1. Início
  2. Curiosidades
  3. A Guerra Fria foi tão tensa que os EUA testaram aviões contra bombas nucleares em megatorre de madeira sem um único parafuso ou prego
Faça um comentário 4 min de leitura

A Guerra Fria foi tão tensa que os EUA testaram aviões contra bombas nucleares em megatorre de madeira sem um único parafuso ou prego

Imagem de perfil do autor Romário Pereira de Carvalho
Escrito por Romário Pereira de Carvalho Publicado em 02/08/2025 às 15:36 Atualizado em 02/08/2025 às 23:45
Bombas nucleares, EUA, Guerra Fria, União Soviética
Imagem: Wikimedea Commons
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Durante a Guerra Fria, EUA e URSS construíram estruturas únicas para testar armas e aviões contra efeitos extremos de explosões nucleares

Durante a Guerra Fria, tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética criaram estruturas impressionantes para testar os limites de seus equipamentos militares. De um lado, os soviéticos ergueram o UT-5000, um túnel usado para testar veículos em situações de destruição nuclear.

Do outro, os americanos construíram o ATLAS-I, uma estrutura de madeira sem nenhum elemento metálico, com o objetivo de avaliar se suas aeronaves resistiriam ao pulso eletromagnético gerado por uma bomba nuclear.

A maior estrutura de madeira do mundo

O ATLAS-I foi construído entre 1972 e 1980, nos arredores da Base Aérea de Kirtland, em Albuquerque, no estado do Novo México.

O projeto recebeu o nome completo de Simulador de Aeronaves de Transmissão do Laboratório de Armas da Força Aérea.

Mesmo após o encerramento das operações em 1991, a estrutura continua de pé e pode ser localizada por imagens de satélite.

Com 180 metros de altura e 305 metros de comprimento, o ATLAS-I é comparável a um prédio de 12 andares.

A maior peça da instalação é a plataforma onde os aviões eram posicionados para os testes. Tudo foi feito em madeira, sem uso de pregos ou parafusos metálicos, o que já o torna uma estrutura única no mundo.

Por que não usar metais no ATLAS-I?

A escolha da madeira seca e tratada não foi apenas estética ou econômica. O principal motivo era técnico: qualquer peça metálica poderia distorcer os resultados dos testes com pulsos eletromagnéticos, também conhecidos como PEMs.

Isso porque metais interferem na propagação dessas ondas, o que tornaria impossível saber se o efeito do pulso estava atingindo o avião ou sendo alterado pela estrutura.

Portanto, os engenheiros precisaram evitar até mesmo colas e vernizes que contivessem componentes condutores.

Toda a estrutura foi construída com madeira laminada e colada com materiais especiais, enquanto os elementos de fixação foram substituídos por parafusos de fibra.

A localização em uma região desértica com baixa umidade também ajudou, já que madeira úmida pode conduzir eletricidade.

Testes com aviões militares

Entre os anos de 1980 e 1991, o ATLAS-I foi usado para testar a resistência de diferentes aviões da Marinha e da Força Aérea dos EUA.

Entre os modelos submetidos aos pulsos eletromagnéticos estavam os enormes bombardeiros B-52 e B-1B.

O objetivo era simular as condições de uma detonação nuclear e verificar se os sistemas eletrônicos dos aviões continuariam funcionando.

Para isso, os militares instalaram dois geradores Marx projetados pelos Laboratórios Maxwell. Eles eram posicionados sobre pedestais de madeira e apontados para a plataforma onde ficavam as aeronaves.

Cada gerador tinha 50 bandejas com capacitores e interruptores especiais, capazes de gerar até 5 megavolts cada.

A força de um pulso eletromagnético

Os geradores criavam um pulso combinado de 10 megavolts e até 200 gigawatts de potência eletromagnética.

Esse valor era suficiente para simular o pulso gerado por uma bomba nuclear real, especialmente na fase inicial da explosão, quando a radiação libera uma onda poderosa em frações de segundo.

Essa é justamente a fase que representa maior risco para os sistemas eletrônicos dos aviões.

O mais importante é que esses testes podiam ser realizados sem o uso de uma bomba real, o que evitava riscos à população e custos exorbitantes.

Para comparação, o teste Trinity, conduzido por Oppenheimer na Segunda Guerra Mundial, custou até US$ 20 milhões na época.

Trestle e Máquina Z

O sistema completo foi batizado de Trestle. Ele também inspirou o desenvolvimento da chamada Máquina Z, um equipamento ainda mais potente.

Capaz de gerar pulsos de até 40 megavolts e 50 mil gigawatts, a Máquina Z não foi usada diretamente no ATLAS-I, mas tem sido aplicada em pesquisas sobre fusão nuclear, raios X de alta intensidade e testes com armas modernas.

Essa evolução mostra como o Trestle serviu de base para avanços importantes na ciência e na tecnologia militar, mesmo após o fim da Guerra Fria.

Abandono e preservação do ATLAS-I

Com a dissolução da União Soviética em 1991, os EUA encerraram os testes no ATLAS-I. A estrutura nunca foi desmontada e permanece no deserto, próxima à base militar onde foi construída.

Apesar do abandono, ela chama a atenção por seu tamanho e complexidade.

Hoje, o local é considerado de alto risco para incêndios, devido ao grande volume de madeira seca exposta ao sol do deserto.

Por isso, desde 2011, existe uma mobilização para transformar o ATLAS-I em monumento nacional, garantindo sua preservação.

O processo, no entanto, é lento. A estrutura está dentro de uma área militar restrita, o que dificulta ações de proteção e restauração.

Mesmo assim, a história do ATLAS-I permanece viva como um símbolo de engenharia extrema e paranoia nuclear em um dos períodos mais tensos do século 20.

As informações desta reportagem foram baseadas em registros técnicos e históricos de instituições reconhecidas:

  • Wikipedia – ATLAS-I: página dedicada à estrutura construída pela Força Aérea dos Estados Unidos, com dados sobre os testes realizados durante a Guerra Fria, uso dos geradores Marx e os motivos para a construção em madeira.
  • SAH Archipedia – Air Force Weapons Lab Transmission-Line Aircraft Simulator (ATLAS-I): repositório de arquitetura e engenharia histórica que detalha as dimensões, materiais usados e importância estratégica da estrutura.
Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Romário Pereira de Carvalho

Já publiquei milhares de matérias em portais reconhecidos, sempre com foco em conteúdo informativo, direto e com valor para o leitor. Fique à vontade para enviar sugestões ou perguntas

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x