, dentro da Yas Island.
Yas Island é uma ilha artificial conectada por pontes à capital dos Emirados.
No entorno imediato fica o circuito de Fórmula 1, o Ferrari World, o Warner Bros World e o Yas Waterworld. Um cluster turístico inteiro construído nos últimos quinze anos.
Quem já circulou por ali entende a lógica: o Estado pega entretenimento, soma a infraestrutura turística e transforma a ilha inteira em hub de receita.
A Arábia Saudita tentou a mesma estratégia com megaprojetos como o cubo de 400 metros chamado Mukaab, mas a obra ficou no papel após o cancelamento de parte do orçamento da Vision 2030.
A escala que torna a Sphere uma máquina de gerar manchete
A capacidade prevista para a Sphere Abu Dhabi é de 20 mil pessoas, o mesmo patamar da Sphere de Las Vegas inaugurada em 2023.
A unidade original do Strip custou US$ 2,3 bilhões e tem 111 metros de altura, mais alta que um prédio de 35 andares.
Desde a inauguração se tornou cartão postal de Las Vegas, vista de qualquer ponto da Strip.
Sua fachada, batizada Exosphere, é hoje a maior tela LED do mundo, com área programável capaz de exibir vídeo em altíssima resolução.
A unidade de Abu Dhabi vai replicar essa escala, com superfície externa também programável, segundo a Sphere Entertainment.

ALEC e Sphere Entertainment, a dupla por trás do contrato
A ALEC Holdings é uma das grandes contractors do Golfo Pérsico, com mais de duas décadas de obras em Dubai e Abu Dhabi.
Já tocou estádios, hotéis de luxo, terminais de aeroporto e o próprio Etihad Arena.
Barry Lewis, presidente-executivo da ALEC Holdings, falou no anúncio em um “local de classe mundial, enraizado e gerido a partir do emirado, comprometido com a visão de longo prazo de Abu Dhabi”.
Sean McQue, diretor da divisão de construção, classificou o projeto como “tecnicamente complexo e arquitetonicamente ambicioso”, capaz de demandar “precisão em todos os níveis”.
A Sphere Entertainment, dona da unidade original americana, entra como sócia conceitual da operação.
O presidente da companhia, James Dolan, e o chairman do DCT Abu Dhabi, Mohamed Khalifa Al Mubarak, apareceram juntos no anúncio.
Os contratos preveem três linhas de receita pré-definidas: Sphere Experiences, concert residencies e brand events.
O primeiro é o produto autoral da empresa, experiências multissensoriais imersivas com filme, som direcional e efeitos sincronizados.
Os concert residencies seguem o modelo que U2, Phish e Eagles repetiram em Las Vegas, com várias semanas de shows na mesma casa.
Brand events absorvem lançamento de produto, evento corporativo, MMA, conferências de tecnologia e tudo que envolva tela gigante e ingresso premium.
O contraste com a paisagem brasileira de arenas
O contraste com o Brasil aparece em qualquer comparação direta de cronograma.
O Maracanã passou pela reforma do Mundial de 2014 a um custo de US$ 500 milhões, mas a operação ficou em disputa entre Flamengo, Fluminense e Estado do Rio nos anos seguintes.
O modelo de gestão expirou em 2024 e o estádio vive limbo administrativo enquanto trava receita das duas torcidas mais ricas do Sudeste.
A reforma definitiva, vendida como “novo Maracanã”, esbarra em licitação travada, recurso público escasso e impasse jurídico que se arrasta há mais de uma década.
A Arena MorumBis, antigo Pacaembu modernizado por iniciativa privada, conseguiu reabrir em 2025 mas sofre com cronograma de obras pendentes, ações trabalhistas e disputa sobre o naming rights.
O orçamento da reforma do Pacaembu original girava em torno de R$ 700 milhões, valor que hoje, com câmbio e inflação, é menos da metade do que Abu Dhabi assinou só para essa esfera.
Quase quatro vezes o preço da reforma do Pacaembu, em uma única arena.
Fico imaginando o estranhamento de um leitor brasileiro ao ler essa conta, e o ponto não é defender o gasto estrangeiro: o que assusta de verdade é a velocidade de execução de um lado contra a paralisia institucional crônica do outro.

Um cronograma agressivo até 2029
A meta do consórcio é entregar a Sphere Abu Dhabi até o terceiro trimestre de 2029.
O cronograma considera obra do início ao fim em torno de três anos e dois meses, prazo similar ao da unidade de Las Vegas.
A diferença é que o terreno em Yas Island já está terraplanado e tem infraestrutura urbana toda pronta. A obra entra direto na fundação.
A DCT Abu Dhabi calcula receita turística incremental no primeiro ano de operação acima de US$ 300 milhões.
O cálculo parte de uma bilheteria média elevada e ocupação acima de metade da capacidade nos primeiros doze meses.
O Brasil tem 207 milhões de habitantes e um mercado de música ao vivo que se aproxima de US$ 1 bilhão anuais.
Mesmo assim, não há projeto de arena imersiva sequer em estágio de viabilidade nas três maiores cidades brasileiras hoje.
Confesso que essa parte é a que mais incomoda, porque mostra que o gargalo brasileiro não é falta de mercado, e sim de ambição executiva e de coordenação entre privado e poder público.
A Sphere Abu Dhabi começa a sair do solo nos próximos meses. O Brasil segue debatendo.
E você, o Brasil ainda consegue levantar uma arena imersiva desse nível nos próximos 10 anos? Comenta aí.
