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A NASA colocou 11 homens surdos em centrífugas, aviões de queda livre e testes extremos para resolver um dos maiores problemas das viagens espaciais

Escrito por Ana Alice
Publicado em 02/05/2026 às 23:05
Assista o vídeoNASA estudou 11 homens surdos para entender o enjoo espacial e como o sistema vestibular reage em missões espaciais tripuladas.
NASA estudou 11 homens surdos para entender o enjoo espacial e como o sistema vestibular reage em missões espaciais tripuladas.
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Nos primeiros anos da corrida espacial, 11 voluntários surdos ajudaram cientistas a investigar o enjoo em ambientes extremos, participando de testes com rotação, gravidade reduzida e mar agitado antes de missões tripuladas mais complexas.

Antes de ampliar as missões tripuladas, a NASA precisou investigar um problema físico recorrente em ambientes de movimento extremo: a desorientação e o enjoo causados pela perda das referências normais de equilíbrio.

Para estudar essa reação, a agência espacial dos Estados Unidos contou com 11 homens surdos ligados à então Gallaudet College, hoje Universidade Gallaudet, em Washington, instituição voltada à educação de pessoas surdas.

O grupo ficou conhecido como Gallaudet Eleven.

Entre 1958 e 1968, esses voluntários participaram de pesquisas associadas à NASA e à Escola de Medicina de Aviação da Marinha dos Estados Unidos.

O foco dos estudos não era a surdez de forma isolada, mas uma condição específica observada na maioria dos participantes: danos no sistema vestibular, estrutura do ouvido interno relacionada ao equilíbrio e à percepção de movimento.

De acordo com a NASA, dez dos 11 homens haviam perdido a audição ainda jovens em razão de meningite espinhal.

A doença também comprometeu o sistema vestibular, o que reduziu ou eliminou a resposta de enjoo que costuma ocorrer quando o corpo é submetido a deslocamentos, rotações ou mudanças bruscas de orientação.

Essa característica fez do grupo uma amostra incomum para pesquisas sobre cinetose e adaptação ao voo espacial.

Como o ouvido interno influencia o enjoo espacial

O enjoo de movimento, também chamado de cinetose, ocorre quando o cérebro recebe informações conflitantes sobre a posição do corpo.

Em um carro, navio ou avião, os olhos podem indicar relativa estabilidade, enquanto o ouvido interno detecta acelerações, curvas, balanços ou alterações de direção.

Essa divergência entre visão e equilíbrio pode provocar náusea, tontura, suor frio e perda de orientação.

No espaço, o desafio ganha outra dimensão, porque a gravidade deixa de funcionar como referência constante para o organismo.

Sem esse parâmetro, o corpo precisa reorganizar a forma como interpreta posição, movimento e equilíbrio.

Para a medicina aeroespacial, compreender esse processo era uma etapa necessária.

Astronautas precisavam operar equipamentos, responder a comandos e cumprir tarefas durante o voo.

Caso o enjoo espacial fosse intenso ou persistente, haveria risco de queda de desempenho em momentos importantes da missão.

Testes da NASA com centrífuga, sala giratória e gravidade reduzida

Os Gallaudet Eleven passaram por experimentos desenhados para medir respostas físicas e perceptivas em situações de aceleração, rotação e alteração do equilíbrio.

Segundo a NASA, os voluntários foram avaliados em centrífugas, salas giratórias, voos parabólicos e testes em embarcação.

Em um dos experimentos mais conhecidos, quatro participantes permaneceram por 12 dias em uma sala circular de aproximadamente 6 metros de diâmetro, que girava continuamente a dez rotações por minuto.

O objetivo era observar como o corpo reagia a uma exposição prolongada a estímulos capazes de causar desorientação em pessoas com o sistema vestibular preservado.

Outro conjunto de testes ocorreu em aeronaves usadas para simular breves períodos de gravidade reduzida.

Nesse tipo de voo, o avião sobe em trajetória acentuada e depois entra em uma curva parabólica, criando por alguns segundos a sensação de flutuação.

