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Agricultores usam túneis subterrâneos escavados há milhares de anos para levar água a plantações e manter lavouras vivas no deserto sem bombas ou eletricidade

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 16/03/2026 às 12:32
Assista o vídeoTúneis subterrâneos milenares ainda levam água por gravidade até plantações no deserto, mantendo agricultura viva sem bombas ou eletricidade.
Túneis subterrâneos milenares ainda levam água por gravidade até plantações no deserto, mantendo agricultura viva sem bombas ou eletricidade.
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Túneis hidráulicos milenares escavados sob desertos conduzem água por quilômetros até áreas agrícolas e comunidades, utilizando apenas gravidade e conhecimento geológico tradicional, técnica ainda ativa em países do Oriente Médio, Norte da África e Ásia Central e considerada exemplo histórico de uso eficiente da água.

Em partes do Oriente Médio, do Norte da África e da Ásia Central, a sobrevivência de pomares, hortas e pequenas áreas agrícolas ainda depende de uma engenharia antiga que quase não aparece na paisagem.

São galerias escavadas sob o solo para captar água subterrânea e conduzi-la por gravidade até as lavouras, num trajeto protegido do sol, do vento e da evaporação mais intensa.

Em regiões secas, onde a disponibilidade hídrica define a permanência ou o abandono da terra, esses sistemas seguem funcionando sem motores, combustível ou rede elétrica.

Túneis subterrâneos levam água do aquífero até as lavouras

A lógica hidráulica é semelhante em países diferentes, embora os nomes mudem conforme a tradição local.

No Irã, o sistema é chamado de qanat; no Marrocos, de khettara; em partes do Afeganistão e do Paquistão, de karez; em Omã, de aflaj.

Em todos os casos, a estrutura costuma partir de áreas mais altas, onde o aquífero pode ser alcançado, e segue em leve declive até os pontos de uso agrícola ou doméstico.

Ao longo desse percurso, poços verticais são abertos em sequência para retirar o material escavado, permitir ventilação e garantir a manutenção da galeria principal.

Vistos de cima, eles formam fileiras de aberturas que denunciam a presença de um corredor de água invisível na superfície.

A precisão da declividade é decisiva.

Ela precisa ser suficiente para mover o fluxo naturalmente, mas não tão acentuada a ponto de acelerar erosão ou comprometer a estabilidade do túnel.

Esse desenho explica por que a técnica continua valiosa em zonas áridas.

Como a água percorre quase todo o trajeto sob a terra, as perdas por evaporação tendem a ser menores do que em canais expostos.

Além disso, a gravidade substitui o gasto contínuo de energia, o que faz desses sistemas uma alternativa durável em territórios onde o bombeamento moderno nem sempre é economicamente viável ou ambientalmente sustentável.

Qanats no Irã mantêm agricultura ativa há séculos

No Irã, a UNESCO classifica o sistema persa de qanats como patrimônio mundial e destaca que os 11 qanats inscritos continuam ativos, preservando tanto a função de conduzir água quanto a organização social associada a essa infraestrutura.

Segundo o órgão, essas galerias sustentaram assentamentos permanentes, jardins e áreas agrícolas em zonas áridas ao longo de séculos, justamente por tornar possível o acesso regular à água em ambientes de escassez extrema.

A FAO também trata esses canais como parte central da agricultura tradicional em Kashan, onde os sistemas irrigados por qanats foram reconhecidos como patrimônio agrícola globalmente importante.

Na área, cultivos como romã, pistache e açafrão dependem desse manejo para manter a produção e o abastecimento humano em torno do deserto central iraniano, numa relação entre técnica e território que atravessa gerações.

O valor desses túneis não se resume à escavação em si.

A UNESCO ressalta que, no caso iraniano, a partilha da água ainda se apoia em formas tradicionais de gestão comunitária, com regras de distribuição consideradas essenciais para a manutenção do sistema.

Isso ajuda a explicar a longevidade da tecnologia.

