O Atlântico Sul abriga ilhas americanas e inglesas com material nuclear a Argentina ainda reivindica soberania sobre as Malvinas e 95% do comércio exterior brasileiro passa por rotas marítimas que podem ser congestionadas em caso de conflito enquanto a Amazônia Azul de 5,7 milhões de km² permanece vulnerável
De acordo com o portal da Agencia Marinha, o Brasil trata o Atlântico Sul como uma zona de paz. Mas o professor Vinícius de Carvalho, do departamento de estudos de guerra do King’s College, em Londres, alerta que essa percepção é mais desejo do que realidade. “Há uma declaração de que o Atlântico é uma zona de paz, mas é preciso não cair na ilusão de que existem áreas pacíficas e protegidas no mundo que nunca deixarão de ser assim”, afirmou o pesquisador em entrevista à Agência Marinha de Notícias. Na região, há ilhas americanas e inglesas cujos países possuem armas nucleares, disputas territoriais sem resolução e grandes potências com interesses crescentes.
O cenário se torna ainda mais crítico quando se considera o que o Brasil tem em jogo. Cerca de 95% do comércio exterior brasileiro passa por rotas marítimas no Atlântico Sul, e a chamada Amazônia Azul com mais de 5,7 milhões de quilômetros quadrados sob jurisdição brasileira concentra petróleo, gás, biodiversidade e cabos submarinos que sustentam comunicações globais. A Comissão Interministerial para os Recursos do Mar estima que o mar gere mais de R$ 2 trilhões por ano ao Brasil, o equivalente a 19% do PIB. Proteger esse espaço é proteger a economia inteira do país.
Por que o Atlântico Sul não é a zona pacífica que o Brasil acredita
A ideia de que o Atlântico Sul é uma região livre de ameaças não resiste a uma análise mais detalhada. O professor Carvalho aponta que ilhas americanas e inglesas na região pertencem a países que possuem arsenal nuclear o que, por si só, introduz um elemento de tensão estratégica.
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A Argentina ainda reivindica soberania sobre as Malvinas, e mesmo sem conflito cinético no momento, a disputa territorial permanece aberta e pode ser reativada por mudanças geopolíticas.
No Golfo da Guiné, na costa africana do Atlântico Sul, a pirataria e a instabilidade são realidades conhecidas. O professor alerta que “estamos vivendo algo que não víamos há mais de meio século: países sugerindo tomar parte de territórios ou ilhas que pertencem a outras nações, diretamente violando o princípio fundamental da soberania”.
Para o Brasil, isso significa que ilhas oceânicas como São Pedro e São Paulo e Trindade essenciais para a extensão da plataforma continental brasileira podem eventualmente atrair o interesse de potências maiores. A resposta do país precisa estar à altura.
O que acontece com o Brasil se rotas no Atlântico Sul forem interrompidas
A dependência brasileira do mar é estrutural. Sem as rotas marítimas do Atlântico Sul, o país simplesmente para. O professor Carvalho compara uma eventual interrupção a um atleta que sofre um acidente:
“Mesmo que consiga voltar daí a alguns dias, até ser o que era antes levará um tempo, exigindo fisioterapia, treinamento e outros cuidados.” A reabertura de uma rota não significa recuperação imediata os efeitos se arrastam por meses.
O Brasil produz petróleo em larga escala e não depende tanto de importações de combustível quanto outros países, mas isso não o protege dos efeitos indiretos.
Quando crises afetam pontos sensíveis como o Estreito de Ormuz, os preços mundiais sobem e impactam o consumidor brasileiro no dia a dia.
A vulnerabilidade não está apenas no que o Brasil importa pelo Atlântico Sul, mas no fato de que qualquer instabilidade global nas rotas marítimas gera efeitos sistêmicos que chegam à economia doméstica nos combustíveis, nos alimentos, nos insumos industriais.
A vulnerabilidade dos cabos submarinos no Atlântico Sul
Além do comércio e do petróleo, o Atlântico Sul abriga infraestrutura crítica que raramente aparece no debate público: os cabos submarinos que sustentam comunicações globais. O professor Carvalho é direto: “O mundo inteiro está bastante vulnerável a sabotagem nesse campo.
É praticamente impossível proteger completamente as vias desses cabos em todo o mundo.” Mesmo as marinhas mais bem equipadas, como as do Mar do Norte e do Mar Báltico, têm dificuldade em proteger essas infraestruturas.
Para o Brasil, o risco é real. A Marinha já realizou exercícios a 90 quilômetros da costa de Fortaleza simulando ações suspeitas contra cabos submarinos.
A proteção desses cabos no Atlântico Sul é essencial porque uma sabotagem bem-sucedida poderia interromper comunicações entre continentes, afetando desde transações financeiras até o funcionamento de serviços digitais que milhões de brasileiros usam diariamente.
O que o Brasil precisa fazer para proteger suas riquezas no Atlântico Sul
O professor Carvalho defende que é ilusão pensar que o Brasil consegue controlar e proteger cada centímetro da Amazônia Azul, dada sua dimensão de 5,7 milhões de quilômetros quadrados.
A saída, segundo ele, é desenvolver mecanismos como o SisGAAz o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul e investir em meios que permitam vigilância e proteção contínuas no Atlântico Sul. A Marinha precisa de modernização constante e coordenação com outros atores para dar conta de uma área marítima maior que o território continental.
Há também o risco de pesquisas científicas clandestinas e tentativas de patentear recursos da região sem autorização.
O professor alerta que “já houve várias tentativas de extrair ou patentear recursos em nossa região” do Atlântico Sul, e que o Brasil precisa garantir, por meio de sua Defesa Naval, que não haja atividades não autorizadas que violem a soberania nacional.
A proteção da Margem Equatorial, das ilhas oceânicas e dos recursos da Amazônia Azul é uma questão de soberania que exige presença constante e capacidade de resposta que vai além da vigilância.
A Marinha como última linha de defesa do Atlântico Sul
Se um conflito escalasse para o Atlântico Sul, as rotas comerciais brasileiras ficariam congestionadas e o país precisaria de presença militar permanente para garantir o funcionamento mínimo de sua economia. “Nesse cenário, será necessária a presença, a dissuasão e a atuação 24 horas por dia da Marinha do Brasil”, afirma o professor Carvalho.
A Marinha é também Autoridade Marítima responsável por regulamentar atividades mercantes, garantir segurança da navegação e salvaguarda da vida humana em águas brasileiras.
O debate sobre o Atlântico Sul ganha novo fórum em 10 de abril, quando a Marinha realizará o 3º Simpósio Marítimo da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), com o tema “Fortalecendo a Cooperação Marítima e a Segurança no Atlântico Sul”.
O evento, em formato híbrido na Escola Naval, discutirá consciência situacional marítima integrada e planejamento espacial marinho temas que traduzem em linguagem técnica a mesma preocupação do professor Carvalho: o Atlântico Sul não pode ser tratado como zona segura por inércia.
Você sabia que o Atlântico Sul abriga armas nucleares em ilhas estrangeiras? Acha que o Brasil está preparado para proteger a Amazônia Azul? Deixe sua opinião nos comentários.

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