Com 315 metros de concreto erguidos num desfiladeiro a 3.244 metros de altitude, a barragem Shuangjiangkou supera a recordista por 10 metros e vai gerar 2 GW — o suficiente para abastecer 3 milhões de residências e economizar 3 milhões de toneladas de carvão por ano
Se você colocasse a Torre Eiffel ao lado dela, a barragem seria apenas 9 metros mais baixa.
A Shuangjiangkou, na província de Sichuan, China, tem 315 metros de altura.
É o equivalente a um arranha-céu de 100 andares.
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E ela está sendo erguida não numa planície, mas num desfiladeiro a 3.244 metros de altitude, no alto do rio Dadu, na prefeitura autônoma tibetana e qiang de Aba.
Em 1º de maio de 2025, a PowerChina iniciou o enchimento do reservatório — marcando o começo da fase final de uma obra que levou mais de uma década.

Os números que impressionam pela escala
As dimensões da Shuangjiangkou são difíceis de imaginar sem comparações:
- Altura: 315 metros — supera a recordista Jinping-I (305 m) por 10 metros
- Comprimento no topo (coroa): 650 metros — mais de 6 campos de futebol lado a lado
- Largura na base: mais de 300 metros — um bairro inteiro caberia na fundação
- Largura no topo: apenas 16 metros — estreita como uma rua de mão dupla
- Capacidade instalada: 2.000 MW (2 GW)
- Geração anual: 8.341 milhões de kWh
- Reservatório: 110 milhões de m³ de água
- Nível d’água atual: 2.344 metros acima do mar — 80 metros acima do leito original do rio
Para ter uma ideia do volume, o reservatório armazena quase 8 vezes o volume do Lago Oeste de Hangzhou, um dos mais famosos da China.
Como funciona uma usina hidrelétrica de 315 metros
A água acumulada no reservatório cria uma enorme pressão devido à altura da coluna d’água.
Quando as comportas abrem, essa água desce por condutos forçados até as turbinas localizadas na base da barragem.
A força da queda d’água gira as turbinas, que acionam geradores elétricos.
Quanto maior a altura da queda, mais energia cada litro de água gera.
Com 315 metros de desnível, Shuangjiangkou tem uma das maiores quedas do mundo.
Isso permite gerar 2 GW com um volume de água relativamente modesto — ela é mais eficiente por litro d’água do que barragens mais baixas como Itaipu, que compensa com volume muito maior.
Economia de 3 milhões de toneladas de carvão por ano
Quando estiver em plena operação, a usina vai economizar 2,96 milhões de toneladas de carvão por ano.
Além disso, vai evitar a emissão de 7,18 milhões de toneladas de CO₂ anuais.
Para comparação, isso equivale a tirar cerca de 1,5 milhão de carros das ruas por um ano inteiro.
A energia gerada será suficiente para abastecer mais de 3 milhões de residências no sudoeste chinês.
Portanto, Shuangjiangkou não é apenas uma proeza de engenharia — é uma peça central na transição energética chinesa, substituindo usinas a carvão por energia hidrelétrica limpa.

Construir a 3.244 metros com terremotos
A localização é um pesadelo para engenheiros.
A zona tem alta sismicidade — terremotos são frequentes na região de Sichuan.
Em 2008, o terremoto de Wenchuan, a poucos quilômetros dali, matou mais de 69 mil pessoas e danificou centenas de barragens.
Os solos são fraturados e instáveis.
As condições climáticas são extremas, com temperaturas que podem cair bem abaixo de zero no inverno da meseta tibetana.
Portanto, os padrões de segurança precisaram ser elevados muito além do comum.
Cada bloco de concreto foi projetado para resistir não apenas à pressão da água, mas a possíveis abalos sísmicos de grande magnitude.
De 2008 a 2025 — quase duas décadas de obra
A cronologia mostra a complexidade do projeto:
- 2008: início dos trabalhos preliminares e estudos geológicos
- 2013: aprovação pelo Ministério de Proteção Ambiental da China para a superestrutura
- 2015: início das obras principais com maquinário pesado na meseta tibetana
- 1º de maio de 2025: início do enchimento do reservatório com 110 milhões de m³
- Final de 2025: previsão de início da geração com a primeira turbina
São quase 17 anos do primeiro estudo até a geração de energia.
Contudo, a escala e a complexidade geológica justificam o prazo — poucos projetos no mundo enfrentam desafios tão extremos simultaneamente.
Metade das grandes barragens do mundo são chinesas
A China construiu mais de 22.000 barragens acima de 15 metros desde os anos 1950.
Isso representa metade de todas as grandes barragens do planeta.
A Shuangjiangkou é a mais recente e a mais alta dessa lista impressionante.
A recordista anterior, Jinping-I, também fica em Sichuan, com 305 metros.
Portanto, a China não apenas detém o recorde mundial — ela compete consigo mesma para superá-lo a cada nova obra.
Para comparar com o Brasil
A maior barragem do Brasil, Itaipu, tem 196 metros de altura — 119 metros a menos que Shuangjiangkou.
Em capacidade, Itaipu gera 14 GW contra 2 GW da chinesa — sete vezes mais potente.
Contudo, Itaipu foi construída numa planície às margens do rio Paraná, em condições geográficas muito mais favoráveis.
Erguer 315 metros de concreto num desfiladeiro a 3.244 metros de altitude, em zona sísmica, é um desafio de engenharia incomparável.
Enquanto Itaipu compensa com volume de água, Shuangjiangkou compensa com altura de queda — cada litro gera mais energia ao cair de maior altura.

Não é só energia — controle de inundações
Além de gerar eletricidade, Shuangjiangkou tem função de controle de inundações no rio Dadu.
A região sofre com cheias sazonais que causam danos severos a comunidades ribeirinhas.
O reservatório de 110 milhões de m³ pode absorver picos de vazão, liberando água de forma controlada ao longo do ano.
Dessa forma, a barragem protege vidas e propriedades enquanto gera energia limpa — uma dupla função que justifica a complexidade e o custo do projeto.
Ressalvas
Há variações nos dados de altura entre fontes (312 a 315 metros), embora a maioria confirme 315 metros.
Não há dados públicos sobre custos totais do projeto, impactos sociais ou deslocamentos populacionais.
A construção em zona sísmica exige monitoramento permanente, e eventos futuros são um risco que não pode ser completamente eliminado.
Megabarragens enfrentam críticas globais por impactos ambientais — alteração de ecossistemas, inundação de áreas e mudanças no regime dos rios.
Ainda assim, encher o reservatório de uma barragem de 315 metros a mais de 3 mil metros de altitude é uma demonstração de engenharia que poucos países tentariam — e que a China está concluindo enquanto o mundo assiste.

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