Em Dolomitas, um grupo de cientistas mediu sinais elétricos em 3 abetos durante o eclipse solar, mas críticos apontaram que os picos apareceram 14 horas antes, coincidiram com tempestade e não provam “antecipação”, reacendendo o debate sobre o Wood Wide Web.
Quando aparece uma história dizendo que árvores “anteciparam” um eclipse solar, dá vontade de acreditar. Parece coisa de filme, mas com cara de ciência. Só que, quando especialistas olharam com lupa, o que parecia impressionante começou a ficar frágil. O ponto central é simples: os sinais elétricos realmente existem em plantas, mas transformar isso em “árvores prevendo eclipse” exige um salto grande demais.
E o detalhe que muda tudo está no relógio e no clima: a atividade elétrica teria aumentado 14 horas antes do eclipse atingir o local do estudo, e isso coincidiu com uma tempestade com raios próximos.
O que foi medido no eclipse de outubro de 2022 e por que o caso viralizou
Durante o eclipse solar parcial de outubro de 2022, pesquisadores registraram sinais elétricos em árvores nas Dolomitas. O destaque foi a ideia de “sincronização” entre três abetos, como se as árvores estivessem alinhadas eletricamente durante o evento.
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O que colocou o caso no centro das atenções foi a parte mais ousada: a sugestão de que a atividade elétrica teria aumentado antes mesmo do eclipse começar.
Se isso fosse uma resposta real ao eclipse e não coincidência, as implicações seriam enormes. Seria como dizer que as árvores têm algum tipo de percepção do movimento do Sol e da Lua.
“Wood Wide Web” existe mesmo ou virou exagero de internet?
Nos últimos anos, a internet se apaixonou por uma ideia: florestas teriam uma espécie de rede de comunicação entre plantas e fungos, apelidada de Wood Wide Web.
O problema é que esse tema divide a comunidade científica. Alguns pesquisadores defendem que existe troca e sinalização em certos contextos, outros questionam o quanto disso é comprovado e o quanto virou narrativa inflada.
Nesse cenário, uma afirmação ainda mais forte, como “árvores anteciparam um eclipse”, naturalmente vira alvo de cobrança pesada. Porque é uma dessas histórias que, se estiver errada, vira combustível perfeito para pseudociência.
O pico ocorreu 14 horas antes e havia raios perto
Dois especialistas, Ariel Novoplansky (Universidade Ben Gurion do Negev) e Hezi Yizhaq (Instituto Suíço de Pesquisa Ambiental e Energética em Terras Áridas), rebateram a leitura do fenômeno.
O argumento mais direto deles é o seguinte: o aumento da atividade elétrica ocorreu 14 horas antes do eclipse chegar às Dolomitas, mas coincidiu com uma tempestade.
E tem um dado que pesa ainda mais: raios foram registrados bem perto das árvores monitoradas. Isso dá uma explicação bem mais simples e bem mais provável para ruídos e picos elétricos nos registros.
Novoplansky chegou a dizer, em comunicado, que ignorar fatores ambientais óbvios e escolher a interpretação mais sedutora é um caminho perigoso para a pesquisa.
O número que pouca gente percebeu, o eclipse reduziu a luz só 10,5% por 2 horas
Outro ponto que derruba o encanto é a escala do eclipse analisado.
Eclipse solar total é uma mudança brusca no ambiente: fica escuro no meio do dia, o que pode alterar comportamento de animais, temperatura e dinâmica local.
Mas o evento do estudo foi um eclipse solar parcial e superficial. Segundo a crítica, ele foi quase indistinguível do efeito de uma pequena nuvem.
A redução média de luz teria sido de cerca de 10,5% durante duas horas. E, nesse mesmo período, o nível de luz solar teria sido aproximadamente o dobro do que as árvores conseguiriam usar na prática.
Isso significa que o “choque” de luminosidade não parece forte o suficiente para justificar interpretações grandiosas sobre resposta coletiva.
A hipótese da gravidade também esbarra em uma comparação óbvia, Lua nova
Os autores do estudo especularam que a resposta não seria pela luz, mas por influência gravitacional.
Durante um eclipse solar, Sol e Lua ficam alinhados, então a ideia seria que esse alinhamento poderia influenciar os sinais elétricos.
Só que os críticos lembram um fato incômodo para essa hipótese: alinhamentos semelhantes acontecem em toda Lua nova. E a diferença durante um eclipse é só um pouco mais próxima, não um evento completamente fora da curva.
Eles também observam que a variação gravitacional quando a Lua está no ponto mais próximo da Terra pode ser maior do que qualquer “extra” provocado por um eclipse comparado a uma Lua nova normal.
Ou seja, mesmo tentando fugir da explicação pela luz, a hipótese ainda não encontra um mecanismo convincente.
Amostra pequena e um detalhe que pegou mal, 3 árvores vivas e 5 tocos
Mesmo que não existisse tempestade, o tamanho da amostra já seria um alerta.
Os dados vieram de apenas três árvores vivas e cinco tocos. E o fato de sinais elétricos aparecerem até em troncos mortos foi usado pelos críticos como um argumento contra interpretações do tipo “memória”, “antecipação” ou “resposta coletiva”.
Outro ponto que não ajudou a credibilidade foi o lançamento simultâneo de um documentário junto com o artigo científico, o que levantou sobrancelhas em um tema que pede cautela, replicação e controles rigorosos.
A síntese dos críticos é simples: sinais elétricos em árvores são reais e merecem estudo, mas transformar correlação em “árvores prevendo eclipse” é um salto sem base sólida.
No fim das contas, fica aquela sensação de que o fenômeno é interessante, mas a explicação mais provável é a mais chata: clima, tempestade e raios podem ter feito o que parecia “misterioso”.
E aí fica uma pergunta inevitável que separa curiosidade de desconfiança: quando uma descoberta parece extraordinária, o primeiro impulso é acreditar ou procurar o detalhe que derruba tudo?

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