A manobra ficou conhecida pelo apelido “Vomit Comet”, expressão associada ao enjoo frequentemente relatado por participantes desses voos.

Também houve um experimento em águas agitadas perto da Nova Escócia, no Canadá.

A proposta era analisar a reação dos voluntários em uma embarcação submetida a movimentos intensos e imprevisíveis.

De acordo com relato divulgado pela NASA, pesquisadores sentiram forte enjoo durante o teste, enquanto os participantes surdos permaneceram sem sintomas relevantes e jogaram cartas durante a viagem.

Imagem: Reprodução/Nasa
Imagem: Reprodução/Nasa

O que os Gallaudet Eleven mostraram sobre a cinetose

As pesquisas com os Gallaudet Eleven ajudaram a demonstrar a relação entre o sistema vestibular e a cinetose.

Como os voluntários não reagiam da mesma forma que pessoas com esse sistema preservado, os cientistas puderam comparar respostas fisiológicas e perceptivas diante de estímulos extremos de movimento.

Segundo a NASA, os experimentos contribuíram para ampliar o entendimento sobre como os sistemas sensoriais do corpo funcionam quando as referências gravitacionais habituais não estão disponíveis.

Essa informação era relevante tanto para o treinamento de astronautas quanto para o desenvolvimento de protocolos de adaptação ao ambiente espacial.

Os resultados não eliminaram o enjoo espacial, mas ajudaram a tratá-lo como uma resposta fisiológica ligada a mecanismos identificáveis.

Com isso, pesquisadores puderam estudar formas de preparo, acompanhamento e adaptação para tripulações expostas a microgravidade, aceleração e mudanças rápidas de orientação.

A participação dos voluntários foi mais ampla do que um único teste em centrífuga.

Ao longo de cerca de uma década, eles integraram estudos sobre equilíbrio, movimento, percepção corporal e resistência a ambientes incomuns.

A Universidade Gallaudet também registra a contribuição do grupo para pesquisas sobre enjoo de movimento e adaptação a condições associadas ao voo espacial.

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Por que essa pesquisa ainda aparece na história da exploração espacial

Nenhum dos 11 homens chegou a viajar ao espaço.

Ainda assim, os dados obtidos a partir dos experimentos ajudaram pesquisadores a compreender melhor como o organismo responde quando perde parte das referências usadas para manter o equilíbrio.

Em uma fase inicial da exploração espacial, esse tipo de informação era necessário para reduzir incertezas sobre a permanência humana fora da Terra.

A história dos Gallaudet Eleven voltou a receber atenção em arquivos, exposições e materiais institucionais da NASA e da Gallaudet University.

Em 2017, a universidade apresentou a exposição “Deaf Difference + Space Survival”, dedicada à participação dos voluntários nos estudos ligados à adaptação humana ao voo espacial.

O tema também passou a circular novamente em meio ao avanço de missões tripuladas fora da órbita baixa da Terra.

A Artemis II, lançada em 1º de abril de 2026, levou Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen em uma viagem de quase dez dias ao redor da Lua.

A cápsula Orion retornou em 10 de abril, com amerissagem no Oceano Pacífico, perto de San Diego, segundo a NASA.

Mesmo com mudanças tecnológicas em foguetes, cápsulas e sistemas de navegação, o corpo humano continua sendo objeto de estudo em missões espaciais.

A adaptação à microgravidade, a prevenção de náuseas e a manutenção do desempenho físico e cognitivo seguem como temas de pesquisa em programas tripulados.

No caso dos Gallaudet Eleven, uma condição corporal específica permitiu observar o enjoo de movimento por uma perspectiva diferente.

A ausência de uma resposta vestibular típica ajudou cientistas a comparar reações e a separar fatores envolvidos na cinetose.

O episódio permanece como um exemplo de como pesquisas com voluntários fora do perfil considerado comum contribuíram para a preparação de astronautas.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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