Marina Hadlich deixou a carreira jurídica para viver de literatura em Florianópolis e, desde 10 de janeiro de 2024, escreve poemas gratuitos em até 30 segundos diante da Catedral. Com oito máquinas de escrever, já superou 2.400 textos diferentes e atrai adolescentes que voltam repetidamente para receber novos cartões personalizados.
Marina Hadlich, advogada por formação e escritora, montou uma pequena mesa diante da Catedral, no Centro de Florianópolis, para transformar palavras sugeridas por desconhecidos em textos feitos na hora. Cada cartão pode ser datilografado em até 30 segundos, não custa nada e faz parte de um projeto criado para aproximar mais pessoas da literatura.
Segundo reportagem do ND Mais, Marina trabalhou durante muitos anos no Ministério Público de Santa Catarina, na área da Infância e Juventude, antes de decidir concentrar sua vida profissional na escrita e em ações de incentivo à leitura. O projeto da máquina de escrever começou em 10 de janeiro de 2024 e já ultrapassou 2.400 textos, todos diferentes.
Marina ocupa a região da Catedral toda quarta-feira

Foto: Gabrielle Tavares
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Marina fica diante da Catedral todas as quartas-feiras, das 11h às 13h, horário que coincide com a entrada e a saída de algumas escolas da região.
Adolescentes passaram a procurar os cartões repetidamente

Foto: Gabrielle Tavares
O horário escolar aproximou o projeto de um público que Marina queria alcançar desde o início.
A escritora contou que uma adolescente já havia passado pelo local mais de dez vezes e disse que guardaria todos os cartões recebidos.
Marina vê essa procura como parte do objetivo de estimular o interesse pela leitura entre os jovens.
Pelo menos 15 adolescentes aguardavam poemas na escadaria

Foto: Gabrielle Tavares
Na quarta-feira, dia 26, acompanhada pela reportagem, Marina estava cercada por pelo menos 15 adolescentes.
Enquanto alguns esperavam sentados na escadaria da igreja e escolhiam cuidadosamente uma palavra, outros já exibiam aos colegas os textos que haviam recebido.
Uma palavra vira ponto de partida para cada texto

Foto: Gabrielle Tavares
O processo começa quando a pessoa oferece uma única palavra à escritora.
Marina afirma que utiliza a primeira ideia que surge a partir daquele termo e deixa o texto se desenvolver enquanto datilografa, sem saber previamente como terminará.
Entre as sugestões frequentes aparecem palavras como “esperança”, “gratidão” e “amor”, mas adolescentes também tentam surpreendê-la com escolhas menos previsíveis.
“Astrolábio” foi o maior desafio recebido até agora
Entre mais de 2.400 textos, uma palavra se destacou pela dificuldade.
Marina apontou “astrolábio”, nome de um antigo instrumento utilizado na navegação para determinar a posição dos astros em relação ao horizonte, como a sugestão mais difícil que precisou transformar em texto.
Cartão mede apenas 10 por 10 centímetros
O espaço disponível também limita o tamanho da criação.
Cada texto é escrito em um papel de 10 x 10 centímetros, o que obriga Marina a desenvolver a ideia em poucas linhas.
A escritora conta que, às vezes, gostaria de continuar escrevendo, mas precisa respeitar o limite físico do cartão.
Poema pode ficar pronto em até 30 segundos
Durante o acompanhamento feito pela reportagem, Marina levou no máximo 30 segundos para finalizar um cartão.
O atendimento completo, porém, demora mais. Entre receber a pessoa, ouvir a palavra escolhida, escrever, conversar e registrar o resultado, o processo leva em média cinco minutos.
Praça, prédios e pessoas também entram na inspiração
A palavra escolhida não é a única referência usada pela escritora.
Marina observa o comportamento da própria pessoa, as árvores da Praça XV de Novembro, as janelas dos prédios e outros elementos ao redor para construir cada pequeno texto.
Ela explica que pode escrever de maneira mais poética ou em formato de conto, conforme a inspiração daquele encontro.
Mais de 2.400 textos foram escritos desde janeiro de 2024
O primeiro cartão do projeto foi produzido em 10 de janeiro de 2024.
Desde então, Marina contabiliza mais de 2.400 textos, sem repetir as produções anteriores.
O volume surgiu de encontros individuais com pessoas que oferecem palavras, contam histórias e levam consigo o cartão datilografado.
Todos os poemas são entregues gratuitamente
Marina não cobra pelos cartões.
Segundo ela, o pagamento que procura é o sorriso ou o abraço de quem recebe o texto, embora algumas pessoas tentem oferecer presentes como forma de agradecimento.
A escritora já recebeu colares, chocolates e até ofertas de moedas de pessoas em situação de rua, que enxergaram o gesto como uma troca.
Trabalho anterior era ligado à Infância e Juventude
Antes de viver dedicada à literatura, Marina atuou durante anos no Ministério Público de Santa Catarina.
Seu trabalho na área da Infância e Juventude envolvia medidas socioeducativas, e ela também ajudava em campanhas para arrecadar livros.
Com o tempo, decidiu que queria desenvolver ações capazes de chegar aos adolescentes antes da necessidade de intervenção estatal.
Clubes de leitura e pequenas bibliotecas fazem parte do projeto maior
A máquina de escrever é apenas uma das iniciativas mantidas pela escritora.
Marina também organiza clubes de leitura e cria pequenas “casinhas de livro”, que funcionam como bibliotecas comunitárias destinadas a estimular o hábito de ler.
A decisão de deixar a atuação jurídica e permanecer exclusivamente com a literatura nasceu desse objetivo.
Marina possui oito máquinas de escrever

