Em 2 de junho de 2026, o AD Ports Group — empresa estatal de Abu Dhabi que opera os maiores portos dos Emirados Árabes Unidos — anunciou a aquisição da Corredor Logística e Infraestrutura (CLI), a maior operadora independente de terminais de granéis agrícolas do Brasil, por AED 3,1 bilhões (US$ 835 milhões), assumindo o controle de dois terminais que respondem por parte significativa das exportações de soja, milho e açúcar do país.
O que é a CLI e o que o AD Ports está comprando
A CLI opera dois ativos estratégicos da logística agrícola brasileira. O CLI Sul é o principal terminal de exportação de açúcar do país no Porto de Santos, além de ser um terminal relevante para milho e soja — o maior porto da América Latina. O CLI Norte está no Porto do Itaqui, no Maranhão, parte do chamado Arco Norte: o complexo de portos do norte e nordeste do Brasil que está se tornando o principal escoamento da soja do Cerrado para os mercados asiáticos.
Em 2025, a CLI movimentou 17 milhões de toneladas de carga agrícola — o equivalente a uma safra inteira de vários estados brasileiros — gerando receita de US$ 178 milhões e EBITDA de US$ 98 milhões. A infraestrutura inclui silos, berços de atracação, correias transportadoras e sistemas de carregamento de navios graneleiros.
Os vendedores foram a Macquarie Asset Management (a maior gestora de ativos de infraestrutura do mundo) e a IG4 Capital (gestora brasileira focada em investimentos alternativos). O negócio ainda depende de aprovação do CADE e órgãos regulatórios, com fechamento previsto para o segundo semestre de 2026.
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Por que Abu Dhabi quer a soja brasileira
A resposta direta é segurança alimentar. Os Emirados Árabes Unidos importam mais de 90% de todos os alimentos que consomem. Num mundo onde guerras, secas e choques climáticos podem interromper cadeias de suprimento globais em semanas, controlar a infraestrutura de escoamento dos maiores exportadores agrícolas do planeta é a forma mais eficaz de garantir acesso prioritário à comida.
O Brasil é o maior exportador mundial de soja, açúcar, carne bovina, café e laranja. Para Abu Dhabi, comprar os terminais que exportam esses produtos é o equivalente a garantir uma fila preferencial na maior prateleira de alimentos do mundo. O AD Ports já opera terminais em 25 países — do Egito à Índia, da África do Sul à Bélgica — e a entrada no Brasil representa a primeira operação da empresa na América do Sul.
Isso não é filantropia. É geoestrategia alimentar executada com capital de fundo soberano. Os mesmos petrodólares que financiaram décadas de importação de alimentos agora compram a logística da fonte.
O que a venda diz sobre o Brasil e sua infraestrutura agrícola
A CLI foi construída com capital privado e aprimorada pela Macquarie — que comprou, modernizou e agora vendeu com lucro a um ator estratégico estrangeiro. O Brasil não tem um mecanismo formal para vetar aquisições estrangeiras de infraestrutura logística crítica — diferente de países como os EUA, que têm o CFIUS para revisar investimentos em ativos sensíveis.
A pergunta que muitos especialistas em logística e segurança nacional fazem é: numa crise geopolítica, quem vai garantir que os terminais da CLI priorizem o escoamento brasileiro? A resposta honesta é que o contrato de concessão — assinado com a Companhia Docas do Maranhão e com o Porto de Santos — define obrigações de operação, mas a lucratividade e a estratégia de longo prazo agora respondem a um acionista em Abu Dhabi.
A venda da CLI, por outro lado, também revela algo positivo: o Brasil tem infraestrutura de logística agrícola com qualidade suficiente para atrair bilhões de capital estrangeiro. O terminal de Itaqui, em especial, é parte de uma das histórias mais impressionantes da logística brasileira recente — o Arco Norte que deslocou o escoamento da soja de Paranaguá para os portos do norte, cortando dias de viagem para a Ásia e poupando bilhões em frete.
O que vem depois: mais petrodólares na logística do Cerrado?
A compra da CLI abre caminho para mais investimentos do Golfo no agronegócio brasileiro. Qatar, Kuwait e Arábia Saudita têm fundos soberanos com capacidade de investimento muito maior do que o negócio da CLI. O Brasil tem concessões de terminais portuários, ferrovias e hidrovias disponíveis ou em processo de licitação — todos alvos naturais para capital soberano de países que precisam garantir sua segurança alimentar de longo prazo.
O terminal Moegão de Paranaguá, por exemplo, que está em construção com R$1,1 bilhão de investimento privado, representa o tipo de ativo que atrai esse capital. A questão é se o Brasil vai criar mecanismos para garantir que esses investimentos venham com contrapartidas que beneficiem o país — ou se vai simplesmente vender a infraestrutura sem nenhuma condição estratégica.
O movimento do AD Ports não é isolado. Em 2024 e 2025, fundos soberanos do Golfo e de Cingapura adquiriram ou investiram em terminais portuários na Austrália, no Canadá, na Polônia e agora no Brasil, sinalizando uma estratégia coordenada de garantir acesso a infraestrutura de exportação agrícola nos maiores países produtores do mundo. O padrão é claro: capital de nações que importam alimentos buscando controlar os portões físicos de exportação das nações que os produzem. O Brasil, com seu agronegócio em expansão e seus terminais portuários subinvestidos historicamente, é um alvo natural. Cada concessão de terminal portuário que o Brasil lança nos próximos anos vai atrair interesse de capital do Golfo, de fundos asiáticos e de grandes operadores portuários europeus — todos com o mesmo interesse estratégico: garantir acesso prioritário ao escoamento da maior colheita do mundo quando vier a próxima grande crise de abastecimento alimentar.
Se os Emirados compram a logística que escoa a soja do Brasil, quem é que realmente controla o maior exportador agrícola do mundo?
