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A mesma universidade que construiu o primeiro computador do mundo há 80 anos acaba de criar uma partícula que é metade luz, metade matéria, e que pode deixar a inteligência artificial muito mais rápida gastando uma fração da energia de hoje

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/05/2026 às 13:24
Atualizado em 22/05/2026 às 13:26
Cientistas da Universidade da Pensilvânia criaram uma partícula de luz e matéria que pode deixar a inteligência artificial mais rápida e econômica.
Cientistas da Universidade da Pensilvânia criaram uma partícula de luz e matéria que pode deixar a inteligência artificial mais rápida e econômica.
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Por enquanto funciona só na bancada do laboratório, e os próprios cientistas falam em “se a gente conseguir aumentar a escala”. Mas a ideia é trocar o elétron, que esquenta e desperdiça, por luz fazendo conta. E o tanto de energia que o experimento gastou é de arrepiar de tão pequeno.

A universidade é a da Pensilvânia, nos Estados Unidos, a mesma que ergueu o ENIAC, o primeiro computador eletrônico de uso geral, nos anos 1940. E a tal partícula é uma quase-partícula híbrida de luz e matéria chamada éxciton-polariton. O estudo saiu na revista científica Physical Review Letters em 8 de abril de 2026.

Segundo o portal de divulgação científica ScienceDaily, em 18 de maio de 2026, o time conseguiu fazer a luz ligar e desligar sinais, a operação mais básica de um computador, gastando só cerca de 4 femtojoules, ou 4 quatrilhonésimos de joule. É menos energia do que a necessária para acender de leve um LED minúsculo.

O problema que trava a luz nos computadores

Para entender o tamanho disso, vale saber por que ninguém ainda fez um computador só de luz. Os chips de hoje funcionam movendo elétrons, e o elétron tem carga. Carga gera calor, encontra resistência e fica cada vez mais difícil de controlar conforme o chip enche de transistores. É por isso que computador esquenta e bebe energia.

A luz seria a candidata perfeita para resolver parte disso. Os fótons, as partículas de luz, não têm carga nem massa de repouso, então viajam rápido e quase sem perda, e por isso já dominam as telecomunicações. O problema é o avesso dessa vantagem: como a luz quase não interage com nada, ela é péssima justamente na tarefa de ligar e desligar sinais, o liga-desliga que todo cálculo precisa. Em resumo, a luz é ótima para carregar informação e ruim para tomar decisão.

A partícula que junta o melhor dos dois

Foi aí que a equipe, liderada pelo físico Bo Zhen, inventou um meio-termo. Eles acoplaram fótons a elétrons dentro de um material semicondutor finíssimo, da espessura de poucos átomos, colocado numa cavidade nanométrica. Dessa mistura nasce a quase-partícula, o éxciton-polariton, que herda a velocidade da luz e, ao mesmo tempo, a capacidade da matéria de interagir.

Com essa partícula de luz e matéria, a luz finalmente passou a conseguir chavear sinais sozinha, sem precisar virar eletricidade no meio do caminho. E gastando aqueles 4 femtojoules, um valor ridículo de tão baixo. É a primeira vez que uma partícula de luz e matéria interage forte o bastante para fazer esse tipo de conta de forma tão econômica.

Por que isso interessa à inteligência artificial

Aqui entra o motivo de o assunto importar agora. Muitos chips ópticos experimentais já fazem certas contas com luz em altíssima velocidade. O gargalo aparece nas etapas chamadas não lineares, as de decisão, em que esses sistemas precisam converter a luz de volta em sinal eletrônico, mais lento e mais sedento de energia. Cada ida e volta dessas come a vantagem da computação óptica.

A nova partícula promete pular essa conversão e manter tudo em luz do começo ao fim. Para a inteligência artificial, que hoje engole quantidades absurdas de eletricidade em galpões enormes de servidores, isso é enorme. Reduzir o consumo de energia dos grandes sistemas de inteligência artificial é uma das maiores dores do setor, e a computação óptica entra exatamente nesse ponto. Os pesquisadores citam ainda usos como processar direto a luz que vem de uma câmera, sem ficar traduzindo sinal o tempo todo, e até apoiar funções básicas de computação quântica no chip.

O recado honesto: ainda é bancada, não é chip de loja

Agora o pé no chão, porque entusiasmo demais atrapalha. Isso é uma prova de conceito de laboratório, não um produto. Os números de velocidade que circulam, como cálculos até mil vezes mais rápidos, vêm de condições controladas de bancada, e a própria equipe condiciona tudo a conseguir aumentar a escala. Entre um experimento bonito e um chip dentro do seu computador costuma haver anos de trabalho, e nem toda promessa de laboratório chega lá.

Mesmo assim, a porta que se abre é real. Há 80 anos a Universidade da Pensilvânia inaugurou a era do elétron com o ENIAC, e agora aponta para um caminho que talvez vá além dele. Se a conta do consumo de energia se confirmar fora do laboratório, a próxima virada da inteligência artificial pode vir não de mais elétrons, mas de luz. E faz um certo sentido poético que o aceno para esse futuro venha justo da Universidade da Pensilvânia, de onde o passado da computação também partiu.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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