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A NASA despeja 1,7 milhão de litros de água em menos de 30 segundos em uma rampa de lançamento, não para apagar fogo, mas para proteger do próprio som da decolagem o foguete mais poderoso da história, em um sistema que esvazia duas piscinas olímpicas por minuto e cria um gêiser de 30 metros mesmo sem foguete presente

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 05/06/2026 às 22:17
Atualizado em 05/06/2026 às 22:22
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Water Deluge System Tested at NASA – Reprodução
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Rampa 39B da NASA despeja 1,7 milhão de litros em menos de 30 segundos para proteger o foguete SLS de uma ameaça invisível mais destrutiva que o fogo

Segundo a NASA, o Sistema de Supressão de Som e Proteção contra Sobrepressão de Ignição, conhecido como IOP/SS, da Rampa de Lançamento 39B no Kennedy Space Center, na Flórida, despeja cerca de 1,7 milhão de litros de água em menos de 30 segundos no Mobile Launcher e na vala de chamas durante a ignição e a decolagem do foguete. No pico, o fluxo chega a 1,1 milhão de galões por minuto, volume suficiente para esvaziar duas piscinas olímpicas em um minuto.

Toda essa água não está ali para apagar fogo. Segundo a NASA, sua função principal é absorver energia acústica e reduzir a sobrepressão criada pelos motores do Space Launch System, o SLS. Os quatro motores RS-25 e os dois propulsores sólidos geram juntos 3,8 milhões de quilogramas de empuxo, e a onda sonora produzida por essa força é poderosa o bastante para danificar o próprio foguete antes mesmo de ele deixar o solo.

Sistema de supressão sonora da NASA usa água para proteger o foguete SLS da sobrepressão

Segundo a NASA, o grande risco no instante da ignição não é apenas a chama, mas a pressão acústica extrema que se espalha a partir da base do foguete. Parte dessa energia sobe diretamente em direção à estrutura do veículo e pode excitar vibrações ressonantes, atingir componentes eletrônicos, rasgar isolamento e deformar elementos estruturais.

A água entra nessa equação porque é um absorvente extraordinariamente eficiente de energia acústica. Quando entra em contato com calor e pressão extremos, uma parte evapora rapidamente, e esse processo converte parte da energia das ondas de pressão em calor, reduzindo a intensidade do impacto que chega ao foguete.

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Essa lógica não é teórica. A própria NASA aprendeu isso de forma dura no primeiro voo do ônibus espacial, quando a energia sonora danificou o veículo e forçou a agência a aperfeiçoar seus sistemas de supressão acústica nas décadas seguintes.

Vala de chamas da Rampa 39B tem 93 mil tijolos e defletor que desvia o calor do SLS

Segundo a NASA, antes mesmo da água entrar em ação, a engenharia da Rampa 39B já trabalha para controlar o calor e a violência da ignição. A vala de chamas é a primeira linha de defesa e foi totalmente reformada para o programa Artemis.

A estrutura tem 137 metros de comprimento e recebeu mais de 93 mil tijolos resistentes ao calor, em três tamanhos diferentes, instalados com argamassa especial e âncoras adesivas.

Esses tijolos foram projetados para suportar temperaturas que podem chegar a 1.200 graus Celsius, nível compatível com o ambiente gerado pela base do SLS nos primeiros segundos de queima.

Rampa 39B da NASA despeja 1,7 milhão de litros em menos de 30 segundos
Foto: Space Insider

Na base da vala, um defletor de chamas redireciona a energia da exaustão para o lado norte, afastando a chama da estrutura do foguete e da própria rampa. Parte da água do sistema é lançada diretamente sobre esse defletor para evitar que o calor acumulado danifique o equipamento durante a ignição.

Como a NASA libera 1,7 milhão de litros em menos de 30 segundos sem usar bombas

Segundo a NASA, o tanque que alimenta o sistema IOP/SS da Rampa 39B fica em uma torre ao lado da plataforma e armazena cerca de 1,5 milhão de litros. O ponto mais impressionante é que o sistema não depende de bombas para a descarga principal.

