Experiência acumulada voltou a ganhar espaço na Ford depois que sistemas automatizados não entregaram o resultado esperado em tarefas críticas de qualidade. Com apoio de engenheiros veteranos, a montadora tenta combinar inteligência artificial, revisão humana e conhecimento técnico para reduzir falhas, recalls e custos nos Estados Unidos.
A Ford Motor Co. recorreu a cerca de 350 engenheiros veteranos para enfrentar falhas de qualidade que seus sistemas automatizados e ferramentas de inteligência artificial não conseguiram resolver sozinhos nos Estados Unidos.
Adotada ao longo dos últimos três anos, a iniciativa colocou profissionais experientes no centro das revisões técnicas, do treinamento de equipes mais jovens e do aperfeiçoamento de sistemas usados para antecipar defeitos em veículos.
A mudança ocorre em meio a um contraste importante para a montadora, que passou a liderar entre as marcas de massa no estudo de qualidade inicial da JD Power de 2026, divulgado em junho.
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Ainda assim, a Ford continua pressionada por recalls nos Estados Unidos e por custos ligados a garantias, materiais e correções de veículos já vendidos, um dos principais pontos de atenção da companhia.
Segundo a Bloomberg, esses profissionais são chamados internamente de engenheiros de “barba grisalha”, expressão usada para identificar especialistas com longa experiência em desenvolvimento de produtos, testes e solução de problemas industriais.
Parte desse grupo retornou à companhia e parte veio de fornecedores, em uma tentativa de recuperar conhecimento acumulado em vários ciclos de veículos e aplicar essa experiência à revisão de projetos e ao treinamento da IA.
“A inteligência artificial é uma ferramenta fantástica, mas ela só é tão boa quanto as informações usadas para treiná-la”, afirmou Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware de veículos da Ford, em teleconferência com jornalistas, segundo a Bloomberg.
Na mesma conversa, Poon disse que a empresa não havia dado atenção suficiente à experiência dos profissionais mais qualificados, especialmente aqueles que acompanharam diferentes gerações de veículos e problemas recorrentes de engenharia.
Engenheiros veteranos ganham papel central na Ford

Na prática, os especialistas passaram a atuar antes que o problema chegue à fábrica, analisando pontos de possível falha em peças e projetos ainda nas fases iniciais de desenvolvimento.
Eles também participam de revisões obrigatórias, orientam engenheiros mais novos e ajudam a ajustar ferramentas de automação, aprendizado de máquina e inteligência artificial usadas pela companhia em decisões críticas de qualidade.
Kumar Galhotra, diretor de operações da Ford, disse que a montadora vinha ampliando a dependência de sistemas automatizados de qualidade, mas não obtinha o resultado esperado para reduzir falhas.
Com a reintrodução de especialistas técnicos, segundo o executivo, a empresa passou a procurar falhas em etapas anteriores do desenvolvimento, antes que uma peça fosse enviada à linha de produção.
O caso expõe um limite importante da IA em processos industriais complexos, nos quais dados técnicos, histórico de falhas e conhecimento prático precisam ser combinados para evitar decisões incompletas.
Em vez de abandonar os sistemas automatizados, a Ford passou a tratá-los como ferramentas que dependem de contexto, validação humana e informação qualificada para funcionar melhor em engenharia e controle de qualidade.
“Por engano, achamos que bastaria introduzir inteligência artificial e alimentar o sistema com os requisitos de projeto que tínhamos para obter um produto de alta qualidade”, afirmou Poon, segundo a Bloomberg.
A partir dessa avaliação, a montadora passou a reforçar o treinamento das ferramentas com apoio dos profissionais mais experientes, justamente para transformar conhecimento acumulado em dados úteis para os sistemas automatizados.
Ford supera Toyota e Honda em qualidade inicial
O avanço apareceu no estudo de qualidade inicial da JD Power de 2026, que mede problemas relatados por proprietários nos primeiros 90 dias de uso de veículos novos.
Coletada entre junho de 2025 e maio de 2026, a pesquisa combina respostas de consumidores com dados de reparo e serve como referência acompanhada por montadoras, concessionárias e fornecedores.
Entre as marcas de massa, a Ford ficou em primeiro lugar, com 152 problemas por 100 veículos, à frente de Nissan, com 156, e Buick, com 162.
No ranking geral, a Porsche liderou com 138 problemas por 100 veículos, seguida por Genesis, com 151, e pela própria Ford, que ficou acima de referências tradicionais de qualidade.
Esse desempenho colocou a montadora à frente de Toyota e Honda no levantamento mais recente citado pela companhia e pela Bloomberg, depois de anos de pressão sobre sua imagem de confiabilidade.

A Reuters informou que foi a primeira vez em 16 anos que a Ford liderou a qualidade inicial entre veículos novos nos Estados Unidos, um resultado relevante para a estratégia de recuperação da marca.
Três modelos da montadora também venceram seus respectivos segmentos na avaliação da JD Power, o que reforça a melhora em produtos centrais para a imagem e o desempenho comercial da empresa.
A lista inclui a picape Ford F-150, o caminhão Ford Super Duty e o esportivo Ford Mustang, veículos que têm peso estratégico para a companhia no mercado norte-americano.
Recalls ainda pressionam a Ford nos Estados Unidos
Apesar da melhora na qualidade inicial, os recalls continuam como um ponto sensível para a Ford, que ainda precisa transformar avanços recentes em redução consistente de campanhas de correção.
A Reuters informou que a montadora liderava o setor automotivo nos Estados Unidos em 2026, com 51 recalls registrados até 25 de junho, bem acima da Stellantis, que aparecia em seguida com 19 campanhas.
Para a própria empresa, os recalls funcionam como um indicador defasado, já que muitos problemas aparecem em veículos projetados anos antes das mudanças feitas nos processos de engenharia.
Galhotra afirmou que os modelos mais novos já mostram avanço em relação aos veículos desenvolvidos entre 2013 e 2020, embora não tenha apresentado uma data específica para queda consistente desses números.
Também pesa sobre a Ford o efeito financeiro do histórico de qualidade e garantia, que custou bilhões à companhia nos últimos anos e aumentou a pressão por controles mais rigorosos.
Ao antecipar problemas ainda no desenvolvimento dos veículos, a montadora busca reduzir despesas futuras, em vez de corrigir falhas depois da venda ou por meio de campanhas de recall.
A estratégia adotada pela Ford não transforma a IA em vilã, mas reforça que sistemas automatizados dependem de supervisão qualificada quando lidam com segurança, durabilidade e integração entre engenharia, manufatura e fornecedores.
Na montadora, a experiência voltou a ser tratada como parte do processo de inovação, principalmente quando o conhecimento acumulado ajuda a corrigir falhas que os sistemas automatizados não conseguem identificar sozinhos.
