DoorDash Tasks paga entregadores para filmar tarefas domésticas, como lavar louça e dobrar roupas, e usa os vídeos para treinar IA, robôs humanoides e sistemas de automação.
Segundo a TechCrunch, a DoorDash anunciou em 19 de março de 2026 o lançamento do DoorDash Tasks, um aplicativo autônomo que permite que os 8 milhões de entregadores americanos da plataforma ganhem dinheiro filmando tarefas cotidianas, como dobrar roupas, lavar louça à mão e arrumar a cama. O pagamento é exibido antes de cada tarefa e varia conforme a complexidade.
Tarefas mais difíceis, como podar e replantar plantas, pagam mais do que atividades simples. O Washington Post reportou que trabalhadores podem ganhar até US$ 25 por hora com as tarefas disponíveis, criando uma nova forma de trabalho sob demanda ligada à coleta de dados para inteligência artificial.
Os dados coletados serão usados para treinar modelos de IA e robótica da própria DoorDash e de parceiros nos setores de varejo, seguros, hotelaria e tecnologia. Entre os potenciais interessados estão fabricantes de robôs humanoides como Tesla, Figure AI e Agility Robotics.
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DoorDash Tasks transforma tarefas domésticas em dados para inteligência artificial e robótica
Uma das tarefas documentadas pela Bloomberg pede que o trabalhador use uma câmera apontada para as mãos enquanto esfrega pelo menos cinco pratos. Cada prato limpo deve ser segurado diante da lente por alguns segundos antes de o trabalhador continuar a gravação.
O app foi lançado em todos os Estados Unidos, exceto Califórnia, Nova York, Seattle e Colorado, regiões com regras mais rígidas sobre privacidade de dados e direitos de trabalhadores de plataformas. Essa exclusão é um dos detalhes mais reveladores do lançamento.
A DoorDash está transformando entregadores em coletores de dados do mundo físico, usando tarefas domésticas reais para alimentar sistemas de IA que precisam aprender como humanos manipulam objetos, limpam superfícies, dobram tecidos e organizam ambientes.
Robôs precisam ver humanos lavando louça porque não existe internet para dados físicos
O problema central que o DoorDash Tasks tenta resolver não é de hardware, mas de dados. Chatbots como o ChatGPT aprenderam com trilhões de palavras disponíveis na internet, mas robôs que precisam manipular objetos físicos não têm um equivalente tão amplo e acessível.
“Não há internet para dados de robótica”, disse Ken Goldberg, roboticista da UC Berkeley, ao Washington Post. Um robô que dobra uma camisa precisa aprender força, ângulo, textura, reação do tecido e correção de erros em situações reais.
Simulações computacionais ainda não reproduzem com precisão suficiente a variabilidade de cozinhas, roupas, pratos, plantas e objetos domésticos. Por isso, vídeos gravados por trabalhadores em casas reais podem valer mais do que dados limpos, caros e controlados de laboratório.
Vídeos de trabalhadores são mais baratos que teleoperação robótica especializada
O pesquisador Simar Kareer, da Georgia Tech, explicou que dados de teleoperação robótica costumam ter qualidade maior porque incluem comandos reais de movimento do robô. O problema é que esse tipo de coleta exige equipamentos caros, operadores treinados e muito tempo.
Filmar humanos realizando tarefas domésticas é mais barato, mais rápido e mais escalável. Pagar trabalhadores para registrar movimentos com celulares, câmeras na cabeça ou suportes corporais cria um volume de dados que laboratórios de robótica dificilmente conseguiriam produzir sozinhos.
Segundo estimativas citadas pelo Washington Post, uma hora de vídeo humano fazendo tarefas pode custar menos de US$ 5, enquanto dados de teleoperação robótica podem passar de US$ 100 por hora. Essa diferença de custo explica por que empresas de IA estão recorrendo a gig workers.
DoorDash usa 8 milhões de Dashers como rede de sensores do mundo físico
A lógica do DoorDash Tasks vai além de vender dados de robótica. A empresa passou mais de uma década construindo uma infraestrutura capaz de acionar trabalhadores em locais específicos, confirmar tarefas e processar pagamentos em grande escala.