Toda a água é liberada por pressão gravitacional. O tanque fica elevado o suficiente para que a força da gravidade, sozinha, mova até 1,1 milhão de galões por minuto através das tubulações, válvulas e bicos que alimentam a vala de chamas, o defletor e os pontos de interface do Mobile Launcher.

Rampa 39B da NASA despeja 1,7 milhão de litros em menos de 30 segundos
Rampa 39B da NASA despeja 1,7 milhão de litros em menos de 30 segundos

Durante as reformas para o Artemis, a NASA também substituiu todo o sistema de controle. Mais de 1,3 milhão de pés de cabos de cobre foram removidos e trocados por 300 mil pés de fibra óptica, uma redução de 77% no volume de cabos, com ganho de confiabilidade e menor interferência eletromagnética.

Os novos controles operam com redundância tripla, exigindo concordância entre três sistemas independentes antes da abertura ou fechamento de válvulas.

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Gêiser de 30 metros revelou a força real do sistema da Rampa 39B

Segundo a NASA, os testes de fluxo feitos antes das missões Artemis produziram um efeito visual inesperado que viralizou. Quando o Mobile Launcher não está presente na rampa, parte da água que normalmente seguiria para a torre móvel não encontra conexão e acaba jorrando para cima pelas saídas abertas.

O resultado foi uma coluna d’água que chegou a 30 metros de altura em testes realizados em 2018. Segundo Nick Moss, gerente adjunto do projeto da rampa, o fenômeno aconteceu justamente porque o lançador móvel não estava conectado para receber o fluxo do sistema.

Esse gêiser não representa defeito. Pelo contrário, ele mostra de forma brutal a quantidade de energia hidráulica que o sistema consegue gerar.

Com o foguete presente e todas as conexões encaixadas, essa mesma força é redirecionada para absorver som, resfriar superfícies e proteger um dos veículos mais caros já construídos pela humanidade.

Rampa 39B da NASA carrega quase 60 anos de história desde Apollo 10 até Artemis

Segundo a NASA, a Rampa 39B não foi criada para o programa Artemis. Sua história começou na era Apollo, e o primeiro lançamento a partir dela foi a Apollo 10, em 18 de maio de 1969, missão que serviu de ensaio geral para o pouso lunar da Apollo 11.

A NASA despeja 1,7 milhão de litros de água em menos de um minuto em uma rampa de lançamento
Water Deluge System Tested at NASA – Reprodução

Desde então, a rampa lançou missões da Skylab, a missão conjunta Apollo-Soyuz, 53 voos do ônibus espacial e agora o SLS. Em quase seis décadas, a estrutura atravessou três grandes fases da exploração espacial americana, sempre passando por reformas para acomodar veículos com exigências completamente diferentes.

Para o Artemis, as mudanças foram profundas. Além da vala de chamas reformada e do sistema de água atualizado, a NASA instalou três torres de proteção contra raios de 180 metros, mais altas que o próprio Vehicle Assembly Building, reforçando a adaptação da plataforma ao novo foguete lunar.

Danos no primeiro voo do ônibus espacial explicam por que a NASA investe tanto em supressão acústica

Segundo a NASA, o atual sistema de supressão sonora da Rampa 39B existe porque o risco já se materializou no passado. No primeiro voo do ônibus espacial, em abril de 1981, a missão STS-1 sofreu danos estruturais causados pelas ondas de pressão acústica geradas durante a ignição e os primeiros segundos de voo.

Mais de 16 tiles do sistema de proteção térmica do veículo foram danificados ou perdidos. A investigação concluiu que a energia acústica refletida pela estrutura da rampa e pelo solo havia superado as previsões dos projetistas. Foi esse episódio que acelerou a evolução dos sistemas IOP/SS da agência.

A NASA despeja 1,7 milhão de litros de água em menos de um minuto em uma rampa de lançamento
Water Deluge System Tested at NASA – Reprodução

O sistema atual da Rampa 39B é, portanto, o resultado de quatro décadas de engenharia acumulada. A água que desaparece em vapor durante a ignição não é detalhe cênico da decolagem.

Ela é a barreira que impede que a própria violência sonora do lançamento destrua, em segundos, aquilo que a NASA levou anos e bilhões de dólares para construir.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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