Expansão da geração e desperdício crescente colocam sistema elétrico brasileiro sob pressão até 2035, com aumento da demanda, cortes frequentes de energia renovável e necessidade urgente de fontes mais estáveis para garantir segurança no abastecimento.
O sistema elétrico brasileiro entrou numa fase em que crescimento de capacidade instalada já não significa, por si só, segurança de abastecimento.
Estudos setoriais indicam que, para atravessar a próxima década sem ampliar o risco de falhas no atendimento nos horários de maior consumo, o país poderá precisar adicionar cerca de 35 gigawatts de fontes despacháveis até 2035, volume próximo de três vezes a potência de Itaipu.
Ao mesmo tempo, o avanço acelerado da geração solar e eólica tem exposto um paradoxo: em vários momentos, especialmente com baixa demanda, parte da energia disponível precisa ser cortada para preservar a estabilidade da rede.
-
Cientistas brasileiros avançam simultaneamente em duas pesquisas sobre hidrogênio limpo e impulsionam soluções que podem transformar a matriz energética, ampliar a competitividade industrial e acelerar metas de redução de emissões em larga escala
-
Avanço em energia renovável: Projeto de R$ 150 milhões lançado por Petrobras e Finep busca criar eletrolisadores de última geração para hidrogênio verde, fortalecendo pesquisa nacional e preparando o Brasil para disputar espaço em um mercado energético bilionário
-
Avós analfabetas ou semialfabetizadas foram treinadas para consertar sistemas solares, abrir oficinas rurais e iluminar casas que ainda dependiam de querosene
-
O mundo apostou no hidrogênio verde como combustível do futuro, mas agora encara o efeito colateral: produzir 1 quilo exige cerca de 9 litros de água ultrapura, e os maiores projetos do planeta ficam justamente nas regiões mais secas da Terra, onde a água já falta para as pessoas
Demanda crescente e risco nos horários de pico
A pressão sobre o sistema aparece justamente no intervalo em que a solar perde força e a carga segue elevada.
Nesse cenário, fontes capazes de entrar em operação sob comando do operador, como hidrelétricas com reservatório, termelétricas, usinas nucleares e soluções de armazenamento, ganham peso na discussão sobre expansão.
A avaliação que chegou à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), elaborada pela Academia Nacional de Engenharia e pelo CIGRE-Brasil com base em levantamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), reforça que o desafio não está apenas em gerar mais energia, mas em garantir potência e flexibilidade quando o sistema mais precisa.
O tamanho do déficit de potência no Brasil
A EPE projeta que a carga global de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN) deve atingir 115 GW médios em 2035 no cenário de referência, com crescimento médio anual de 3,3%.
Num cenário mais dinâmico, impulsionado também por novas cargas como data centers e projetos de hidrogênio por eletrólise, esse volume pode chegar a 138 GW médios.

A demanda máxima integrada, que expressa o maior patamar horário a ser atendido, poderá superar 180 GWh/h no horizonte do plano.
Esse avanço do consumo explica por que a discussão deixou de ser apenas quantitativa e passou a envolver a capacidade de resposta instantânea do parque gerador.
Hoje, embora o país já tenha contratado uma nova rodada relevante de reforço para segurança do suprimento, o movimento ainda não encerra a necessidade apontada pelos estudos.
Em março de 2026, o governo contratou 18,98 GW em leilão de reserva de capacidade, com empreendimentos termelétricos e hidrelétricos, no maior certame desse tipo já realizado no país.
Ainda assim, o volume citado pelos estudos setoriais para a próxima década continua acima disso, o que mantém a discussão sobre novos investimentos em potência firme e em infraestrutura de rede.
Excesso de energia e desafios de integração das renováveis
O avanço das renováveis ajuda a explicar o contraste.
A micro e minigeração distribuída, puxada sobretudo por sistemas solares em telhados e pequenos empreendimentos, tornou-se uma das principais frentes de expansão da matriz.
Segundo a EPE, essa modalidade respondeu, em 2024, por 5,6% da geração total de eletricidade no Brasil e por cerca de 13% do consumo cativo nacional.
Para 2035, o cenário de referência da estatal projeta 78,1 GW de capacidade instalada em micro e minigeração distribuída.
Ao mesmo tempo, a própria EPE estima que a autoprodução de eletricidade no local de consumo deverá representar aproximadamente 11,6% do consumo total do país em 2025.
Isso pressiona planejamento, transmissão, distribuição e mecanismos de coordenação entre a energia gerada de forma descentralizada e a que precisa ser despachada centralmente.
Curtailment e desperdício de energia no sistema
Na prática, o operador precisa administrar um sistema cada vez mais sujeito a fortes variações ao longo do dia.
O ONS registra que as mudanças nas condições de operação do SIN ficaram mais intensas com a maior participação de fontes renováveis variáveis, além de eventos climáticos como ondas de calor.
Em nota técnica publicada em 2025, o operador destacou que essas transformações elevaram a complexidade para definir reserva de potência operativa e exigem horizontes de avaliação menores e integração mais estreita entre programação e operação em tempo real.
É nesse contexto que entra o curtailment, mecanismo usado para restringir a produção quando a geração supera a capacidade de escoamento da rede ou a necessidade de consumo.
Em outras palavras, não se trata de falta de energia, mas de um excesso que o sistema não consegue absorver com segurança.
Os números recentes mostram o tamanho do desequilíbrio.
Levantamentos divulgados pelo setor apontam que, nas segundas-feiras, o corte médio por excesso de oferta gira em torno de 1.040 MW médios.
Aos domingos, quando a atividade industrial e parte do comércio recuam e a geração solar continua elevada, esse volume pode chegar a 5.135 MW médios.
A diferença entre os dias escancara a combinação de dois fatores: uma matriz cada vez mais renovável e uma infraestrutura que ainda não acompanhou, na mesma velocidade, as exigências de armazenamento, transmissão e resposta rápida.
Capacidade instalada alta não elimina riscos
Mesmo com a expansão contínua da oferta, o sistema ainda convive com limitações operacionais.
Dados citados por publicações setoriais com base no ONS apontam que o SIN alcançou 246.762 MW de capacidade instalada no segundo semestre de 2025, enquanto a demanda máxima observada ficou em torno de 104.732 MW.
A distância entre os dois números, à primeira vista confortável, não elimina o risco porque capacidade total não equivale a potência disponível no lugar certo, no momento exato e com a flexibilidade necessária para responder às rampas de carga.
Nesse ambiente, a expansão da rede e a inclusão de armazenamento deixam de ser temas laterais.
O caderno da EPE sobre micro e minigeração e baterias atrás do medidor ressalta que políticas de incentivo, financiamento e participação desses sistemas nos mercados de eletricidade serão decisivas para ampliar a viabilidade econômica do armazenamento no Brasil.
Sem esse tipo de reforço, o país tende a conviver simultaneamente com sobra de energia em certos horários e necessidade de contratação adicional de potência para o período noturno, sobretudo no fim da tarde e início da noite.
O sinal de alerta, portanto, vem menos da escassez estrutural de geração e mais da velocidade com que o perfil da matriz mudou.
O Brasil segue com forte presença de renováveis e mantém uma posição favorável em comparação internacional, mas a transição já cobra uma resposta mais sofisticada em planejamento, transmissão, armazenamento e contratação de fontes que sustentem o sistema nos momentos críticos.
O desafio aberto para o setor é transformar essa abundância em energia efetivamente utilizável, sem desperdiçar produção limpa nem elevar a exposição a blecautes em horários de pico.