Ethan Beatty, gerente geral do DoorDash Tasks, afirmou que há mais de 8 milhões de Dashers capazes de chegar a quase qualquer lugar dos Estados Unidos e interessados em ganhar de forma flexível além das entregas. Para ele, essa é uma capacidade poderosa para digitalizar o mundo físico.
Essa rede humana é difícil de replicar. Nenhuma empresa tradicional de dados consegue montar rapidamente uma base de milhões de pessoas distribuídas pelo país, disponíveis para filmar tarefas, verificar eventos locais ou atuar como apoio físico para sistemas automatizados.
Privacidade dos dados domésticos ainda é a maior dúvida do DoorDash Tasks
O lançamento não respondeu publicamente a perguntas centrais sobre consentimento, retenção e uso dos dados. Não está claro por quanto tempo as gravações serão armazenadas, quais direitos os trabalhadores terão sobre imagens das próprias casas e quem exatamente receberá os vídeos.
Reportagens do The Next Web e do IBTimes apontaram essas omissões como relevantes. Em um programa que incentiva trabalhadores a levar câmeras para cozinhas, quartos, lavanderias e áreas privadas, a ausência de detalhes não é um ponto menor.

A questão não é apenas trabalhista, mas também doméstica e familiar. Vídeos feitos dentro de residências podem capturar objetos pessoais, vozes, rostos, rotinas e informações sensíveis que vão além da tarefa contratada.
Quanto vale um humano lavando louça para treinar robôs
O valor de mercado desses dados ajuda a explicar a corrida. Dados humanos em vídeo são baratos, abundantes e capturam variações reais de ambiente, iluminação, objetos, postura, ritmo e improviso.
Para a robótica, isso é decisivo. Um robô doméstico não precisa apenas saber que um prato está sujo; ele precisa entender como uma mão segura o prato, qual força aplica, como muda o movimento quando há espuma, gordura ou água escorrendo.
A aposta do DoorDash Tasks é matemática: pagar até US$ 25 por hora para humanos filmarem tarefas pode gerar dados suficientes para substituir parte dos dados robóticos muito mais caros, especialmente quando combinados com conjuntos menores de teleoperação especializada.
DoorDash Tasks expõe o paradoxo dos trabalhadores treinando a automação que pode substituí-los
A ironia estrutural do DoorDash Tasks é que trabalhadores vulneráveis à automação estão sendo recrutados para construir parte dessa automação. Um entregador pode ganhar dinheiro extra filmando tarefas domésticas e, ao mesmo tempo, alimentar modelos que futuramente podem reduzir a demanda por trabalho humano.
O processo envolve duas frentes: treinar robôs domésticos para realizar atividades como lavar louça, dobrar roupas e arrumar camas, e apoiar sistemas automatizados de entrega, varejo, hotelaria e mobilidade.
O professor Antonio Casilli, do Institut Polytechnique de Paris, resumiu o risco ao dizer que o perigo não é apenas robôs tomarem empregos humanos, mas humanos terem de trabalhar para os robôs. Por enquanto, a tarefa paga até US$ 25 por hora. A questão é por quanto tempo esse equilíbrio vai durar.
O novo trabalho digital saiu da tela e entrou na cozinha dos trabalhadores
O DoorDash Tasks mostra uma mudança importante no mercado de dados para inteligência artificial. A primeira fase da IA consumiu textos, imagens e vídeos disponíveis na internet; a próxima exige movimentos humanos em ambientes físicos reais.
Lavar louça, dobrar roupa, fechar porta de robotaxi e arrumar cama parecem atividades banais, mas viraram matéria-prima para modelos de IA e robôs humanoides. O corpo humano, filmado em tarefas comuns, passou a ser uma fonte valiosa de treinamento para máquinas.
A pergunta agora não é apenas quanto essas tarefas pagam, mas quem controla os dados, quem lucra com os modelos treinados e quais trabalhadores serão beneficiados ou substituídos quando a automação aprender exatamente aquilo que eles foram pagos para ensinar.


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