Inglaterra investe £28 milhões e libera 180 ha para o mar reconstruir salinas e pântanos que reduzem ondas, enchentes e protegem vilarejos costeiros do clima extremo.
Pouca gente imagina que uma das soluções mais ousadas contra o avanço do mar na Europa não envolve muros maiores ou concreto armado, mas sim o contrário: abrir espaço para que o oceano volte a entrar em terra firme. Foi exatamente o que a Inglaterra fez no projeto conhecido como Medmerry Managed Realignment, no condado de West Sussex, ao recuar defesas costeiras, permitir a inundação controlada de áreas agrícolas e criar um escudo natural formado por salinas, lamaçais e pântanos marítimos. O objetivo era simples e ambicioso: adaptar cidades e vilarejos à elevação do nível do mar, reduzir riscos de enchentes e recriar ecossistemas intertidais que praticamente desapareceram ao longo do século XX.
O projeto custou cerca de £28 milhões e hoje é considerado o maior realinhamento costeiro de costa aberta da Europa, segundo o Institution of Civil Engineers do Reino Unido. Mais que engenharia, ele tornou-se um laboratório de adaptação climática baseado na natureza, mostrando que em alguns lugares o oceano precisa avançar para que as pessoas possam permanecer.
Como o mar voltou a entrar e virar proteção natural
Por décadas, a costa sul inglesa foi defendida por diques e barreiras costeiras que tentavam conter a erosão e impedir que tempestades alcançassem comunidades como Selsey. Essas barreiras sofriam desgaste constante e exigiam manutenção cara.
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A cada inverno mais agressivo, a combinação de mar agitado e marés altas exigia reforços emergenciais. Era um jogo de contenção com prazo de validade.
No início dos anos 2000, a discussão técnica mudou. Com a elevação do nível do mar registrada na região e a intensificação das tempestades, engenheiros e ecologistas concluíram que insistir em muros e diques rígidos agravaria o chamado coastal squeeze, um fenômeno em que habitats costeiros são esmagados entre o mar em ascensão e barreiras artificiais.
Em vez disso, optou-se por recuar a defesa costeira, abrir novas áreas para inundação intertidal e deixar que processos naturais reconstruíssem uma zona de amortecimento entre o mar e as comunidades humanas.
Para isso, foi construído um novo dique mais interno, em posição segura, e o dique antigo foi parcialmente removido. O mar, então, preencheu a área entre as duas linhas de defesa, transformando cerca de 183 hectares em wetlands intertidais compostas por salinas, lamaçais e canais sinuosos que se formaram ao longo dos meses seguintes. É esse mosaico natural que hoje absorve a energia das ondas, dissipa tempestades, diminui a erosão e reduz drasticamente os riscos de alagamento na zona habitada.
A lógica técnica por trás do realinhamento costeiro
O conceito aplicado em Medmerry se chama managed realignment, ou realinhamento costeiro gerido. Ao contrário das grandes obras de dragagem e aterro do passado, essa abordagem trabalha com processos naturais. O mar não é combatido, mas guiado.
Essa estratégia envolve três pilares principais. O primeiro é reposicionar as defesas costeiras, criando espaço para zonas intertidais. O segundo é permitir a entrada controlada do mar para formar salinas e pântanos salobros, que agem como amortecedores naturais. O terceiro é monitorar o território para garantir estabilidade sedimentar, qualidade da água e segurança das comunidades próximas.
Essa engenharia ecológica se beneficia de características físicas próprias dos pântanos salinos. A vegetação, adaptada ao ambiente salino, reduz a velocidade da água, captura sedimentos e reforça o solo. Isso faz com que a energia das ondas diminua gradualmente antes de alcançar os diques internos. Quanto maior a largura do pântano, maior a dissipação da energia.
O retorno da vida e a nova infraestrutura natural
Uma das consequências mais visíveis do projeto foi o retorno da vida selvagem. Antes da intervenção, a área era dominada por agricultura e diques rígidos, com pouca diversidade ecológica.
Poucos meses após a abertura, aves migratórias, peixes juvenis, crustáceos e plantas especializadas em salinas passaram a colonizar o ambiente. Hoje, Medmerry é também uma reserva administrada pela Royal Society for the Protection of Birds, atraindo observadores do Reino Unido inteiro.
A restauração dos habitats trouxe outros benefícios. Lamaçais e salinas funcionam como sumidouros de carbono, retendo material orgânico no sedimento. Também servem de berçário para espécies marinhas que dependem de águas rasas e protegidas. A trilha reversa, que antes era dominada por tratores e produção agrícola, agora é cruzada por pesquisadores com binóculos e câmeras.
Impactos socioeconômicos e segurança hídrica
O realinhamento costeiro não foi apenas uma resposta ecológica; foi também uma solução econômica e social. As antigas defesas costeiras exigiam manutenção constante, com custos crescentes ano após ano. Ao recuar os diques, o governo reduziu gastos com reforços emergenciais, ganhou uma barreira natural de longo prazo e ainda criou um atrativo turístico.
Com a estabilização das defesas internas, comunidades adjacentes ficam protegidas das tempestades que antes exigiam alertas frequentes.
O novo dique interno foi projetado para resistir a eventos que, estatisticamente, ocorreriam apenas uma vez a cada século, aumentando a segurança de moradias e infraestruturas críticas. A própria lógica do projeto inverte uma ideia histórica: o mar deixou de ser visto como ameaça inevitável e passou a ser incorporado à estratégia de proteção.
Uma referência para o futuro costeiro da Europa
Medmerry se tornou emblemático porque foi o primeiro projeto de grande escala a transformar uma política de adaptação climática em obra concreta. Não se tratou de um exercício teórico, mas de engenharia aplicada para resolver um problema real: como viver com o aumento do nível do mar sem erguer muralhas infinitas.
Por isso o projeto é estudado por engenheiros costeiros da Holanda, Alemanha e Dinamarca, países que também enfrentam desafios semelhantes.
Enquanto muitas cidades ainda discutem o que fazer, Medmerry já acumula uma década de dados sobre sedimentação, fauna, segurança e aceitação pública. É um caso vivo de como cidades podem coexistir com o oceano em vez de enfrentá-lo frontalmente.
O futuro das zonas costeiras europeias tende a depender cada vez mais dessas soluções híbridas de engenharia e natureza. A questão não é se o mar vai avançar, mas o que as comunidades farão quando ele o fizer.
Medmerry aponta uma direção pragmática: abrir espaço para que os processos naturais façam o que defendem melhor do que qualquer muro, enquanto pessoas e infraestrutura permanecem em segurança.
Em uma era de tempestades mais violentas e mares mais altos, pode ser que os pântanos salinos, as salinas e os lamaçais se tornem as estruturas de defesa mais valiosas do continente. E, ironicamente, tudo começou quando os engenheiros decidiram parar de lutar contra o mar e resolveram convidá-lo a entrar.

