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Arábia Saudita bombeia milhões de toneladas de água por 14.000 km e até 3.000 m de altitude, usando dessalinização que consome 20% da energia nacional para manter cidades vivas no deserto

Escrito por Carla Teles
Publicado em 08/12/2025 às 16:48
Assista o vídeoArábia Saudita bombeia milhões de toneladas de água por 14.000 km e até 3.000 m de altitude, usando dessalinização que consome 20% da energia nacional para manter cidades
Arábia Saudita aposta em dessalinização extrema para bombear água por 14.000 km e 3.000 m de altitude e manter cidades vivas no deserto
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A dessalinização virou a linha de vida da Arábia Saudita, transformando água do mar em água potável e mantendo vivas cidades inteiras em plena areia, à custa de um consumo de energia gigantesco e de um sistema que não pode falhar.

A Arábia Saudita é um lugar onde a natureza nunca quis um rio. Antes do petróleo, a vida dependia de pequenos oásis e de aquíferos antigos que levavam milhares de anos para se formar. Hoje, é a dessalinização que sustenta metrópoles como Riade e Jedá, empurrando água por montanhas e planaltos em uma escala que parece impossível.

Ao mesmo tempo, o país tenta corrigir erros do passado. O uso intensivo da água subterrânea para plantar trigo no meio do deserto esvaziou reservas não renováveis e deixou cicatrizes profundas no solo. Agora, a Arábia Saudita depende da dessalinização e de um sistema de dutos gigantes para continuar crescendo, enquanto corre contra o tempo para tornar esse modelo menos caro e menos agressivo para o meio ambiente.

Quando o deserto virou campo de trigo e a água desapareceu

Antes de a dessalinização dominar a cena, a principal fonte de água da Arábia Saudita eram os aquíferos fósseis, camadas de água subterrânea acumuladas desde o fim da última era glacial. Essa água era não renovável, um cofre hídrico que levou dezenas de milhares de anos para se encher.

Nas décadas de 1970 e 1980, embalado pelo boom do petróleo, o governo decidiu buscar autossuficiência alimentar. No meio do deserto, apostou em algo radical, plantar trigo em larga escala, usando milhares de bombas de alta capacidade para sugar água do subsolo.

A estratégia funcionou em termos produtivos. A Arábia Saudita chegou a se tornar o sexto maior exportador de trigo do mundo, algo impressionante para um país quase sem rios.

Só que o preço foi alto. Hidrólogos estimam que cerca de quatro quintos das reservas subterrâneas preciosas foram drenadas principalmente para a agricultura, deixando a região mais vulnerável.

À medida que os aquíferos se esvaziavam, dolinas começaram a surgir no deserto, engolindo trechos de solo e até equipamentos agrícolas. A terra se tornava mais árida, os poços secavam, e o modelo mostrava seu limite.

Até 2016, a situação era tão crítica que o governo teve de suspender o cultivo de trigo. Mas a demanda por água não parou de crescer. A população aumentava, cidades como Riade e Jedá se expandiam, e a água subterrânea já não era suficiente para sustentar esse avanço. A única saída era olhar para o oceano e apostar de vez na dessalinização.

Dessalinização em escala industrial: usinas que funcionam como bases militares

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Se destilar água parece simples em teoria, a realidade dos complexos sauditas mostra outra história. Em locais como Ras Al Khair e Jubail, enormes parques industriais são dedicados a uma única missão, transformar água do mar em água potável que possa ser enviada para centenas de quilômetros de distância.

Hoje, a Arábia Saudita é líder global em dessalinização, respondendo por uma fatia significativa da água dessalinizada no mundo. Usinas como Ras Al Khair são verdadeiros monstros tecnológicos, combinando sistemas térmicos e membranas filtrantes em escala colossal.

Só essa planta consome aço suficiente para erguer dezenas de arranha-céus e é protegida com rigor quase militar, já que qualquer interrupção ameaça diretamente o abastecimento de milhões de pessoas em Riade.

