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A cidade onde terremotos não vêm da natureza e casas precisam ser reforçadas por causa de um campo de gás

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 29/12/2025 às 00:52
Atualizado em 29/12/2025 às 01:27
Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.
Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.
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Terremotos induzidos por extração de gás mudaram regras de segurança e engenharia no norte dos Países Baixos, com inspeções, reforços e decisões nacionais sobre energia e moradia, em uma região onde tremores passaram a ser fator permanente no cotidiano.

Na cidade de Groningen e no entorno da província homônima, no norte dos Países Baixos, tremores de terra passaram a ser tratados como tema de segurança pública, engenharia e política habitacional.

A particularidade é que os abalos que mudaram a rotina local não são associados a uma faixa clássica de encontro de placas tectônicas, e sim à exploração do campo de gás de Groningen, descoberto em 1959 e explorado comercialmente a partir dos anos 1960.

Ao longo do tempo, terremotos induzidos pela atividade de extração deixaram de ser vistos apenas como um problema de rachaduras e passaram a entrar no cálculo de decisões nacionais sobre energia, moradia e estabilidade das construções.

Terremotos induzidos registrados desde 1991

Registros técnicos indicam que a sismicidade induzida na área começou a ser detectada em 1991, décadas depois de o campo entrar em operação.

Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.
Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.

Por muitos anos, a discussão pública se concentrou em reparar danos e pagar compensações, com moradores relatando fissuras, trincas e problemas estruturais em imóveis.

Esse enquadramento começou a mudar após o terremoto de Huizinge, em 16 de agosto de 2012, descrito por órgãos públicos como o mais forte ligado à extração de gás observado no país até então.

O episódio elevou o nível de preocupação, ampliou a percepção de risco e tornou mais difícil sustentar que os tremores seriam apenas uma “questão de danos” sem impacto na segurança.

Relatório do Conselho Holandês de Segurança e mudança de abordagem

A reavaliação ganhou forma em relatórios oficiais.

Em fevereiro de 2015, o Conselho Holandês de Segurança publicou uma investigação sobre o processo decisório envolvendo a exploração do campo de Groningen entre 1959 e 2014.

A investigação registrou que, até o início de 2013, a segurança dos cidadãos diante de terremotos induzidos praticamente não teve influência nas decisões sobre a exploração do campo.

De acordo com o órgão, os tremores eram tratados como um risco de danos limitados que poderia ser compensado, e não como um risco de segurança pública, apesar das incertezas científicas e do aumento da preocupação na região após 2012.

O próprio relatório descreve que a confiança de moradores na segurança da exploração e nas instituições envolvidas se deteriorou ao longo do período analisado.

Comissão parlamentar e o relatório “Groningers before Gas”

O tema entrou de vez no debate parlamentar.

Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.
Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.

Em 24 de fevereiro de 2023, a Câmara dos Representantes publicou as conclusões e recomendações de uma comissão parlamentar de inquérito no relatório “Groningers before Gas”.

O documento descreve a evolução do problema após o terremoto de 2012 e afirma que os interesses dos moradores de Groningen foram sistematicamente negligenciados ao longo do período analisado.

O relatório também registra que a discussão sobre reduzir a extração entrou na agenda política em 2013, mas que a extração alcançou níveis recordes naquele ano, o que intensificou o conflito entre argumentos de segurança energética e as preocupações com segurança e danos na província.

Tremores em Zeerijp e Westerwijtwerd e a escalada de pressão

A linha do tempo citada em documentos públicos também inclui tremores associados a localidades como Zeerijp, em 2018, e Westerwijtwerd, em 2019, ambos com magnitude registrada na casa de 3,4 e apontados no relatório parlamentar como marcos de uma escalada de pressão por medidas mais duras.

Para quem vive na província, a repetição de eventos reforçou a sensação de que o risco não era pontual ou restrito a um único vilarejo.

