Controle dos EUA sobre o petróleo da Venezuela favorece refinarias americanas, como Valero e Marathon, que lucram com óleo pesado mais barato, enquanto produtores enfrentam mais riscos.
A ampliação do controle dos Estados Unidos sobre a indústria de petróleo da Venezuela está gerando impactos desiguais dentro do setor energético. Embora a atenção pública recaia sobre as grandes petroleiras, os maiores ganhadores iniciais desse movimento não são os produtores de petróleo, mas sim as refinarias americanas responsáveis por transformar o óleo cru em gasolina, diesel e outros derivados.
Empresas de refino como Valero Energy e Marathon Petroleum aparecem em posição privilegiada. Isso ocorre porque essas companhias ajustaram suas plantas industriais décadas atrás justamente para processar o petróleo venezuelano, conhecido por suas características mais pesadas e complexas.
Características do petróleo venezuelano favorecem refinarias específicas
Nem todo petróleo é igual. O principal tipo de petróleo bruto extraído na Venezuela é viscoso, denso e semelhante a piche. Por ser mais difícil de refinar, costuma ser vendido a preços inferiores aos do petróleo produzido nos Estados Unidos. Esse fator, no entanto, o torna especialmente atrativo para refinarias equipadas para lidar com esse tipo de óleo.
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Na Costa do Golfo dos EUA, diversas refinarias dispõem de tecnologias capazes de processar esse petróleo pesado de forma eficiente. Assim, o acesso ampliado ao petróleo venezuelano representa uma oportunidade direta de ganho operacional e financeiro para essas empresas.
Menor exposição ao risco diferencia refinarias de produtoras
Enquanto produtoras como Exxon Mobil e ConocoPhillips precisam avaliar riscos políticos, legais e operacionais para atuar diretamente na Venezuela, as refinarias enfrentam um cenário distinto. Elas não precisam assumir compromissos de longo prazo nem deslocar funcionários para o país.
Esse menor nível de exposição torna o negócio mais atrativo. Como resultado, as refinarias podem se beneficiar do petróleo venezuelano sem arcar com os mesmos riscos enfrentados pelas empresas de exploração e produção.
Mercado financeiro reage ao novo cenário do petróleo
Os investidores rapidamente identificaram essa assimetria. Desde que forças dos EUA capturaram Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, as ações da PBF Energy, uma refinaria de médio porte, subiram cerca de 15%, superando com folga o desempenho do mercado mais amplo.
Já empresas maiores também registraram ganhos relevantes. Os papéis da Valero avançaram aproximadamente 10%, enquanto as ações da Marathon Petroleum tiveram alta próxima de 6%.
“Ter mais petróleo bruto venezuelano disponível é só vantagem para as refinarias dos EUA”, disse Rick Weyen, executivo aposentado que anteriormente coordenava o envio de petróleo para uma refinaria no Texas.
Momento já era favorável para o setor de refino
Esse novo impulso ocorre em um momento já positivo para as refinarias. Historicamente, essas empresas se beneficiam de preços mais baixos do petróleo, desde que a demanda por combustíveis permaneça robusta. Foi exatamente esse o cenário observado durante e logo após a pandemia de covid-19, quando a recuperação do consumo elevou as margens de lucro.
Assim, a possível ampliação do fluxo de petróleo venezuelano tende a reforçar uma fase já lucrativa para o setor.
Histórico das importações mostra espaço para crescimento
Ainda é cedo para definir com precisão como os fluxos de petróleo irão se comportar após a derrubada de Maduro. No entanto, dados históricos indicam que as importações podem crescer. Em 2018, antes das sanções mais severas impostas por Donald Trump em seu primeiro mandato, os Estados Unidos importavam cerca de 506 mil barris de petróleo venezuelano por dia.
No outono passado, esse volume havia caído aproximadamente 75%. A retomada do controle americano sobre o setor abre espaço para uma reversão parcial desse movimento.
Plano prevê controle prolongado da indústria petrolífera
Na semana passada, o governo Trump apresentou um plano que prevê o controle da indústria de petróleo da Venezuela “por tempo indefinido”. A estratégia começaria com algo entre 30 milhões e 50 milhões de barris, possivelmente já armazenados no país ou em navios-tanque ancorados próximos à costa.
Embora o governo venezuelano não tenha confirmado todos os detalhes, grandes tradings globais, como Trafigura e Vitol, já estão ajudando a alinhar compradores para esse petróleo.
Proximidade geográfica reduz custos e favorece os EUA
Grande parte do petróleo disponível deve seguir para os Estados Unidos. Além de ser adequado às refinarias americanas, a Venezuela está relativamente próxima da Costa do Golfo, o que reduz custos logísticos e torna a operação ainda mais atrativa.
“Estamos mais do que felizes à medida que essa oportunidade se expande para investir ainda mais em nossas refinarias e produzir mais”, disse Lane Riggs, CEO da Valero, durante reunião recente entre executivos do setor e o presidente Trump na Casa Branca.
Riggs destacou que a empresa possui refinarias “configuradas de forma única para processar petróleo venezuelano”.
Impactos potenciais para consumidores e concorrentes
Com a chegada de mais petróleo barato, consumidores americanos podem se beneficiar de preços ligeiramente mais baixos de combustíveis, como diesel e querosene de aviação. Ainda assim, qualquer redução tende a ser modesta, já que a Venezuela responde por cerca de 1% da produção mundial de petróleo.
Ao mesmo tempo, um aumento das importações venezuelanas pode prejudicar produtores do Canadá, atualmente os principais fornecedores de petróleo pesado para os EUA.
Doug Terreson, ex-analista de energia e atual conselheiro da refinaria Phillips 66, relativizou o impacto dos volumes iniciais. “É uma quantidade relevante de petróleo? Não atrapalha, mas são dois dias de oferta”, afirmou, lembrando que os Estados Unidos refinam cerca de 17 milhões de barris por dia.