Durante décadas, o método dominante foi a destilação em múltiplos estágios. A água do mar é aquecida em caldeiras pressurizadas, evapora, deixa o sal para trás e depois é condensada como água doce. É eficiente em termos de qualidade, mas consome quantidades imensas de energia.

Por isso, nos últimos anos, o país acelerou a adoção da dessalinização por osmose reversa, mais eficiente em consumo elétrico. Nesse processo, a água do mar é forçada a atravessar uma membrana com poros tão pequenos que apenas moléculas de água passam, enquanto sal e impurezas ficam retidos.

Para isso funcionar, são necessárias bombas que geram pressões que podem chegar a dezenas de bar, similares às de grandes profundidades oceânicas. As membranas precisam resistir à corrosão da água salgada e ao esforço mecânico contínuo. Se a pressão cai, a dessalinização perde eficiência, se sobe demais, a membrana pode se romper. É um equilíbrio delicado que exige controle constante.

Mesmo com tanta tecnologia, os pontos fracos são curiosos. Em certas épocas do ano, enxames de águas-vivas podem ser sugados pela entrada de água do mar, bloqueando filtros e obrigando algumas usinas a pararem emergencialmente. Nesses momentos, uma espécie marinha gelatinosa vira ameaça direta ao abastecimento de uma cidade inteira.

Como a água dessalinizada vence 14.000 km de dutos e 3.000 m de altitude

Produzir água por dessalinização é só metade da batalha. A outra metade é levar essa água das usinas costeiras até cidades que ficam centenas de quilômetros no interior, muitas vezes em grandes altitudes.

Riade é o melhor exemplo. A capital saudita fica a cerca de 400 km do mar, sobre um planalto rochoso. Para que a água de dessalinização chegue até lá, o país construiu um sistema de dutos gigantes. Hoje, o comprimento total das tubulações já passa de 14.000 km, mais do que o diâmetro da Terra, conectando litoral, planaltos e grandes centros urbanos.

O maior desafio, porém, não é apenas a distância, é a altitude. Na rota que leva água do Mar Vermelho até cidades como Taif e Meca, os dutos precisam vencer desníveis de 2.000 a 3.000 metros ao cruzar a cadeia de montanhas de Sarawat. Em vez de a água descer naturalmente, ela precisa subir encostas íngremes, empurrada por estações de bombeamento de altíssima potência.

Essas estações são distribuídas ao longo das encostas e precisam operar em sincronia perfeita. Se uma delas parar de repente, o fenômeno conhecido como golpe de aríete, uma onda de choque de pressão, pode retornar pela tubulação e romper trechos inteiros de duto.

A física é simples e implacável. Um metro cúbico de água pesa uma tonelada. Empurrar milhões de toneladas para cima, todos os dias, exige energia, controle e equipamentos robustos. Qualquer rompimento significa, além de perda de água, danos enormes à infraestrutura ao redor.

Para reduzir riscos, todo o sistema é fechado. Canais abertos seriam inviáveis no deserto saudita. Sob temperaturas que chegam a cerca de 50 °C, a água exposta evaporaria rapidamente antes de chegar ao destino. Além disso, estaria sujeita a contaminação, areia e perdas constantes.

Por isso, os dutos são feitos de aço revestido com cimento, recebem camadas de epóxi para reduzir corrosão e são protegidos com tecnologia de proteção catódica. Robôs internos, conhecidos como Smart Pigs, percorrem o interior dessas tubulações usando ultrassom para localizar fissuras antes que se transformem em vazamentos, garantindo que praticamente nada se perca pelo caminho.

Riade, reservas estratégicas e o medo de um apagão hídrico

Riade, com cerca de 7 milhões de habitantes, depende quase totalmente desse sistema de dessalinização e bombeamento. Se o fluxo para, a reserva nas caixas d’água e nos reservatórios dura pouco. Estimativas indicam que uma interrupção de três dias já seria suficiente para acender o alerta máximo de crise hídrica.