A cidade de Groningen, como principal centro urbano local, concentra serviços, universidades e infraestrutura regional, e a discussão sobre danos, inspeções e obras passou a afetar também a dinâmica do cotidiano e do mercado imobiliário.

Redução da extração e fechamento do campo de Groningen

Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.
Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.

A política de extração foi sendo reduzida em etapas até chegar ao encerramento da produção regular.

Em 1º de outubro de 2023, a extração normal no campo foi interrompida após anos de cortes anunciados como resposta à atividade sísmica associada à exploração.

Em 16 de abril de 2024, o Senado holandês aprovou uma lei para fechar permanentemente o campo, estabelecendo 1º de outubro de 2024 como prazo para o encerramento completo, conforme noticiado por agências internacionais.

Esses relatos também descrevem que o campo é operado pela empresa NAM, vinculada a Shell e ExxonMobil, e que o encerramento foi apresentado como medida para reduzir riscos sísmicos e a incerteza prolongada para moradores da região.

Reforço de casas e padrão de segurança na zona afetada

O encerramento da produção, porém, não elimina automaticamente o problema mais concreto para a população: adequar construções existentes a padrões de segurança.

A Holanda, de modo geral, não é conhecida por terremotos tectônicos frequentes, e grande parte do parque imobiliário de Groningen foi erguida sem parâmetros típicos de regiões sísmicas.

Quando um imóvel é avaliado e considerado abaixo do padrão de segurança definido para a zona afetada, a resposta pública envolve inspeções, análises técnicas e a definição de intervenções compatíveis com o nível de risco e com as características da construção.

Na prática, isso significa que o terremoto induzido deixa de ser apenas um dado “do clima” ou “da natureza” e se transforma em variável permanente na engenharia aplicada a moradias já existentes.

NCG e a operação de reforço estrutural

A coordenação dessa operação aparece em estruturas criadas para lidar com o problema.

O National Coordinator for Groningen, conhecido pela sigla NCG, descreve como missão reforçar casas e outros edifícios para que seja possível viver, trabalhar e estudar com segurança na zona de terremotos, em cooperação com municípios, com a província e com o governo central.

Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.
Em Groningen, terremotos induzidos pela extração de gás mudaram regras de segurança e levaram ao reforço de casas e prédios na região.

Em registros públicos do governo holandês sobre procedimentos usados no programa, consta que, quando uma casa não atende ao padrão, pode ser recomendado um “cenário de reforço” que considera elementos como custo e viabilidade, incluindo opções que vão de reforço estrutural à demolição e reconstrução em situações específicas.

Esse desenho institucional ajuda a explicar por que o tema se tornou, ao mesmo tempo, técnico e cotidiano: não se trata apenas de monitorar tremores, mas de transformar avaliações em obras concretas.

Impacto no cotidiano e na relação com instituições

Para a população local, o impacto costuma se desdobrar em etapas que vão além do dano visível.

Há o momento do tremor e do surgimento de fissuras; depois, perícias e classificações; em seguida, obras que podem exigir ajustes de rotina, realocação temporária e acompanhamento prolongado.

A investigação do Conselho Holandês de Segurança aponta que, por anos, os terremotos foram encarados como questão de dano a ser compensado, e que a passagem para uma discussão de segurança afetou a relação entre moradores, o operador do campo e o governo, com desgaste institucional e aumento de ansiedade na região.

Já o relatório parlamentar de 2023 registra como o tema passou a envolver não apenas reparos, mas também governança, responsabilização e a capacidade do Estado de responder com previsibilidade.

Energia, subsolo e engenharia na superfície

Com o campo fechado e com reforços e reparos ainda em andamento, a experiência de Groningen segue sendo observada como um exemplo de como decisões sobre exploração do subsolo podem se traduzir em exigências concretas para o que está na superfície, da casa térrea ao prédio público.

Em outras regiões que dependem de recursos extraídos do subsolo, deveria existir um plano público de risco e reforço de construções antes que a população enfrente anos de tremores, danos e obras?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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