Centenária do Agreste de Pernambuco decidiu enfrentar o analfabetismo e se matriculou em uma turma de Educação de Jovens e Adultos após décadas de trabalho na roça, emocionando colegas, professores e familiares ao voltar para a sala de aula.
A agricultora aposentada Maria Joaquina, moradora da zona rural de São Caetano, no Agreste de Pernambuco, completou 100 anos de idade e decidiu realizar um sonho que ficou pendente por quase um século: aprender a ler e escrever.
Depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho na roça e à criação dos filhos, ela se matriculou em uma escola municipal, entrou para uma turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA), superou o analfabetismo e passou a ser tratada como exemplo na cidade, em reportagens de TV e rádio da região.
Segundo reportagens de veículos como o CBN Caruaru, Maria Joaquina celebrou o centenário em setembro de 2023, já matriculada há cerca de três anos em uma turma de EJA de uma escola municipal de São Caetano.
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Aos 100 anos, estava no 3º ano do Ensino Fundamental, frequentando as aulas com regularidade e recebendo o apoio da família e dos professores.
Os relatos apontam que ela já conseguia escrever o próprio nome, formar palavras simples e fazer operações matemáticas básicas, etapa considerada por ela e pelos educadores como a vitória pessoal contra o analfabetismo.
Infância sem escola e décadas de trabalho na roça

A trajetória que desembocou na sala de aula começou ainda na infância. Em entrevistas reproduzidas por emissoras de TV locais, Maria Joaquina contou que começou a trabalhar por volta dos 13 anos de idade para conseguir se alimentar.
Sem acesso à escola, passava os dias em atividades rurais na zona rural de São Caetano, tirando madeira de bloco, limpando roçados, arrancando feijão e cavando a terra.
O dinheiro obtido era usado para comprar alimentos básicos como beiju, farinha e macaxeira.
Ela relatou que, em muitos momentos, dava prioridade à alimentação dos filhos e ficava sem comer o suficiente. Essa rotina se estendeu por décadas.
As reportagens destacam que ela teve 11 filhos, dos quais sete estavam vivos à época das matérias, além de dezenas de netos, bisnetos e tataranetos.
Em meio a uma separação conjugal, precisou sustentar sozinha a família numerosa, acumulando jornadas longas de trabalho manual.
Sem ter conseguido frequentar a escola quando era criança, permaneceu analfabeta por quase toda a vida adulta, assinando documentos com o dedo ou dependendo de terceiros para ler bilhetes, rótulos e avisos.
De acordo com as informações divulgadas pela CBN Caruaru, Maria Joaquina parou de trabalhar na roça apenas aos 84 anos.
A partir daí, passou a ter uma rotina mais tranquila na Vila Santa Luzia, comunidade rural de São Caetano onde morava. Mesmo aposentada, mantinha-se ativa em tarefas domésticas e na costura.
Foi nesse contexto que a alfabetização, antes distante, se tornou uma possibilidade concreta, impulsionada pela oferta de vagas na EJA do município e pelo incentivo dos familiares.
Educação de Jovens e Adultos muda rotina no Agreste
A decisão de se matricular na escola é descrita pelas reportagens como um marco na vida da idosa.
Aos quase 97 anos, ela ingressou na turma de Educação de Jovens e Adultos e começou a conviver diariamente com colegas bem mais novos, alguns com idade para serem seus netos ou bisnetos.

A professora Janiquelly Melo, que aparece em matéria da TV Asa Branca reproduzida por portais de notícias, afirmou que a aluna de 100 anos funcionava como motivação para quem pensava em desistir dos estudos.
Ver uma centenária empenhada em aprender letras e números era, segundo a educadora, um alerta silencioso de que nunca é tarde para recomeçar. As homenagens organizadas pela escola reforçaram esse papel simbólico.
No dia em que completou 100 anos, colegas de turma, funcionários e professores se reuniram no pátio da unidade para cantar parabéns e destacar a persistência da aluna mais velha.
A comemoração, registrada em vídeo e fotos, circulou em telejornais locais e portais de boas notícias, dando projeção regional à história de Maria Joaquina.
Em depoimentos, colegas mais jovens afirmaram que a presença dela em sala de aula ajudava a derrubar a ideia de que estudar é algo restrito à infância e à juventude.
Em declarações reproduzidas por veículos de comunicação, a própria Maria Joaquina apontou que estudar passou a ser, na velhice, uma fonte de prazer.
Nas ocasiões, em vez de tratar a escola como obrigação, descreveu o momento de ir à aula como algo aguardado com expectativa.
Ela inclusive comentava que era preciso ter paciência para aprender, e usou uma expressão religiosa para reforçar a importância de persistir, associando a volta aos estudos à fé que carregava desde cedo.
Analfabetismo entre idosos no Brasil e no Nordeste
O caso ganha ainda mais relevo quando é inserido no contexto dos dados nacionais sobre alfabetização.
Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2022 indicam que, no Brasil, a taxa de analfabetismo cai entre os mais jovens, mas continua elevada na população idosa.
Em 2022, o país tinha 9,6 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabiam ler e escrever, e mais da metade delas tinha 60 anos ou mais.
No Nordeste, região onde vive Maria Joaquina, a taxa de analfabetismo entre pessoas de 60 anos ou mais superava 30%, uma das mais altas do país.
Esses números ajudam a dimensionar o que significa uma centenária do Agreste pernambucano romper, na prática, com uma estatística que atinge principalmente pessoas mais velhas e de baixa renda.

Sou Professora e é muito emocionante ler uma História assim. Ao mesmo tempo, dói saber que, ainda, temos crianças, adolescentes e jovens fora das escolas. Também me sinto extremamente privilegiada por ter conseguido estudar. A minha mãe parou aos 8 anos para trabalhar. Mas, perto dos 50 anos retornou e completou o Ensino Médio com o curso Técnico de Enfermagem.
Simplesmente maravilhosa.
Essa senhora centenária é um exemplo de vida e para estar com essa saúde toda com mais de 100 anos de vida, deve ter bebido muito leite cabra e também, leite de jega preta durante toda sua infância.