A Finlândia possui 50.500 abrigos antibombas espalhados pelo país, sendo 48 de grande porte e 5.500 menores apenas em Helsinque. O maior deles, o Merihaka, tem 71 mil metros cúbicos, acomoda 6 mil pessoas a 25 metros de profundidade e funciona como espaço de uso duplo: academia, parque infantil e campos de jogos. Cerca de 800 delegações estrangeiras já visitaram a instalação, incluindo os presidentes da Ucrânia, Polônia e a presidente da Comissão Europeia.
A Finlândia construiu debaixo de suas cidades uma rede de abrigos antibombas que funciona como infraestrutura civil em tempos de paz e como proteção massiva em caso de emergência. O abrigo Merihaka, em Helsinque, é o maior do país: uma caverna escavada na rocha com 71 mil metros cúbicos de volume, equivalente a um prédio de escritórios de sete andares, localizada a 25 metros abaixo da superfície. No dia a dia, o espaço abriga campos esportivos, uma academia de ginástica e um parque infantil que são usados pela população. Segundo a CNN Brasil, em caso de emergência, pode ser adaptado com depósitos de beliches, tanques de água e banheiros portáteis em 72 horas.
O que transformou a Finlândia em referência mundial nessa área não é apenas a quantidade de abrigos, mas o conceito de uso duplo que o país aperfeiçoou ao longo de décadas. A construção de abrigos antibombas é obrigatória na Finlândia para todos os edifícios residenciais e comerciais com mais de 1.200 metros quadrados de área construída. Essa exigência, que nasceu da experiência traumática com a tentativa de invasão soviética durante a Segunda Guerra Mundial, criou uma indústria inteira de empresas especializadas em portas à prova de radiação, sistemas de ventilação, energia de emergência, redes de comunicação e esgoto subterrâneo.
O Merihaka e os números que impressionam o mundo

O abrigo civil Merihaka foi construído em 2003 e é hoje a principal vitrine da Finlândia para delegações estrangeiras que querem entender como um país de 5,5 milhões de habitantes conseguiu construir proteção subterrânea para toda a população. O espaço acomoda 6 mil pessoas e está entre os 48 grandes abrigos e 5.500 menores que compõem a rede de proteção civil apenas de Helsinque.
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No total, a Finlândia possui 50.500 abrigos distribuídos por todo o território nacional, com capacidade combinada para abrigar virtualmente todos os seus habitantes. O modelo finlandês atrai atenção porque os abrigos não são espaços mortos que ficam trancados esperando uma catástrofe. São centros esportivos, estacionamentos, depósitos e áreas de lazer que geram valor para a comunidade todos os dias e podem ser convertidos em refúgios em questão de horas. O conceito de uso duplo, marca registrada da engenharia finlandesa, é o que transforma abrigos de proteção em infraestrutura urbana produtiva.
As 800 delegações que vieram aprender com a Finlândia

Cerca de 800 delegações estrangeiras já visitaram o Merihaka, e o interesse disparou após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e os conflitos no Oriente Médio. Os presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e da Polônia, Karol Nawrocki, além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, estiveram pessoalmente no abrigo nos últimos anos.
Prefeitos de cidades ucranianas em visita a Helsinque fotografaram o interior da caverna com espanto, observando um espaço que poderia proteger milhares de pessoas enquanto seus habitantes viviam sob ataques diários de drones e mísseis. Tetiana Grunska, vice-chefe da Administração Militar de Balakliia, na Ucrânia, declarou que a delegação veio adquirir a experiência disponível na Finlândia e que o sonho é construir um complexo esportivo subterrâneo como o de Helsinque.
A indústria de abrigos que a Finlândia exporta

imagem: Alessandro Rampazzo/ AFP
A expertise da Finlândia em abrigos subterrâneos gerou uma indústria de exportação que está em plena expansão. O Resilience Center Finland, órgão de exportação criado em março de 2026, informou que as exportações finlandesas de segurança e defesa já atingem dezenas de bilhões de euros, com vendas de abrigos somando cerca de uma dezena de milhões de euros e apresentando potencial de crescimento significativo.

Ilkka Kivisaari, CEO do grupo Verona Shelters, de propriedade finlandesa-suíça, afirmou que em dois anos a empresa não precisará competir acirradamente por contratos porque a demanda superará a capacidade de produção. A alta procura vem de países como Polônia e Alemanha, além de grande interesse do Oriente Médio. A empresa Temet, com 70 anos no mercado, espera que 80% de suas vendas nos próximos anos venham de exportações e já está construindo uma fábrica nos Emirados Árabes Unidos para atender a demanda do Golfo.
O interesse do Golfo e a guerra que acelerou tudo
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã ampliou dramaticamente o interesse por abrigos antibombas no Oriente Médio. Juha Simola, CEO do grupo Temet, revelou que recebeu um telefonema urgente de Abu Dhabi pedindo que viajasse imediatamente para discutir projetos. A Saudi Aramco, maior exportadora de petróleo do mundo, também solicitou informações e demonstrações tecnológicas de abrigos finlandeses.
A Finlândia se tornou a referência natural porque combina três fatores que nenhum outro país oferece simultaneamente: décadas de experiência em construção subterrânea de uso duplo, uma indústria madura de fornecedores especializados e um modelo regulatório que obriga a construção de abrigos em todos os edifícios de porte significativo. O custo de incluir um abrigo em um novo prédio de apartamentos na Finlândia varia entre 1,5% e 4% do custo total da construção, segundo Kivisaari.
A Polônia que reconstrói do zero e a Ucrânia que busca equilíbrio
A Polônia destinou 5,8 bilhões de zlotys, cerca de R$ 7,97 bilhões, para reconstruir suas instalações de defesa coletiva em 2025 e 2026. Robert Klonowski, vice-diretor do Ministério do Interior polonês, admitiu que a situação era crítica: o último abrigo havia sido construído em meados dos anos 1990, e durante 30 anos nada foi feito.
A Ucrânia e a Polônia já introduziram leis que tornam obrigatória a construção de abrigos em certos edifícios novos, seguindo o modelo finlandês. Mas a experiência ucraniana revelou um efeito colateral: investidores privados cancelaram projetos por causa do aumento nos custos. A Finlândia, que convive com essa exigência há décadas, absorveu o custo como parte normal da construção. Para países que começam do zero, o desafio é encontrar o equilíbrio entre segurança e viabilidade econômica, adotando o conceito de uso duplo que a Finlândia domina.
Você sabia que a Finlândia tem academias, parques infantis e campos esportivos a 25 metros debaixo da terra, prontos para virar abrigos antibombas em 72 horas? Acha que o Brasil deveria investir em proteção civil subterrânea ou isso é preocupação exclusiva de países em zona de guerra? Conta nos comentários.


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