Megaprojeto ferroviário atravessa o deserto saudita com escavação gigantesca, engenharia adaptada a calor extremo e infraestrutura criada para conectar cidades sagradas do Islã em alta velocidade, reduzindo tempo de viagem e reorganizando o fluxo de milhões de peregrinos que circulam anualmente entre Meca, Medina e Jeddah.
A Arábia Saudita consolidou no oeste do país uma das obras ferroviárias mais complexas de sua infraestrutura recente ao colocar em operação a Haramain High Speed Railway, ligação entre Meca e Medina que exigiu a remoção de cerca de 150 milhões de metros cúbicos de areia e rochas, além da construção de 130 pontes e 850 canais de drenagem ao longo do traçado.
A linha atende cinco estações, alcança velocidade comercial de até 300 km/h e conecta também Jeddah, o aeroporto internacional da cidade e a King Abdullah Economic City.
Mais do que encurtar uma viagem entre duas das cidades mais importantes do mundo islâmico, o projeto reorganizou a circulação de passageiros em uma faixa territorial sujeita a calor extremo, poeira constante, areia móvel e picos sazonais de demanda ligados ao Hajj e à Umrah.
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A rota é descrita por fontes oficiais e setoriais como um corredor de cerca de 450 quilômetros, ou 453 quilômetros em medições técnicas mais detalhadas.
O trajeto completo pode ser percorrido em aproximadamente duas horas e 20 minutos.
Engenharia para abrir caminho no deserto

A fase mais pesada ocorreu antes da instalação dos trilhos, quando as frentes de terraplenagem precisaram estabilizar um corredor que atravessa uma das geografias mais severas da Península Arábica.
Na apresentação do empreendimento, reportagens sobre o projeto registraram que o pacote inicial de obras civis foi executado em três etapas e começou justamente com a retirada maciça de material, a implantação das pontes e a abertura dos canais de drenagem que tornaram o percurso viável.
Esse volume de intervenção ajuda a explicar por que a linha passou a ser tratada como referência fora do setor ferroviário, já que o desafio não estava apenas em unir cidades estratégicas, mas em impedir que o deserto retomasse o espaço aberto para a ferrovia.
Relatos técnicos indicam que cerca de 20 quilômetros do traçado estão sujeitos ao avanço de dunas, com deslocamento estimado de até 30 metros por ano.
Outros 197 quilômetros da ferrovia permanecem expostos ao transporte de areia provocado pelos ventos do deserto.
Em cenário desse tipo, a areia não afeta apenas a paisagem, porque reduz a visibilidade operacional, acelera o desgaste de componentes e compromete a interface entre roda e trilho.
Também amplia a pressão sobre a manutenção da infraestrutura ferroviária.
Por isso, a própria engenharia da linha incorporou soluções voltadas ao controle contínuo do ambiente, com trechos preparados para limitar a infiltração de areia e facilitar a limpeza da via.
Tecnologia ferroviária adaptada ao calor extremo
Parte da resposta técnica incluiu muros de contenção, valas de proteção e segmentos com slab track.
Nesse sistema, a via férrea é assentada sobre uma laje de concreto em vez do lastro tradicional de pedras.

A escolha foi adotada justamente para reduzir a entrada de areia na estrutura ferroviária e tornar mais eficiente a remoção do material levado pelo vento.
Mesmo após a conclusão das obras, o deserto continua atuando diretamente sobre a infraestrutura.
A presença constante de areia exige limpeza frequente da via e monitoramento permanente das áreas mais expostas do corredor ferroviário.
Trens projetados para suportar areia e temperaturas de até 50 °C
A adaptação não ficou restrita ao traçado, porque os trens também precisaram ser configurados para operar de forma estável em um ambiente extremo e abrasivo.
Relatos técnicos sobre o projeto indicam resistência térmica certificada para temperaturas externas de até 50 °C.
As composições também contam com pressurização positiva, filtros de ar reforçados e vedação adicional contra poeira.
Dispositivos posicionados próximos às rodas ajudam a afastar areia da zona de contato entre roda e trilho, reduzindo interferências no funcionamento da ferrovia.
Essa combinação transformou o Haramain em um caso emblemático de tecnologia ferroviária aplicada ao deserto.
Além da velocidade, o sistema precisou conciliar alta performance com operação contínua em condições ambientais adversas.
Ligação estratégica entre Meca, Medina e Jeddah
No desenho de transporte saudita, a linha foi concebida como um serviço dedicado ao transporte de passageiros e como eixo estruturante da mobilidade no oeste do país.
A operação conecta cinco estações: Makkah, Al‑Sulimaniyah em Jeddah, Airport‑Jeddah, King Abdullah Economic City e Madinah.
Essa estrutura integra deslocamentos religiosos, conexões urbanas e acesso direto ao principal aeroporto internacional da região.
O projeto ganhou peso estratégico porque atende tanto o fluxo cotidiano de passageiros quanto os picos concentrados de viagens durante períodos de peregrinação.
A ferrovia opera com 35 trens de alta velocidade, cada um formado por 13 carros e cerca de 417 assentos.
A infraestrutura foi dimensionada para transportar até 60 milhões de passageiros por ano.
Operação ferroviária precisa conviver diariamente com o deserto
Mesmo depois da inauguração oficial em 25 de setembro de 2018 e da abertura ao público em 11 de outubro de 2018, o ambiente desértico continuou no centro da rotina operacional da ferrovia.
Equipes de operação e manutenção utilizam simulações para antecipar o movimento das dunas e reduzir o impacto da areia sobre a regularidade do serviço.
A grande terraplenagem realizada durante a construção abriu o corredor ferroviário, mas o avanço da areia continua exigindo respostas técnicas constantes.
Essa convivência permanente com a paisagem é justamente o que diferencia o projeto saudita de outras ferrovias de alta velocidade pelo mundo.
A linha reúne escavação maciça, drenagem em larga escala, pontes, eletrificação e trens adaptados ao deserto, transformando a ligação entre cidades sagradas em um dos exemplos mais complexos de engenharia ferroviária em ambiente extremo.


Quando se tem dinheiro e não tem corrupção tudo é possível.
Houve uma limpa a poucos anos, com envolvimento de elementos do alto escalão saudita, e também de componentes da família real. E hoje, dada as restrições a liberdade de imprensa não se sabe o que realmente acontece por lá.