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Enquanto o Brasil discute há 25 anos a reforma do Maracanã e tem dificuldade de manter a Arena MorumBis aberta, Abu Dhabi assina US$ 1,7 bilhão para erguer em ilha artificial a segunda Sphere do mundo, com 20 mil lugares para 2029

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 25/05/2026 às 07:14 Atualizado em 25/05/2026 às 07:16
Sphere de Las Vegas iluminada à noite no Strip com fachada Exosphere em LED programável
A Sphere Las Vegas inaugurada em 2023 — primeira esfera imersiva do mundo, referência da unidade que Abu Dhabi vai construir.
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Enquanto o Brasil debate há mais de 25 anos a reforma definitiva do Maracanã e enfrenta dificuldade para manter a Arena MorumBis aberta com cronograma garantido, o Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi assinou contrato de US$ 1,7 bilhão para erguer em ilha artificial no Golfo Pérsico a segunda Sphere do mundo, com 20 mil lugares e abertura prevista para o terceiro trimestre de 2029.

O anúncio saiu do escritório do DCT Abu Dhabi em 23 de maio.

A escolhida para tocar a obra é a ALEC Holdings, mesma empresa local que executou o Etihad Arena em Yas Bay, sede recorrente das viradas de ano da capital emiradense.

O contrato cobre projeto, engenharia, supply chain e construção. Pacote turn-key.

A esfera vai ocupar um terreno entre o Yas Mall e o SeaWorld Abu Dhabi, dentro da Yas Island.

Yas Island é uma ilha artificial conectada por pontes à capital dos Emirados.

No entorno imediato fica o circuito de Fórmula 1, o Ferrari World, o Warner Bros World e o Yas Waterworld. Um cluster turístico inteiro construído nos últimos quinze anos.

Quem já circulou por ali entende a lógica: o Estado pega entretenimento, soma a infraestrutura turística e transforma a ilha inteira em hub de receita.

A Arábia Saudita tentou a mesma estratégia com megaprojetos como o cubo de 400 metros chamado Mukaab, mas a obra ficou no papel após o cancelamento de parte do orçamento da Vision 2030.

A escala que torna a Sphere uma máquina de gerar manchete

A capacidade prevista para a Sphere Abu Dhabi é de 20 mil pessoas, o mesmo patamar da Sphere de Las Vegas inaugurada em 2023.

A unidade original do Strip custou US$ 2,3 bilhões e tem 111 metros de altura, mais alta que um prédio de 35 andares.

Desde a inauguração se tornou cartão postal de Las Vegas, vista de qualquer ponto da Strip.

Sua fachada, batizada Exosphere, é hoje a maior tela LED do mundo, com área programável capaz de exibir vídeo em altíssima resolução.

A unidade de Abu Dhabi vai replicar essa escala, com superfície externa também programável, segundo a Sphere Entertainment.

Sphere Las Vegas iluminada à noite com fachada Exosphere de LED programável exibindo padrões coloridos

ALEC e Sphere Entertainment, a dupla por trás do contrato

A ALEC Holdings é uma das grandes contractors do Golfo Pérsico, com mais de duas décadas de obras em Dubai e Abu Dhabi.

Já tocou estádios, hotéis de luxo, terminais de aeroporto e o próprio Etihad Arena.

Barry Lewis, presidente-executivo da ALEC Holdings, falou no anúncio em um “local de classe mundial, enraizado e gerido a partir do emirado, comprometido com a visão de longo prazo de Abu Dhabi”.

Sean McQue, diretor da divisão de construção, classificou o projeto como “tecnicamente complexo e arquitetonicamente ambicioso”, capaz de demandar “precisão em todos os níveis”.

A Sphere Entertainment, dona da unidade original americana, entra como sócia conceitual da operação.

O presidente da companhia, James Dolan, e o chairman do DCT Abu Dhabi, Mohamed Khalifa Al Mubarak, apareceram juntos no anúncio.

Os contratos preveem três linhas de receita pré-definidas: Sphere Experiences, concert residencies e brand events.

O primeiro é o produto autoral da empresa, experiências multissensoriais imersivas com filme, som direcional e efeitos sincronizados.

Os concert residencies seguem o modelo que U2, Phish e Eagles repetiram em Las Vegas, com várias semanas de shows na mesma casa.

Brand events absorvem lançamento de produto, evento corporativo, MMA, conferências de tecnologia e tudo que envolva tela gigante e ingresso premium.

O contraste com a paisagem brasileira de arenas

O contraste com o Brasil aparece em qualquer comparação direta de cronograma.

O Maracanã passou pela reforma do Mundial de 2014 a um custo de US$ 500 milhões, mas a operação ficou em disputa entre Flamengo, Fluminense e Estado do Rio nos anos seguintes.

O modelo de gestão expirou em 2024 e o estádio vive limbo administrativo enquanto trava receita das duas torcidas mais ricas do Sudeste.

A reforma definitiva, vendida como “novo Maracanã”, esbarra em licitação travada, recurso público escasso e impasse jurídico que se arrasta há mais de uma década.

A Arena MorumBis, antigo Pacaembu modernizado por iniciativa privada, conseguiu reabrir em 2025 mas sofre com cronograma de obras pendentes, ações trabalhistas e disputa sobre o naming rights.

O orçamento da reforma do Pacaembu original girava em torno de R$ 700 milhões, valor que hoje, com câmbio e inflação, é menos da metade do que Abu Dhabi assinou só para essa esfera.

Quase quatro vezes o preço da reforma do Pacaembu, em uma única arena.

Fico imaginando o estranhamento de um leitor brasileiro ao ler essa conta, e o ponto não é defender o gasto estrangeiro: o que assusta de verdade é a velocidade de execução de um lado contra a paralisia institucional crônica do outro.

Maracanã lotado em jogo de futebol no Rio de Janeiro com torcida tomando todas as arquibancadas

Um cronograma agressivo até 2029

A meta do consórcio é entregar a Sphere Abu Dhabi até o terceiro trimestre de 2029.

O cronograma considera obra do início ao fim em torno de três anos e dois meses, prazo similar ao da unidade de Las Vegas.

A diferença é que o terreno em Yas Island já está terraplanado e tem infraestrutura urbana toda pronta. A obra entra direto na fundação.

A DCT Abu Dhabi calcula receita turística incremental no primeiro ano de operação acima de US$ 300 milhões.

O cálculo parte de uma bilheteria média elevada e ocupação acima de metade da capacidade nos primeiros doze meses.

O Brasil tem 207 milhões de habitantes e um mercado de música ao vivo que se aproxima de US$ 1 bilhão anuais.

Mesmo assim, não há projeto de arena imersiva sequer em estágio de viabilidade nas três maiores cidades brasileiras hoje.

Confesso que essa parte é a que mais incomoda, porque mostra que o gargalo brasileiro não é falta de mercado, e sim de ambição executiva e de coordenação entre privado e poder público.

A Sphere Abu Dhabi começa a sair do solo nos próximos meses. O Brasil segue debatendo.

E você, o Brasil ainda consegue levantar uma arena imersiva desse nível nos próximos 10 anos? Comenta aí.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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