Por isso, a segurança hídrica é tratada como questão estratégica. Em Jedá, foi construído um sistema de reservas subterrâneas gigantes, considerado um dos maiores do mundo. São reservatórios capazes de armazenar milhões de metros cúbicos de água potável, o bastante para manter a cidade por cerca de sete dias em caso de emergência.

Esses estoques funcionam como um “colchão de segurança” contra falhas técnicas, eventos climáticos extremos, ataques cibernéticos ou problemas energéticos. No contexto saudita, a dessalinização não é só tecnologia, é infraestrutura crítica, guardada com o mesmo cuidado que instalações de energia ou petróleo.

Energia cara, água cara: o paradoxo da dessalinização

Por trás de toda a dessalinização existe uma pergunta inevitável: quem paga a conta de energia para movimentar esse sistema gigantesco?

Na prática, a maior parte dessa energia ainda vem de combustíveis fósseis. A Arábia Saudita vive um ciclo fechado, no qual:
exporta petróleo para fortalecer a economia, usa parte desse dinheiro para construir usinas de água, depois queima o próprio petróleo para gerar a eletricidade que sustenta a dessalinização e o bombeamento.

Relatórios mostram que uma fatia enorme do consumo de energia interno do país está ligada ao setor de água. Estimativas indicam que a indústria de dessalinização pode consumir entre 15% e 20% de toda a produção elétrica nacional, um valor altíssimo para um único setor.

Isso cria um paradoxo econômico e estratégico. O país queima seu principal produto de exportação para produzir um bem básico. Se o preço da energia sobe, o custo da água dispara. Se a oferta de combustível cai, o sistema hídrico inteiro fica vulnerável.

No fim, cada metro cúbico de água potável consumido em Riade carrega, invisivelmente, uma “pegada” de petróleo e gás. Se esse custo fosse repassado integralmente ao consumidor, a água poderia se tornar mais cara que a gasolina.

Salmoura, corais mortos e o impacto silencioso no mar

Além da energia, a dessalinização gera outro problema difícil de ignorar, o rejeito salino. Para cada litro de água doce produzido, as usinas devolvem ao mar cerca de 1,5 litro de salmoura, uma água:

mais salina que o normal, mais quente, com resíduos de produtos químicos usados no tratamento.

Por ser mais densa, essa salmoura tende a afundar e formar camadas no fundo do mar, criando zonas pobres em oxigênio. Nessas áreas, corais e pequenos organismos marinhos têm dificuldade de sobreviver. Em alguns pontos próximos às saídas de efluente, mergulhadores relatam verdadeiros desertos submarinos, sem vida visível.

No Golfo Pérsico, que já é naturalmente raso e quente, esse acúmulo preocupa cientistas. À medida que a salinidade aumenta, o próprio processo de dessalinização fica mais difícil. A água mais salgada exige pressões mais altas nas membranas de osmose reversa, aumenta o desgaste dos equipamentos e eleva os custos. É um ciclo vicioso onde mais dessalinização piora as condições para a dessalinização futura.

Para enfrentar isso, pesquisadores estudam formas de aproveitar a salmoura em vez de simplesmente devolvê-la ao mar. Uma das frentes é a extração de minerais valiosos, como lítio e magnésio. Se essa tecnologia se tornar viável em grande escala, a Arábia Saudita poderá transformar parte do problema em fonte de receita. Mas, por enquanto, mineração da salmoura ainda é uma promessa, não uma solução consolidada.

Visão 2030, energia solar e ideias ousadas para o futuro da água

A Arábia Saudita sabe que não pode depender para sempre da combinação petróleo mais dessalinização intensiva. Por isso, dentro do plano Visão 2030, o país vem anunciando uma guinada em direção a energias renováveis e tecnologias mais sustentáveis.

