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Antigos romanos eram obcecados por uma planta que diziam ser um contraceptivo e um afrodisíaco – então ela foi extinta

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 08/04/2026 às 18:04 Atualizado em 08/04/2026 às 20:12
Planta valiosa para gregos e romanos, o sílfio desapareceu após séculos de uso medicinal, contraceptivo e comercial na Antiguidade.
Planta valiosa para gregos e romanos, o sílfio desapareceu após séculos de uso medicinal, contraceptivo e comercial na Antiguidade.
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Tratado como um tesouro por gregos e romanos, o sílfio crescia na região da atual Líbia, era usado como contraceptivo, abortivo, remédio, perfume e tempero, resistiu ao cultivo humano, desapareceu ainda na Antiguidade e até hoje alimenta dúvidas sobre extinção, exploração e possível sobrevivência

Os romanos transformaram o sílfio em uma das plantas mais valiosas da Antiguidade, atribuindo a ela usos ligados à contracepção, ao aborto, à medicina, ao tempero de alimentos, à perfumaria e ao melhoramento de gado. A erva, que crescia de forma selvagem no território da atual Líbia, desapareceu completamente depois de séculos de exploração intensa e de um suprimento que nunca conseguiu ser ampliado por cultivo humano.

O prestígio do sílfio atravessou gerações e alcançou figuras centrais do poder romano. Há registros de que Júlio César mantinha um estoque da planta no tesouro, enquanto Plínio, o Velho, afirmou que o imperador Nero teria possuído o último talo conhecido.

A raridade e o valor da planta alimentaram a ideia de que a demanda superou a oferta até o colapso definitivo. Também circulou a hipótese de que o sexo extraconjugal nos círculos da elite romana teria impulsionado esse consumo, embora o desaparecimento do sílfio permaneça cercado por incertezas.

Como o sílfio circulava entre gregos e romanos

O sílfio era uma mercadoria de alto valor no mundo greco-romano e sua importância econômica aparecia até em moedas. Antes dos romanos, os gregos já utilizavam a planta, que ocupava lugar central em economias regionais ligadas ao norte da África.

A resina era retirada dos caules e das raízes e depois conservada em farinha, o que permitia seu transporte da Líbia para outras regiões. Entre os romanos, essa resina recebia o nome de laser ou laserpicium, sendo a variedade extraída da raiz considerada superior à obtida do caule.

Os gregos dessas regiões não colhiam o sílfio diretamente. O produto era fornecido como tributo por tribos líbias que conviviam com a planta e dominavam as técnicas de colheita e preparação.

Esse conhecimento local foi explorado comercialmente pelos gregos, que consolidaram um mercado para o sílfio. A dinâmica envolvia extração e lucro a partir de saberes indígenas, em um padrão que também aparece em economias globalizadas de tempos posteriores.

As representações antigas da planta ajudam a reconstruir parte de sua aparência. Moedas e estatuetas levaram botânicos modernos a questionar se o sílfio teria parentesco com os funchos-gigantes selvagens do gênero Ferula, e imagens ao lado de gazelas indicam que seus talos típicos na Antiguidade tinham cerca de 30 centímetros de altura.

O uso medicinal e contraceptivo entre gregos e romanos

O sílfio aparece repetidamente em tratados médicos antigos e era frequentemente administrado por meio da alimentação. Na Antiguidade, a separação entre comida e remédio não era rígida, e ingredientes com finalidade curativa podiam ser incorporados a preparações simples, como um mingau de lentilha.

Na medicina greco-romana, a planta era vista como um alimento “gasoso”, capaz de limpar o corpo de obstruções associadas a doenças. Também se acreditava que alimentos com essas características podiam impedir a concepção e provocar abortos espontâneos, a depender do momento em que fossem administrados.

Sorano de Éfeso, em uma obra sobre ginecologia escrita entre os séculos I e II d.C., mencionou ervas e especiarias de sabor forte, entre elas o sílfio, como componentes possíveis de misturas com vinho ou alimentos simples para contracepção oral. Ele registrou ainda que contraceptivos orais costumavam provocar desconforto estomacal.

As práticas preventivas também incluíam supositórios aplicados no colo do útero com substâncias como azeite de oliva velho, mel, resina, bálsamo, chumbo branco, óleo de murta, alúmen umedecido, resina de gálbano e lã fina. Esses elementos não eram classificados como medicamentos, mas podiam atuar de forma antibiótica, espermicida ou como barreira física, reduzindo a probabilidade de concepção.

Apesar da fama do sílfio, não há prova de sua eficácia contraceptiva ou abortiva. Isso ocorre porque a planta desapareceu e não existe material disponível para ser testado hoje.

O desaparecimento do sílfio e o mistério para os romanos

O grande problema do sílfio era sua resistência ao cultivo humano. Como não podia ser domesticado com sucesso, sua oferta dependia de populações silvestres e, por isso, era finita desde o início.

O valor financeiro da planta e o controle estatal sobre ela parecem ter gerado tensões com populações locais. No período romano, houve relatos de vandalismo e de agricultores levando o gado para pastar justamente nas áreas onde o sílfio crescia.

As mudanças climáticas e a desertificação da costa norte da África também aparecem entre as explicações possíveis para sua extinção. Ainda que os romanos acreditassem que a planta já estivesse extinta no século I d.C., existe a possibilidade de que seu uso e consumo locais tenham continuado até o século V d.C.

A reputação posterior do sílfio foi influenciada por uma associação frequente com o afrodisíaco, mas nenhuma fonte antiga confirma esse atributo. Parte dessa imagem pode ter surgido da cápsula de sementes em forma de coração, uma das representações mais antigas da planta.

As tentativas modernas de encontrar o sílfio

As buscas por uma planta que pudesse ser o sílfio nunca produziram consenso entre os estudiosos. Uma das hipóteses é que ele tenha sido um híbrido com reprodução assexuada, característica que ajudaria a explicar tanto a dificuldade de cultivo quanto a vulnerabilidade à extinção.

Em 2021, a identificação de uma nova espécie de funcho gigante, a Ferula drudeana, nos arredores de antigos assentamentos gregos na Anatólia, reabriu a discussão. A estrutura dessa planta se assemelha bastante às representações antigas do sílfio, o que levou à possibilidade de sementes originárias da Líbia terem chegado à região turca e sobrevivido até hoje.

Essa hipótese, porém, ainda não pode ser testada de forma conclusiva. Sem evidências de sementes do antigo sílfio em depósitos arqueológicos com datação segura, não há como confirmar a ligação.

O debate ganhou novo peso também por razões de conservação. Muitas espécies de funcho gigante existem no Mediterrâneo e em áreas próximas, mas a divulgação falsa de supostas propriedades afrodisíacas, sobretudo ligadas ao tratamento da disfunção erétil, vem ampliando a preocupação com a colheita excessiva dessas plantas nos tempos modernos.

O caso do sílfio mostra como gregos e romanos elevaram uma planta silvestre a item essencial de comércio, medicina e controle reprodutivo, sem conseguir garantir sua sobrevivência. Entre prestígio, exploração e desaparecimento, os romanos deixaram para trás um dos maiores mistérios botânicos da Antiguidade.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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