Mesmo após o fechamento, aterros continuam emitindo metano por décadas. Entenda por que o lixo urbano virou uma das maiores fontes invisíveis de gases de efeito estufa.
Quando um aterro sanitário é oficialmente encerrado, a percepção comum é a de que o problema ambiental terminou ali. A realidade é bem diferente. De acordo com avaliações técnicas consolidadas pelo IPCC, pela EPA dos Estados Unidos e pela Global Methane Initiative, aterros “selados” continuam liberando metano (CH₄) por 30 a 50 anos — e, em alguns casos, por períodos ainda mais longos.
Isso acontece porque o lixo enterrado não para de se decompor quando o aterro fecha. Pelo contrário: resíduos orgânicos continuam sendo degradados lentamente por microrganismos em ambientes pobres em oxigênio, exatamente as condições ideais para a produção de metano.
Por que o metano é tão crítico para o clima
O metano é um gás de efeito estufa muito mais potente que o dióxido de carbono no curto prazo. Segundo o IPCC, seu potencial de aquecimento global é cerca de 84 vezes maior que o do CO₂ em um horizonte de 20 anos. Isso significa que pequenas quantidades de metano têm impacto climático desproporcional.
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Nos inventários nacionais de emissões, esse fator pesa enormemente. Em diversos países, o setor de resíduos sólidos urbanos já aparece entre as principais fontes individuais de metano, superando ou rivalizando com segmentos industriais específicos, como cimento, siderurgia ou química pesada.
Aterros selados ainda “respiram”
Mesmo após o fechamento, a massa de resíduos enterrada funciona como um reator biológico subterrâneo. Restos de alimentos, papel, madeira, tecidos e outros materiais orgânicos entram em um processo chamado digestão anaeróbia, que ocorre em três grandes etapas:
- Hidrólise e acidogênese, nas quais moléculas complexas se quebram;
- Acetogênese, com produção de compostos intermediários;
- Metanogênese, fase em que bactérias produzem metano e dióxido de carbono.
Esse processo pode durar décadas porque o lixo é compactado, a umidade varia e o acesso a oxigênio é mínimo. Em muitos aterros antigos, especialmente os construídos antes de padrões modernos de engenharia ambiental, o controle desses gases é limitado ou inexistente.
Quando o lixo rivaliza com a indústria
Dados compilados pela EPA e por agências ambientais europeias mostram que, em países altamente urbanizados, aterros sanitários representam a maior fonte única de metano de origem humana. Nos Estados Unidos, por exemplo, os aterros lideram as emissões nacionais de CH₄ há anos. Na União Europeia, o setor de resíduos disputa posições com a agropecuária intensiva.
No Brasil, inventários do setor ambiental indicam que o lixo urbano responde por uma parcela relevante das emissões de metano, sobretudo em regiões metropolitanas onde grandes aterros operaram por décadas antes de serem encerrados ou substituídos.
Captura de gás: solução parcial, não definitiva
A engenharia moderna prevê sistemas de captura e queima ou aproveitamento energético do biogás. Tubulações perfuradas drenam o gás gerado no interior do aterro, reduzindo vazamentos diretos para a atmosfera. Em alguns casos, esse gás é usado para gerar eletricidade. No entanto, relatórios técnicos apontam que:
- Nenhum sistema captura 100% do metano gerado;
- A eficiência cai com o envelhecimento do aterro;
- Aterros antigos frequentemente não foram projetados para essa tecnologia.
Como resultado, uma fração significativa do metano continua escapando de forma difusa, por fissuras, falhas de cobertura ou áreas mal vedadas.
O passivo climático de longo prazo
Um dos pontos mais críticos destacados pelo IPCC é que aterros criam um passivo climático intergeracional. Cidades que encerraram lixões e aterros há décadas ainda lidam com emissões hoje — e continuarão lidando no futuro.
Isso cria um paradoxo: políticas públicas celebram o fechamento de aterros enquanto as emissões seguem ocorrendo silenciosamente, fora do radar do debate público. O custo ambiental, porém, permanece ativo.
Por que esse problema é tão difícil de eliminar
Existem três obstáculos principais para eliminar as emissões de metano dos aterros:
- Volume acumulado de resíduos: décadas de descarte geraram montanhas de lixo que não podem ser simplesmente removidas.
- Limitações técnicas: sistemas de captura têm eficiência limitada e exigem manutenção contínua.
- Custo financeiro: monitorar e mitigar emissões por 30 a 50 anos representa um custo elevado para municípios.
Por isso, especialistas apontam que a verdadeira solução está menos no tratamento do aterro fechado e mais na redução do envio de resíduos orgânicos ao solo, por meio de compostagem, biodigestão e mudanças estruturais na gestão de resíduos.
Um problema invisível, mas decisivo
Aterros sanitários são frequentemente vistos como um capítulo encerrado da história urbana. Na prática, eles continuam ativos, emitindo gases altamente impactantes para o clima global. Ao rivalizar com setores industriais inteiros em emissões, o lixo urbano deixa claro que o desafio climático não está apenas nas chaminés e fábricas, mas também debaixo da terra, onde montanhas de resíduos seguem “respirando” metano silenciosamente por décadas.
Esse passivo invisível ajuda a explicar por que o combate ao aquecimento global exige olhar além das fontes óbvias — e enfrentar de forma direta o legado ambiental deixado pelo modelo tradicional de descarte de lixo nas cidades.


Ir misturando terra nesse lixo, impede saída de gazes e vai o transformando em excelente adubo orgânico.
Mas e o chorume? O líquido que vem ee baterias e outros líquidos nocivos?
Porque não transformar esse lixo orgânico em adubo ?