Um dos caminhos é a dessalinização movida à energia solar, com projetos em grande escala ligados a iniciativas como Neom. A ideia é usar a abundância de sol do deserto para reduzir o peso dos combustíveis fósseis na produção de água.

A cidade linear The Line, por exemplo, é apresentada como um laboratório urbano que pretende funcionar com água reciclada, dessalinização mais eficiente e energia 100% renovável. Se essas promessas vão se confirmar na prática ainda é uma incógnita, mas mostram a direção que o país diz querer seguir.

Entre as ideias mais ousadas está a chamada cúpula solar. Nesse conceito, centenas de espelhos concentrariam a luz do sol em uma enorme cúpula de vidro, aquecendo a água do mar a temperaturas elevadíssimas para gerar vapor sem queimar combustível. O vapor, então, seria condensado em água doce. Se for viável em larga escala, pode ser um divisor de águas, com uma dessalinização muito menos dependente de petróleo.

Além da energia, o país fala em plantar bilhões de árvores na iniciativa verde saudita, usando água de esgoto tratada e até técnicas de indução de chuva artificial. Aviões e geradores terrestres liberam partículas nas nuvens para tentar aumentar a precipitação. Embora haja controvérsias sobre a eficácia e os impactos regionais, a Arábia Saudita segue investindo pesado nessa tecnologia.

E, ao longo da história recente, até ideias quase cinematográficas foram consideradas, como rebocar imensos icebergs da Antártida até o Golfo Pérsico para derreter e obter água doce. Os riscos logísticos e climáticos enterraram o plano, mas ele mostra o nível de urgência que o tema água tem no país.

Dessalinização: solução definitiva ou aposta arriscada?

A trajetória da Arábia Saudita é um exemplo extremo da capacidade humana de remodelar o ambiente para sobreviver. Em um território praticamente sem rios, o país construiu um sistema de dessalinização e dutos que bombeia milhões de toneladas de água por 14.000 km e até 3.000 m de altitude, mantendo vivas cidades inteiras no meio do deserto.

Ao mesmo tempo, esse modelo traz riscos e dilemas:
consome uma fatia enorme da energia nacional, depende de combustíveis fósseis, pressiona o ambiente marinho com salmoura concentrada, exige um sistema que simplesmente não pode parar.

Em resumo, a dessalinização é ao mesmo tempo uma obra-prima de engenharia e uma aposta de alto risco em um mundo que já sente os efeitos da crise climática e da escassez hídrica.

E você, olhando para essa combinação de tecnologia, custo e impacto ambiental, como enxerga a estratégia de dessalinização da Arábia Saudita, mais como um avanço extraordinário para sobreviver no deserto ou como uma aposta arriscada que pode cobrar um preço alto no futuro?

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Bezalel
Bezalel
10/12/2025 13:22

Porque os povos não se unem e abandonam essas regiões áridas e vão habitar regiões mais apropriadas ao invés de gastar bilhões de toneladas de matérias para transportar e dessanilizar água de mar? Como o ser humano é “desumano” e egoísta, né?????

Jubileu
Jubileu
Em resposta a  Bezalel
11/12/2025 11:54

Só observar a Europa hoje com os milhões de refugiados,árabes não sabem conviver com ninguém querem dominar pela força e fé

Nildo Mendonça de Figueiredo
Nildo Mendonça de Figueiredo
09/12/2025 13:20

Vamos vender água do rio Amazonas para os árabes, eles mandam pegar aqui em grandes navios. Resolvido o problema, água em troca de petróleo.

Mushfiq Us Salehin
Mushfiq Us Salehin
09/12/2025 04:45

This is a truly fascinating and insightful look into Saudi Arabia’s massive efforts to secure water for its growing cities. The scale of desalination and the engineering behind transporting water across mountains is absolutely impressive.

For those in Mecca who need practical solutions for local water access—especially for mosques—there are modern services that make the process much easier. Platforms like Qatarat provide reliable water delivery and are widely used across the region. If anyone needs water delivery to Mecca mosques, you can explore their service here:
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Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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