Seguro rural em crise deixa agricultor sem proteção; falta de recursos no PRS e riscos climáticos pressionam o agro.
O que está acontecendo com o seguro rural no Brasil? Quem mais sente esse impacto? Quando o problema se intensificou e por que ele ameaça diretamente o agricultor?
A resposta aparece já no início desta crise: em meio ao avanço das mudanças climáticas, ao rigor maior das instituições financeiras e ao orçamento limitado para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), produtores rurais — especialmente os de pequeno porte — estão cada vez mais expostos.
O cenário é crítico e coloca em risco a renda no campo justamente no momento em que a agricultura brasileira mais cresce.
-
Arábia Saudita comprou quase 397 mil toneladas de frango brasileiro, mas agora quer criar um império avícola no deserto: plano de autossuficiência mira produção local, ameaça embarques de BRF, JBS e Seara e acende alerta para o Brasil no mercado halal até 2030
-
Guerra no Irã eleva preço dos fertilizantes, acende alerta no agronegócio brasileiro e leva governo a buscar novos fornecedores para evitar impactos na safra
-
Soja despenca em Chicago com clima favorável nos Estados Unidos e produtores brasileiros travam vendas diante da pressão nos preços e da falta de reação do mercado
-
Criar tilápia, o peixe mais cultivado no Brasil, com tanques movidos a energia solar é uma tendência que ganha força no campo, porque os painéis garantem a oxigenação da água em locais sem luz e reduzem custos, embora a rentabilidade dependa de manejo, ração e mercado.
O agricultor vive hoje um paradoxo. Ele precisa do seguro rural para manter sua produção diante dos eventos extremos, mas tem cada vez menos capacidade de pagar por ele. Assim, a subvenção estatal se torna indispensável para garantir a continuidade do trabalho no agro.
“O seguro rural precisa se adaptar à realidade do produtor, com coberturas que assegurem a renda no campo. Em anos de margens apertadas, o agricultor precisa mais do seguro, mas tem menos capacidade de pagar por ele. Por isso mesmo a subvenção é imprescindível”, afirmam especialistas do setor.
Mudanças climáticas ampliam riscos para a agricultura brasileira
As mudanças climáticas já impactam severamente a agricultura. Eventos extremos, como estiagens prolongadas e chuvas intensas, têm se tornado mais frequentes e causam perdas significativas.
Por outro lado, bancos e cooperativas passaram a exigir garantias cada vez maiores do agricultor para liberar crédito, o que reforça ainda mais a necessidade do seguro rural.
Entretanto, o PSR — mecanismo que ajuda o produtor a pagar o prêmio do seguro — não acompanha a demanda do agro.
Com recursos públicos limitados e risco constante de cortes, o setor vive incertezas que afetam diretamente a produção.
Produção cresceu, mas área segurada diminuiu
Apesar do avanço da agricultura, o seguro rural não acompanhou esse ritmo. Em 2015, o Brasil tinha 78,1 milhões de hectares cultivados e 2,6 milhões segurados.
Já em 2025, mesmo com a expansão para 97 milhões de hectares produtivos, apenas 2,2 milhões possuem seguro — o equivalente a 2,3% de toda a área, segundo estudo da CNseg com dados do Mapa, IBGE e mercado segurador.
Esse descompasso mostra uma fragilidade estrutural entre produtividade e proteção, prejudicando o agricultor em um momento de forte modernização do agro.
PRS precisa de mais recursos para atender o agricultor
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural é o coração do sistema de proteção agrícola no Brasil.
Porém, desde 2020, o PSR opera com cerca de R$ 1 bilhão anuais — valor muito abaixo do necessário.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que seriam precisos ao menos R$ 4 bilhões para atender a demanda nacional.
A falta de previsibilidade orçamentária afeta diretamente pequenos produtores. Sem apoio, muitos ficam impossibilitados de contratar seguro rural e acabam deixando o campo após perdas severas.
Comparação internacional evidencia atraso brasileiro
Enquanto o Brasil ainda luta para expandir seu seguro rural, os Estados Unidos já cobrem cerca de 90% das áreas de milho, soja e trigo. Em 2024, o país segurou mais de 200 milhões de hectares, graças a um modelo de subsídio estável em que o governo assume, em média, 60% do valor do prêmio — percentual superior ao brasileiro, que não chega a 50%.
O contraste revela a urgência de reformas para o agricultor brasileiro ter a mesma segurança que produtores de outros países.
Mercado de seguro rural encolhe e acende alerta no agro
Dados da CNseg mostram que, até agosto deste ano, o seguro rural registrou queda de 6,7% na arrecadação, totalizando R$ 8,7 bilhões, e recuo de 7,4% nas indenizações, que somaram R$ 3,1 bilhões.
A retração reforça que o modelo atual é insuficiente para enfrentar os novos desafios do agro.
Assim, entidades cobram que os recursos do PSR sejam blindados no orçamento e que o Congresso avance na criação de um fundo privado de seguro rural, proposta antes defendida pelo saudoso ex-ministro Alysson Paolinelli.
Novo modelo de seguro rural é prioridade do governo
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, já reconheceu que o Brasil precisa de um novo modelo de seguro rural e vem analisando referências internacionais para modernizar o sistema.
Sem essa reforma, o agricultor continuará entrando em um ciclo vicioso: sem seguro adequado, quebra; e, como consequência, o governo cria programas emergenciais de renegociação, que acabam sendo mais caros para o país.
Afinal, como já alertado por especialistas: “O seguro rural precisa se adaptar à realidade do produtor… Caso contrário, o poder público precisa criar programas emergenciais de renegociação de dívidas, o que no fundo sai mais caro.”

Seja o primeiro a reagir!