Um projeto escolar nascido da impressão 3D transformou a rotina de uma estudante e colocou em evidência como tecnologia, ensino técnico e acessibilidade podem se encontrar em soluções de baixo custo com aplicação prática no cotidiano.
Impressão 3D e acessibilidade dentro da escola
Uma estudante da Escola Técnica Estadual Francisco Garcia, em Mococa, no interior de São Paulo, inspirou colegas a desenvolver uma solução de acessibilidade dentro da própria escola.
Maria Alice Francisco, que nasceu sem parte do braço esquerdo, participou da criação de uma prótese mecânica produzida com impressão 3D pelos alunos Fabrício Bueno Francisco e Lucas Marques de Souza, com orientação dos professores Jayro do Nascimento Neto e Regina Destro Silva.
Batizado de Adaptamão, o projeto foi apresentado como uma alternativa funcional e de menor custo em relação a modelos disponíveis no mercado.
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A iniciativa surgiu depois que a Etec recebeu uma impressora 3D e passou a estimular os estudantes a produzir peças simples.
Com o avanço das atividades, a proposta em sala de aula passou a buscar aplicações práticas para o equipamento.
Nesse contexto, a história de Maria Alice levou a turma a direcionar o aprendizado para uma demanda concreta, ligada à autonomia da colega no dia a dia.
Como surgiu o projeto Adaptamão
Segundo reportagem do g1 reproduzida pelo Estado de Minas, o trabalho começou com a produção de um único dedo.
Aos poucos, outros grupos passaram a colaborar com novas partes, até que a ideia evoluiu para a montagem de uma mão completa.
Em depoimento reproduzido pela imprensa, Maria Alice afirmou que o envolvimento da turma chamou atenção pelo esforço coletivo em torno do projeto.
O resultado foi uma prótese articulada, feita com materiais leves e com proposta de baixo custo.
De acordo com a reportagem, a estimativa é de que o dispositivo possa custar menos de R$ 300.
Já órgãos oficiais e os responsáveis pelo projeto apontam que próteses mioelétricas ou biônicas podem ter valores significativamente mais altos, a depender da tecnologia empregada.
Desafios técnicos na criação da prótese 3D
Durante o desenvolvimento, os estudantes relataram dificuldades técnicas até chegar a um modelo funcional.
Fabrício afirmou à Agência SP que um dos principais desafios foi encontrar materiais compatíveis com a proposta da peça, sem comprometer a articulação dos dedos e a resistência do conjunto.
Segundo ele, o objetivo era alcançar um material que permitisse movimento sem risco de fratura da estrutura nem de rompimento dos cabos durante o uso.

A primeira versão apresentou limitações, principalmente no sistema de fixação e no movimento.
Lucas informou que o grupo precisou reposicionar o bracelete acima do cotovelo depois de constatar que a solução inicial, próxima ao punho, não entregava o resultado esperado.
Conforme explicou à Agência SP, essa alteração foi necessária para automatizar o movimento dos cabos responsáveis pela abertura e pelo fechamento dos dedos.
O que mudou na rotina de Maria Alice
Na segunda versão, a prótese passou a usar fios que funcionam como tendões e são acionados pelo movimento do braço da usuária.
Foi esse modelo que começou a permitir tarefas práticas na rotina de Maria Alice.
Em relato à Agência SP, a estudante disse que conseguiu segurar copos, objetos e realizar atividades simples do cotidiano, como prender o cabelo, algo que antes não conseguia fazer da mesma forma.
Além do aspecto funcional, o projeto teve reflexos no ambiente escolar e na experiência pessoal da estudante, segundo os depoimentos reproduzidos pela imprensa.
Maria Alice associou o processo ao sentimento de acolhimento e ao apoio recebido dos colegas durante o desenvolvimento da prótese.
Nesse sentido, a iniciativa deixou de ser apenas um exercício técnico e passou a ser tratada, também, como uma ação ligada à inclusão no espaço escolar.
Tecnologia assistiva e ensino técnico
Ao mesmo tempo, o Adaptamão consolidou uma dinâmica de trabalho entre diferentes áreas da escola.
Na página oficial da 16ª Feira Tecnológica do Centro Paula Souza, o projeto é descrito como uma iniciativa que combina softwares de modelagem, impressão 3D e montagem das peças na oficina do curso.
A proposta, ainda segundo a descrição oficial, foi concebida para simular funções da mão humana e favorecer a execução de atividades rotineiras por pessoas com deficiência física nos membros superiores.
O projeto ganhou visibilidade fora da unidade de ensino.
A Agência SP informou que o Adaptamão foi apresentado na 16ª edição da Feira Tecnológica do Centro Paula Souza, evento voltado à inovação e ao empreendedorismo estudantil nas Etecs e Fatecs paulistas.
Também há registro, no British Council Brasil, de que o trabalho ficou em segundo lugar na etapa final paulista do desafio Learning Sectors: Acelerando no Circuito da Aprendizagem, realizada em 7 de junho de 2025, entre equipes da rede pública.
Próteses, inovação e continuidade do projeto
Enquanto isso, o grupo segue trabalhando no aperfeiçoamento da prótese.
Segundo a Agência SP, os estudantes desenvolvem a terceira versão do dispositivo, com mudanças estruturais para ampliar a flexibilidade e as possibilidades de movimento.
Na apresentação da Feteps, aparece ainda a perspectiva de avançar na automação de funções como abrir e fechar os dedos, o que indica a continuidade do projeto dentro da escola.
Dados sobre deficiência e amputação no Brasil
A repercussão do caso também chama atenção para a falta de dados específicos sobre pessoas com ausência de membros superiores no Brasil.
A própria Agência SP menciona essa lacuna.
O dado nacional mais abrangente disponível hoje vem do Censo 2022: o IBGE informou, em maio de 2025, que o país tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população de dois anos ou mais.
O levantamento, porém, não detalha quantos casos envolvem amputações ou malformações congênitas de membros superiores.
Na saúde pública, os números disponíveis ajudam a dimensionar a demanda por reabilitação e tecnologias assistivas, embora não resolvam essa ausência de recorte específico.
A Agência SP informou que, em 2022, foram registrados aproximadamente 31 mil procedimentos de amputação de membros no Sistema Único de Saúde.
Já o Conass, com base em dados citados da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, informou que o país registrou 31.190 amputações naquele ano, associadas principalmente a pés e pernas na rede pública.
Em Mococa, o desenvolvimento da prótese ocorreu a partir de uma demanda observada dentro da escola e da participação direta da estudante atendida pelo projeto.
O caso reúne ensino técnico, uso de impressão 3D e aplicação prática de conhecimento em uma iniciativa voltada à ampliação da autonomia em atividades cotidianas.


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