Fabricantes chineses projetam alta expressiva nos preços dos painéis solares em 2026, impulsionada por mudanças fiscais, custos de insumos e reorganização da indústria fotovoltaica.
O mercado internacional de painéis solares atravessa uma inflexão relevante. Depois de anos de preços em queda, fabricantes indicam que 2026 deve consolidar um novo ciclo de reajustes, com aumentos que podem alcançar até 30% ao longo do ano. O movimento começou de forma mais clara no fim de 2025 e já afeta negociações em diferentes regiões.
Executivos de empresas chinesas relataram ao Canal Solar que os primeiros aumentos já foram aplicados. Entre o fim de dezembro de 2025 e o início de janeiro de 2026, os preços dos módulos fotovoltaicos subiram entre 10% e 15%. A expectativa, no entanto, é de novos reajustes nos próximos meses, à medida que fatores estruturais ganhem força.
Esse cenário marca uma mudança significativa para um setor que vinha operando em patamares historicamente baixos desde 2023, quando o excesso de oferta e a redução dos custos de produção pressionaram os valores para baixo.
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Reajuste surpreende pelo timing e sinaliza ajuste estrutural
Para Matheus Cerutti, Head of Sales Latam da Astronergy, o primeiro aumento chamou atenção pelo momento em que ocorreu. “No fim do ano passado, já existia uma expectativa de aumento, mas o movimento acabou acontecendo de forma mais rápida do que muitos esperavam. Esse primeiro reajuste já ficou na casa dos 10%”, afirmou.
Segundo o executivo, o mercado ainda não absorveu completamente esse novo patamar. Além disso, há sinais claros de que o reajuste inicial não será isolado. “Eu acredito que ainda possa haver mais um aumento de cerca de 10% até o Ano Novo Chinês ou logo após. É uma leitura de cenário, não uma certeza absoluta, mas os sinais apontam nessa direção”, explicou.
Na avaliação de Cerutti, o setor passa por um ajuste estrutural, e não por um movimento pontual. A combinação de mudanças fiscais, reorganização industrial e alta de insumos cria um ambiente de custos mais elevados para os fabricantes de painéis solares.
Fim de incentivo fiscal pode pressionar ainda mais os preços
Um dos fatores centrais apontados pelos fabricantes é a possível extinção do reembolso do VAT (Value-Added Tax), incentivo concedido pelo governo chinês às exportações. Atualmente, esse benefício está em torno de 9%, após já ter sido reduzido de níveis próximos a 13% em anos anteriores.
Cerutti alertou para o impacto direto dessa mudança. “Quando esse incentivo for retirado pelo governo chinês, o impacto será direto. Estamos falando de mais 9% de aumento no preço”, destacou.
De acordo com o executivo, contratos mais recentes já incorporam cláusulas de reajuste automático vinculadas a alterações na política fiscal chinesa. Isso indica que o mercado se antecipa ao fim do benefício. “Acredito que o aumento acumulado ao longo do ano possa chegar a algo entre 25% e 30% em relação aos preços dos módulos fotovoltaicos chineses praticados até o fim do ano passado”, concluiu.
Cadeia produtiva passa por reorganização profunda na China
Além da questão tributária, a indústria fotovoltaica enfrenta mudanças relevantes na sua estrutura produtiva. Segundo Cerutti, o governo chinês passou a impor diretrizes mais rígidas de controle de capacidade, especialmente no segmento de polissilício.
Essa política contribuiu para uma alta próxima de 50% no preço do insumo ao longo de 2025. O polissilício é um dos principais componentes da cadeia solar, e sua valorização impacta diretamente o custo final dos painéis solares.
Paralelamente, fabricantes vêm desligando linhas de produção antigas. Tecnologias consideradas ultrapassadas, como o PERC, estão sendo gradualmente substituídas por módulos de nova geração. Esse processo exige investimentos elevados e reduz a oferta disponível no curto prazo, o que reforça a pressão sobre os preços.
Matérias-primas estratégicas ampliam custo por Watt
Outro vetor importante do encarecimento é a valorização de matérias-primas essenciais. Prata, cobre e alumínio registraram aumentos significativos, afetando o custo por Watt dos módulos fotovoltaicos.
A prata, em especial, é utilizada na metalização das células solares, formando as trilhas condutoras. O aumento do preço do metal vem sendo observado desde o fim de 2025 e já impacta diretamente os custos industriais.
Felipe Santos, diretor regional LATAM da Osda Solar, afirmou que o movimento de alta não começou agora. Segundo ele, trata-se de uma construção gradual. “O movimento de alta nos preços dos painéis solares não começou agora, mas vem sendo construído desde o fim de 2025, impulsionado por uma combinação de fatores estruturais e macroeconômicos”, explicou.
Além da prata, o alumínio aparece como outro elemento de peso. “O preço do alumínio disparou, e isso impacta diretamente o custo do módulo”, afirmou Santos, lembrando que o metal é amplamente utilizado nas estruturas dos painéis solares.
Câmbio e controle de oferta reforçam tendência de alta
O câmbio também entra na equação. A valorização do Yuan frente ao Dólar pressiona os preços internacionais, já que os custos de produção são majoritariamente em moeda local. Para manter a rentabilidade, os fabricantes ajustam os valores em Dólar.
Santos destacou ainda o papel do controle de capacidade produtiva imposto pelo governo chinês. Segundo ele, a redução do excesso de oferta cria um ambiente de maior disciplina de preços. “Além das medidas adotadas para estabilizar a indústria e torná-la mais saudável, esses fatores macroeconômicos vêm impactando fortemente os preços dos módulos desde o final do ano passado”, concluiu.
Preços ainda estão abaixo dos níveis históricos
Apesar da perspectiva de aumentos relevantes, executivos do setor lembram que os preços atuais ainda estão distantes dos patamares observados em anos anteriores. Cerutti ressaltou que, desde janeiro de 2023, os valores recuaram cerca de 65%, atingindo um piso histórico.
Mesmo com os reajustes projetados para 2026, o mercado não deve retornar aos níveis de 2022. Esse fator ajuda a explicar por que parte do setor vê o movimento como uma correção necessária para a sustentabilidade da indústria.


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