Foto: Gabrielle Tavares
O equipamento que se tornou sua marca também virou coleção.
Marina possui oito máquinas de escrever e costuma variar a cor do aparelho que leva semanalmente à Catedral.
A relação com essas máquinas começou quando recebeu um exemplar antigo do avô.
Três máquinas chegaram como presentes
A coleção cresceu também por meio das pessoas que conheceu.
Marina conta que já ganhou três máquinas para guardar como recordação ou decoração.
Uma delas veio de Luiz, homem que conheceu na praça e que inicialmente pretendia descartar o equipamento. Marina pediu que ele lhe entregasse a máquina e afirma que ela funciona muito bem.
Luiz passou a visitá-la semanalmente
A doação acabou criando também uma nova amizade.
Segundo Marina, Luiz continua passando pelo local todas as semanas para cumprimentá-la e levar uma bala.
Durante cerca de meia hora de entrevista, pelo menos cinco pessoas também pararam para falar com a escritora, exemplo da comunidade que se formou em torno de sua presença na praça.
Histórias ouvidas podem virar um novo livro
Marina cogita transformar os encontros diante da Catedral em uma obra.
Inicialmente, pensou em reunir apenas os cartões produzidos, mas concluiu que os textos não mostram tudo aquilo que existe por trás de cada pessoa e de cada palavra escolhida.
Por isso, as histórias dos participantes podem acabar tendo papel tão importante quanto os poemas na eventual publicação.
Encontros incluem relatos de pessoas em situação de rua
Uma das pessoas lembradas por Marina foi Cristal, que vivia em situação de rua.
Durante uma conversa de aproximadamente meia hora, Cristal relatou aspectos da própria rotina e falou sobre a solidão nas ruas, experiência que fez Marina refletir sobre a diferença entre a palavra sugerida e a história da pessoa que estava à sua frente.
Mulher contou ter recomeçado a vida em Florianópolis
video: redes sociais/instagram/ @marinahadlich
Outro encontro citado foi com uma mulher que havia deixado o Norte do país para fugir de uma situação de violência doméstica.
Segundo o relato recebido por Marina, ela dormiu três dias na Praça XV de Novembro, enfrentando fome e frio, até receber ajuda de um taxista.
A mulher contou a Marina, cinco anos depois, que acabou se casando com o homem que a ajudou, abriu uma loja no Estreito e passou a viver em Florianópolis.
Marina já publicou quatro livros e prepara o quinto citado pela fonte

Foto: Gabrielle Tavares
A trajetória literária de Marina inclui “100 Mulheres”, de 2019; “O menino que se escondia”, de 2021; “Até essa comédia se tornar romântica”, de 2023; e “Mulheres mofadas nas entranhas e nas memórias”, também de 2023.
Ela também participa de antologias e concursos literários.
“Sombra de Amália” será lançado em 12 de setembro
Marina prepara ainda sua estreia no gênero de terror.
O livro “Sombra de Amália” tem lançamento previsto para 12 de setembro, durante a Bienal do Livro de São Paulo, pela editora Qualis.
Projeto continua gratuito e pode ganhar versão em livro
Marina segue diante da Catedral às quartas-feiras, transformando palavras de desconhecidos em cartões sem cobrar pelo trabalho e usando os encontros como instrumento de incentivo à leitura.
Depois de mais de 2.400 textos desde janeiro de 2024, a escritora avalia levar para um futuro livro não apenas aquilo que datilografou, mas também as histórias das pessoas que encontrou ao longo do projeto.
Na sua opinião, o que mais chama atenção nessa iniciativa: criar um texto em até 30 segundos, entregar gratuitamente mais de 2.400 cartões diferentes ou ver adolescentes retornarem várias vezes para ter novos contatos com a literatura? Deixe sua opinião nos comentários.
