Nos primeiros anos da corrida espacial, 11 voluntários surdos ajudaram cientistas a investigar o enjoo em ambientes extremos, participando de testes com rotação, gravidade reduzida e mar agitado antes de missões tripuladas mais complexas.
Antes de ampliar as missões tripuladas, a NASA precisou investigar um problema físico recorrente em ambientes de movimento extremo: a desorientação e o enjoo causados pela perda das referências normais de equilíbrio.
Para estudar essa reação, a agência espacial dos Estados Unidos contou com 11 homens surdos ligados à então Gallaudet College, hoje Universidade Gallaudet, em Washington, instituição voltada à educação de pessoas surdas.
O grupo ficou conhecido como Gallaudet Eleven.
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Entre 1958 e 1968, esses voluntários participaram de pesquisas associadas à NASA e à Escola de Medicina de Aviação da Marinha dos Estados Unidos.
O foco dos estudos não era a surdez de forma isolada, mas uma condição específica observada na maioria dos participantes: danos no sistema vestibular, estrutura do ouvido interno relacionada ao equilíbrio e à percepção de movimento.
De acordo com a NASA, dez dos 11 homens haviam perdido a audição ainda jovens em razão de meningite espinhal.
A doença também comprometeu o sistema vestibular, o que reduziu ou eliminou a resposta de enjoo que costuma ocorrer quando o corpo é submetido a deslocamentos, rotações ou mudanças bruscas de orientação.
Essa característica fez do grupo uma amostra incomum para pesquisas sobre cinetose e adaptação ao voo espacial.
Como o ouvido interno influencia o enjoo espacial
O enjoo de movimento, também chamado de cinetose, ocorre quando o cérebro recebe informações conflitantes sobre a posição do corpo.
Em um carro, navio ou avião, os olhos podem indicar relativa estabilidade, enquanto o ouvido interno detecta acelerações, curvas, balanços ou alterações de direção.
Essa divergência entre visão e equilíbrio pode provocar náusea, tontura, suor frio e perda de orientação.
No espaço, o desafio ganha outra dimensão, porque a gravidade deixa de funcionar como referência constante para o organismo.
Sem esse parâmetro, o corpo precisa reorganizar a forma como interpreta posição, movimento e equilíbrio.
Para a medicina aeroespacial, compreender esse processo era uma etapa necessária.
Astronautas precisavam operar equipamentos, responder a comandos e cumprir tarefas durante o voo.
Caso o enjoo espacial fosse intenso ou persistente, haveria risco de queda de desempenho em momentos importantes da missão.
Testes da NASA com centrífuga, sala giratória e gravidade reduzida
Os Gallaudet Eleven passaram por experimentos desenhados para medir respostas físicas e perceptivas em situações de aceleração, rotação e alteração do equilíbrio.
Segundo a NASA, os voluntários foram avaliados em centrífugas, salas giratórias, voos parabólicos e testes em embarcação.
Em um dos experimentos mais conhecidos, quatro participantes permaneceram por 12 dias em uma sala circular de aproximadamente 6 metros de diâmetro, que girava continuamente a dez rotações por minuto.
O objetivo era observar como o corpo reagia a uma exposição prolongada a estímulos capazes de causar desorientação em pessoas com o sistema vestibular preservado.
Outro conjunto de testes ocorreu em aeronaves usadas para simular breves períodos de gravidade reduzida.
Nesse tipo de voo, o avião sobe em trajetória acentuada e depois entra em uma curva parabólica, criando por alguns segundos a sensação de flutuação.
A manobra ficou conhecida pelo apelido “Vomit Comet”, expressão associada ao enjoo frequentemente relatado por participantes desses voos.
Também houve um experimento em águas agitadas perto da Nova Escócia, no Canadá.
A proposta era analisar a reação dos voluntários em uma embarcação submetida a movimentos intensos e imprevisíveis.
De acordo com relato divulgado pela NASA, pesquisadores sentiram forte enjoo durante o teste, enquanto os participantes surdos permaneceram sem sintomas relevantes e jogaram cartas durante a viagem.

O que os Gallaudet Eleven mostraram sobre a cinetose
As pesquisas com os Gallaudet Eleven ajudaram a demonstrar a relação entre o sistema vestibular e a cinetose.
Como os voluntários não reagiam da mesma forma que pessoas com esse sistema preservado, os cientistas puderam comparar respostas fisiológicas e perceptivas diante de estímulos extremos de movimento.
Segundo a NASA, os experimentos contribuíram para ampliar o entendimento sobre como os sistemas sensoriais do corpo funcionam quando as referências gravitacionais habituais não estão disponíveis.
Essa informação era relevante tanto para o treinamento de astronautas quanto para o desenvolvimento de protocolos de adaptação ao ambiente espacial.
Os resultados não eliminaram o enjoo espacial, mas ajudaram a tratá-lo como uma resposta fisiológica ligada a mecanismos identificáveis.
Com isso, pesquisadores puderam estudar formas de preparo, acompanhamento e adaptação para tripulações expostas a microgravidade, aceleração e mudanças rápidas de orientação.
A participação dos voluntários foi mais ampla do que um único teste em centrífuga.
Ao longo de cerca de uma década, eles integraram estudos sobre equilíbrio, movimento, percepção corporal e resistência a ambientes incomuns.
A Universidade Gallaudet também registra a contribuição do grupo para pesquisas sobre enjoo de movimento e adaptação a condições associadas ao voo espacial.
Por que essa pesquisa ainda aparece na história da exploração espacial
Nenhum dos 11 homens chegou a viajar ao espaço.
Ainda assim, os dados obtidos a partir dos experimentos ajudaram pesquisadores a compreender melhor como o organismo responde quando perde parte das referências usadas para manter o equilíbrio.
Em uma fase inicial da exploração espacial, esse tipo de informação era necessário para reduzir incertezas sobre a permanência humana fora da Terra.
A história dos Gallaudet Eleven voltou a receber atenção em arquivos, exposições e materiais institucionais da NASA e da Gallaudet University.
Em 2017, a universidade apresentou a exposição “Deaf Difference + Space Survival”, dedicada à participação dos voluntários nos estudos ligados à adaptação humana ao voo espacial.
O tema também passou a circular novamente em meio ao avanço de missões tripuladas fora da órbita baixa da Terra.
A Artemis II, lançada em 1º de abril de 2026, levou Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen em uma viagem de quase dez dias ao redor da Lua.
A cápsula Orion retornou em 10 de abril, com amerissagem no Oceano Pacífico, perto de San Diego, segundo a NASA.
Mesmo com mudanças tecnológicas em foguetes, cápsulas e sistemas de navegação, o corpo humano continua sendo objeto de estudo em missões espaciais.
A adaptação à microgravidade, a prevenção de náuseas e a manutenção do desempenho físico e cognitivo seguem como temas de pesquisa em programas tripulados.
No caso dos Gallaudet Eleven, uma condição corporal específica permitiu observar o enjoo de movimento por uma perspectiva diferente.
A ausência de uma resposta vestibular típica ajudou cientistas a comparar reações e a separar fatores envolvidos na cinetose.
O episódio permanece como um exemplo de como pesquisas com voluntários fora do perfil considerado comum contribuíram para a preparação de astronautas.


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