Estudo científico revela que diferenças microscópicas na língua das abelhas-rainhas reduzem drasticamente sua eficiência ao sugar néctar, influenciam a divisão de tarefas na colmeia e podem impactar a polinização agrícola
Abelhas-rainhas desempenham um papel central na sobrevivência de qualquer colônia, mas um novo estudo científico revelou que essas líderes possuem uma limitação física inesperada que afeta diretamente sua capacidade de coletar alimento. Embora sejam maiores, mais longevas e biologicamente essenciais, as abelhas-rainhas não são tão eficientes quanto as operárias quando o assunto é sugar néctar das flores.
Logo no início da primavera, essas fêmeas solitárias emergem da hibernação e iniciam sozinhas a construção de uma nova colônia, buscando flores e consumindo néctar para obter energia. No entanto, assim que os primeiros filhotes nascem e amadurecem, algo curioso acontece: as rainhas praticamente abandonam o trabalho externo e passam a permanecer quase exclusivamente no ninho.
A informação foi divulgada por um estudo publicado em 12 de janeiro de 2026 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), que investigou diferenças físicas pouco perceptíveis, mas decisivas, entre abelhas-rainhas e abelhas operárias.
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Diferenças microscópicas na língua explicam a eficiência desigual

Durante décadas, cientistas tentaram entender por que as abelhas-rainhas deixam de forragear assim que as operárias assumem essa função. Até então, hipóteses envolviam alterações hormonais, diferenças metabólicas ou uma estratégia evolutiva conhecida como especialização de tarefas, na qual a rainha concentra toda sua energia na postura de ovos.
No entanto, pesquisadores decidiram observar um detalhe muitas vezes ignorado: a anatomia da língua. Para isso, o time analisou as partes bucais de 99 abelhas da espécie buff-tailed bumblebee, sendo 32 rainhas e 67 operárias, utilizando microscópios de alta potência.
Os resultados revelaram que as línguas variam entre 4 e 10 milímetros de comprimento e são cobertas por minúsculos pelos. Apesar de as línguas das rainhas serem geralmente mais longas, elas apresentam menos pelos do que as das operárias. Essa diferença, embora sutil, tem impacto direto na forma como o néctar é absorvido.
Enquanto as operárias possuem uma densa camada de pelos, criando pequenos espaços que facilitam a sucção do líquido, as rainhas apresentam espaçamentos maiores entre esses pelos, o que reduz a eficiência na coleta. Dessa forma, mesmo sendo maiores, elas acabam sendo menos produtivas ao se alimentar.
Capilaridade: o fenômeno físico que favorece as operárias

Para entender melhor esse mecanismo, os cientistas gravaram vídeos em alta velocidade das abelhas sugando néctar artificial em laboratório. As imagens mostraram que as operárias conseguem absorver o líquido com muito mais rapidez e constância.
Isso acontece graças a um princípio físico conhecido como ação capilar. Esse fenômeno ocorre quando as moléculas do líquido são mais atraídas pelas superfícies sólidas — no caso, os pelos da língua — do que entre si, fazendo o fluido “subir” e preencher os pequenos espaços disponíveis.
Segundo Patrick Spicer, engenheiro especializado em dinâmica de fluidos da Universidade de New South Wales, citado anteriormente em entrevista ao New Scientist, “o espaço entre os pelos é capaz de puxar o fluido para dentro graças à ação capilar”.
Como as operárias possuem pelos mais densos e bem distribuídos, criam microcanais extremamente eficientes para sugar néctar, enquanto as rainhas, com menos pelos, perdem parte dessa capacidade. Esse detalhe técnico ajuda a explicar por que as rainhas são menos eficientes fora do ninho.
Testes com diferentes néctares confirmam a limitação das rainhas
Para reforçar os achados, os pesquisadores realizaram testes adicionais, oferecendo às abelhas diferentes tipos de néctar artificial, variando a proporção entre água e açúcar. Os resultados foram consistentes.
As abelhas operárias conseguiram sugar todos os tipos de néctar, desde os mais líquidos até os mais espessos. Já as abelhas-rainhas apresentaram melhor desempenho apenas com néctares mais grossos e menos diluídos, semelhantes a xaropes concentrados.
De acordo com o artigo científico, existe um “descompasso de escala” entre o comprimento da língua das rainhas e o espaçamento dos pelos, o que limita sua capacidade de capturar líquidos com eficiência. Esse fator físico, somado às demandas reprodutivas, contribui para que elas permaneçam no interior do ninho após a formação da colônia.
Conforme apontado pela Science News, em reportagem assinada por Emily Conover, a descoberta ajuda a resolver um mistério antigo da biologia das abelhas e lança luz sobre como pequenas variações anatômicas podem influenciar a organização social dos insetos.
Impactos para a polinização e para a agricultura
Além do valor científico, a descoberta pode ter implicações práticas importantes. Criadores de abelhas, apicultores e agricultores que dependem da polinização podem se beneficiar desse novo entendimento sobre a eficiência alimentar dos insetos.
Segundo Saad Bhamla, biofísico do Georgia Institute of Technology que não participou da pesquisa, compreender como os pelos da língua influenciam a coleta de néctar pode ajudar a prever quais flores são mais adequadas para determinadas espécies de abelhas e como mudanças ambientais afetam sua sobrevivência.
Em um cenário de declínio global de polinizadores, entender até mesmo os detalhes microscópicos do corpo das abelhas se torna essencial. Pequenas limitações físicas, como essa descoberta na língua das rainhas, podem ter efeitos em cascata sobre ecossistemas inteiros e sobre a produção de alimentos em escala global.
Com informações de: Smithsonian Magazine