Não se trata apenas de abrir galerias subterrâneas, mas de preservar conhecimento técnico, rotinas de manutenção e acordos locais sobre o uso de um recurso limitado.

Sistemas aflaj de Omã ainda abastecem agricultura e cidades

Em Omã, essa permanência aparece em escala nacional.

A UNESCO informa que os cinco aflaj reconhecidos como patrimônio mundial representam cerca de 3 mil sistemas ainda em uso no país.

Neles, a água é conduzida por gravidade a partir de fontes subterrâneas ou nascentes para atender a agricultura e o abastecimento doméstico.

O modelo funciona em um ambiente em que a gestão hídrica sempre esteve no centro da vida econômica e social.

A mesma documentação registra que a distribuição da água continua amparada por valores comunitários e por observações astronômicas.

Esse detalhe revela o grau de sofisticação acumulado por sociedades que precisaram medir o tempo, organizar turnos e controlar o fluxo com precisão para garantir acesso equitativo em áreas extremamente secas.

Evidências arqueológicas indicam ainda que sistemas desse tipo podem remontar a períodos tão antigos quanto 2500 a.C.

Khettaras mantêm irrigação tradicional no oásis de Tafilalt

No sul do Marrocos, o mesmo princípio hidráulico aparece nas khettaras do oásis de Tafilalt.

Estudo publicado na revista Built Heritage descreve essas estruturas como um método engenhoso de mobilização de água por gravidade a partir do lençol freático para irrigar campos em áreas desérticas.

A pesquisa aponta a existência de mais de 380 redes distribuídas por cerca de 500 quilômetros de canais na planície de Tafilalt.

O trabalho também registra que aproximadamente 150 khettaras continuavam em operação na área, segundo levantamentos regionais citados pelos autores.

A implantação do sistema na bacia de Tafilalt é associada ao fim do século XIV, com expansão posterior em diferentes setores do oásis.

Trata-se, portanto, de uma infraestrutura histórica que continua influenciando a produção agrícola e a ocupação do território.

Pressão sobre aquíferos ameaça sistemas históricos de irrigação

A permanência dessas galerias, porém, não significa estabilidade.

Documentos da FAO sobre organizações de usuários de água no Marrocos apontam a expansão de motobombas nas áreas de recarga como uma das ameaças mais importantes às khettaras.

O bombeamento intensifica a queda do nível do lençol freático, reduzindo o fluxo natural que sustenta os túneis subterrâneos.

Quando isso acontece, sistemas que dependem exclusivamente da gravidade passam a perder vazão ou deixam de funcionar completamente.

Pesquisas sobre Tafilalt relacionam o enfraquecimento de muitas estruturas à sobreexploração da água subterrânea e às condições climáticas desfavoráveis.

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Ainda assim, especialistas observam que, uma vez construídas, as galerias transportam água sem consumo contínuo de combustível fóssil, característica que mantém o interesse por esse modelo em sistemas agrícolas de oásis.

Engenharia tradicional inspira debate atual sobre uso da água

O interesse contemporâneo nesses sistemas vai além do valor histórico.

A FAO os apresenta como exemplo de uso eficiente da água em regiões áridas, enquanto a UNESCO os descreve como base material de paisagens agrícolas e assentamentos permanentes.

Nesses territórios, a permanência humana sempre dependeu da administração rigorosa dos recursos hídricos.

Em vez de depender de energia para lançar água sobre longas distâncias, essa engenharia capta o recurso no ponto adequado, protege o trajeto sob a terra e entrega o fluxo onde a regularidade vale mais do que a abundância.

Num momento em que boa parte do debate sobre inovação no campo se concentra em automação, sensores e alto consumo energético, qanats, khettaras e aflaj mostram como tecnologias adaptadas ao ambiente podem atravessar séculos.

Em algumas das paisagens mais áridas do planeta, conhecimento geológico, cálculo de declividade e gestão comunitária continuam mantendo a água em movimento e as lavouras de pé.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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