Governo argentino formalizou a saída da Organização Mundial da Saúde em alinhamento com os Estados Unidos, concluindo processo iniciado um ano antes com a notificação à ONU, em decisão que não afeta relações com o Brasil, mas que expõe divergências crescentes sobre a atuação do organismo.
O governo argentino formalizou no dia 17 de março a saída do país da Organização Mundial da Saúde, concluindo processo iniciado um ano antes com a notificação oficial enviada à ONU, conforme os prazos previstos pelos acordos internacionais de desligamento do organismo.
A decisão segue o caminho adotado pelos Estados Unidos, que também optou por se afastar da OMS em um movimento que gerou debate global sobre o papel dos organismos multilaterais de saúde e a autonomia dos governos nacionais para definirem suas próprias políticas sanitárias.
A gestão do presidente Javier Milei justificou a saída com base em profundas divergências em relação à atuação da OMS, com ênfase nas críticas às recomendações adotadas durante a pandemia de Covid-19, quando o organismo enfrentou questionamentos de diferentes governos ao redor do mundo.
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O governo argentino defende que a saída da OMS fortalece a autonomia do país para definir suas próprias políticas de saúde pública, sem a necessidade de se submeter às orientações de um organismo multilateral cujas diretrizes, segundo Buenos Aires, nem sempre refletem as realidades locais.
Buenos Aires garantiu que continuará cumprindo as normas internacionais de saúde, como a notificação de surtos e emergências sanitárias à comunidade global, compromisso que busca sinalizar que o desligamento da OMS não representa uma ruptura total com os mecanismos de cooperação sanitária internacional.
A decisão argentina não altera as relações de saúde pública entre os dois países, já que o Brasil permanece como membro ativo da OMS e participante das decisões globais em saúde, marcando uma diferença de posicionamento entre as duas maiores economias da América do Sul.
Riscos e impactos da saída
Especialistas apontam que a saída da OMS pode reduzir o acesso da Argentina a programas de financiamento internacional, suporte técnico e fóruns globais de decisão em saúde, além de limitar a influência do país nas políticas sanitárias que afetam toda a América Latina.
A Organização Mundial da Saúde foi fundada em 1948 e é o principal organismo multilateral responsável por coordenar respostas a emergências sanitárias globais, desenvolver protocolos de vigilância epidemiológica, apoiar sistemas de saúde de países em desenvolvimento e promover acordos internacionais sobre saúde pública.
A saída da Argentina da OMS integra um movimento mais amplo de questionamento ao multilateralismo que tem ganhado força em diferentes partes do mundo, especialmente entre governos que defendem maior soberania nacional nas áreas de saúde, economia e segurança frente às decisões de organismos internacionais.
O presidente argentino Javier Milei assumiu o governo em dezembro de 2023 com um programa de reformas radicais que inclui a redução do Estado, cortes orçamentários profundos e um reposicionamento da política externa em direção a uma aliança mais próxima com os Estados Unidos.
Os Estados Unidos anunciaram sua saída da OMS no início de 2025, sob a administração de Donald Trump, em um movimento que gerou reações internacionais e levantou dúvidas sobre o financiamento e a liderança do organismo no cenário global de saúde pública.
Enquanto a Argentina e os Estados Unidos optam por se afastar da OMS, o Brasil mantém sua posição histórica de participação ativa nos organismos multilaterais de saúde, alinhamento que reflete uma visão diferente sobre o papel da cooperação internacional no enfrentamento de crises sanitárias globais.
Analistas do setor de saúde global alertam que a saída de grandes contribuintes da OMS representa um impacto relevante no financiamento do organismo, que depende das contribuições dos membros para manter programas de vacinação, vigilância epidemiológica e resposta a emergências sanitárias.
Na América Latina, a Argentina sempre exerceu um papel relevante nas discussões de saúde pública regional, participando ativamente de debates sobre vigilância epidemiológica, controle de endemias e resposta a surtos, papel que pode ser reduzido após o afastamento do principal foro multilateral da área.
O debate entre soberania nacional e cooperação multilateral em saúde tornou-se mais intenso após a pandemia de Covid-19, quando diferentes países questionaram a velocidade e a qualidade das respostas da OMS, abrindo espaço para críticas que agora embasam decisões políticas como as adotadas pela Argentina.
O processo de retirada de países membros da OMS representa um teste para a resiliência do sistema multilateral de saúde construído ao longo do século passado, cuja efetividade depende da participação e do financiamento conjunto das nações para funcionar de forma coordenada em escala global.
