Pesquisa revela que falha geológica na zona de subducção permitiu que terremoto de magnitude 9,1 deslocasse o fundo oceânico em até 70 metros ao longo de 500 quilômetros, intensificando ondas que devastaram 561 km² do território japonês
O terremoto de Tohoku, ocorrido em 2011 no leste do Japão, já é considerado um dos eventos sísmicos mais devastadores da história moderna. No entanto, novas evidências científicas indicam que o impacto pode ter sido ainda mais severo por causa de um fator oculto sob o oceano: uma espessa camada de argila extremamente escorregadia no fundo do mar. A informação foi divulgada por “Live Science”, com base em um estudo publicado na revista científica Science, que traz novas explicações para a magnitude do desastre.
Segundo a pesquisa, essa camada de argila, que chega a atingir até 98 pés (30 metros) de espessura no assoalho oceânico, teria criado um ponto estruturalmente frágil na zona de falha geológica. Como resultado, o terremoto de magnitude 9,1 conseguiu transferir seu movimento até o fundo do mar com uma intensidade incomum, favorecendo o deslocamento vertical da crosta oceânica.
Como a argila escorregadia ampliou o impacto do terremoto de magnitude 9,1
O mecanismo por trás da intensificação do tsunami está diretamente ligado à forma como o fundo do mar se moveu. De acordo com os pesquisadores, o deslocamento vertical da crosta oceânica variou entre 164 e 230 pés (50 a 70 metros) ao longo de aproximadamente 310 milhas (500 quilômetros). Esse empurrão abrupto do leito marinho contra a coluna d’água foi justamente o que originou a onda gigante que atingiu 217 milhas quadradas (561 quilômetros quadrados) do território japonês.
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Conforme explicou Ron Hackney, geofísico da Australian National University e diretor do Australian and New Zealand International Scientific Drilling Consortium, a argila possui baixa fricção, o que a torna mecanicamente fraca. “Ela pode deslizar com muita facilidade”, afirmou o especialista. Em outras palavras, essa composição geológica permitiu que a energia acumulada fosse liberada de forma mais concentrada.
Além disso, o estudo aponta que a ruptura lateral da falha foi cerca de metade do que os pesquisadores esperavam. Consequentemente, a energia que normalmente se espalharia horizontalmente acabou sendo direcionada para o movimento vertical. Esse fenômeno concentrou ainda mais o deslocamento do fundo oceânico em uma área reduzida, intensificando o tsunami de maneira inesperada.
Perfuração a 7.000 metros revela origem da fragilidade geológica
Para compreender com precisão o que ocorreu em 2011, Hackney e sua equipe realizaram uma missão científica em 2024 a bordo do navio de pesquisa Chikyu. Durante a expedição, os pesquisadores perfuraram 23.000 pés (7.000 metros) abaixo da superfície do oceano e mais 3.300 pés (1.000 metros) sob o leito marinho, alcançando diretamente a falha responsável pelo terremoto.
A partir dessa perfuração profunda, foram retirados núcleos de sedimentos tanto da falha quanto da Placa do Pacífico. Os resultados revelaram que a placa oceânica está recoberta por uma espessa camada de argila viscosa que se acumula lentamente há cerca de 130 milhões de anos. À medida que a Placa do Pacífico desliza sob o Japão, em uma zona de subducção, essa argila é comprimida, assim como as rochas continentais acima dela.
Esse processo cria um ponto mecanicamente frágil, comparado pelos pesquisadores a uma perfuração em uma folha de papel. Ou seja, trata-se de uma área naturalmente propensa à ruptura. Quando a tensão tectônica atinge níveis críticos, a falha se rompe com mais facilidade, favorecendo deslizamentos rasos e intensos.
O estudo, publicado em dezembro de 2025 na revista Science sob o título “Extreme plate boundary localization promotes shallow earthquake slip at the Japan Trench”, reúne pesquisadores como J. D. Kirkpatrick, H. M. Savage, C. Regalla, S. Shreedharan, C. Ross, H. Okuda, U. Nicholson, K. Ujiie, R. Hackney, M. Conin, P. Pei, S. Satolli, J. Zhang, P. Fulton, M. Ikari, S. Kodaira, L. Maeda, N. Okutsu, S. Toczko e N. Eguchi.
Outras regiões do mundo podem ter risco semelhante?
Embora os dados sejam robustos para o Japão, ainda existe incerteza sobre a presença de camadas semelhantes em outras zonas de subducção. Há indícios de que formações parecidas possam existir próximas a Sumatra, na Indonésia — região onde ocorreu o terremoto de magnitude 9,1 em 26 de dezembro de 2004, que também gerou um tsunami devastador.
Por outro lado, áreas como a Península de Kamchatka, onde grandes terremotos também são registrados, ainda carecem de estudos detalhados sobre os materiais geológicos que alimentam suas zonas de falha. Portanto, novas perfurações e análises serão fundamentais para compreender o comportamento dessas regiões.
Atualmente, os cientistas estão cada vez mais avançados na capacidade de prever a magnitude de um terremoto e mapear as áreas onde os tremores serão sentidos. Sistemas de alerta precoce já conseguem avisar a população com segundos ou minutos de antecedência antes que o tremor chegue. No caso dos tsunamis, o tempo de resposta é ainda maior.
Entretanto, aperfeiçoar o entendimento de como o fundo do mar se desloca durante grandes terremotos pode representar um salto ainda mais importante na proteção de vidas humanas. Afinal, quanto mais precisas forem as projeções sobre a direção e a intensidade de uma onda gigante, maiores serão as chances de evacuação eficiente e redução de danos.


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