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A arte rupestre mais antiga do mundo é anterior à chegada dos humanos modernos à Europa – e foi encontrada em uma caverna

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 24/01/2026 às 00:11
Atualizado em 24/01/2026 às 00:15
Estêncil de mão de 67.800 anos em caverna da Indonésia se torna a arte rupestre mais antiga conhecida e evidencia presença precoce do Homo sapiens.
Estêncil de mão de 67.800 anos em caverna da Indonésia se torna a arte rupestre mais antiga conhecida e evidencia presença precoce do Homo sapiens.
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Descoberta de um estêncil de mão com pelo menos 67.800 anos em uma caverna de Sulawesi, na Indonésia, redefine o registro da arte rupestre mais antiga do mundo e antecipa a presença comprovada do Homo sapiens no Sudeste Asiático insular antes da chegada dos humanos modernos à Europa

Um estêncil de mão criado há pelo menos 67.800 anos em uma caverna no sudeste de Sulawesi, na Indonésia, foi identificado como a arte rupestre mais antiga do mundo e como a evidência arqueológica mais antiga da presença de humanos modernos na região, segundo estudo publicado na revista Nature em 21 de janeiro.

A descoberta foi feita por cientistas que analisaram arte rupestre localizada em uma caverna de Sulawesi e dataram um estêncil de mão com dimensões de 14 por 10 centímetros, cujos vestígios ainda permitem reconhecer dedos e palma, apesar do desgaste do tempo.

O achado é relevante porque antecipa de forma significativa o registro mais antigo conhecido de arte rupestre associada a humanos modernos e contribui para preencher lacunas sobre a migração dos ancestrais dos aborígenes australianos antes de chegarem ao continente.

Segundo o estudo, a arte rupestre de Sulawesi representa a evidência mais antiga da presença de Homo sapiens nas ilhas situadas entre as plataformas continentais asiática e australiana, região-chave nas rotas migratórias pré-históricas.

Os estênceis de mãos com dedos propositalmente afilados foram encontrados em outros locais de Sulawesi, como em Leang Jarie, no sul de Sulawesi (mostrado aqui).(Crédito da imagem: Ahdi Agus Oktaviana)

Descoberta em Sulawesi e contexto arqueológico

A caverna onde o estêncil foi encontrado abriga diferentes camadas de arte rupestre, incluindo outro estêncil de mão mais recente localizado a cerca de 11 centímetros de distância da imagem mais antiga, pintado com pigmento mais escuro.

Esse segundo estêncil foi datado em no máximo 32.800 anos atrás, indicando que a caverna foi utilizada como suporte artístico por humanos pré-históricos durante um período de pelo menos 35.000 anos.

De acordo com Adhi Agus Oktaviana, arqueólogo da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia e primeiro autor do estudo, é muito provável que os autores dessas pinturas fizessem parte de uma população mais ampla que se espalhou pela região.

Essa população teria seguido adiante, segundo o pesquisador, até chegar à Austrália, onde humanos modernos estão presentes há pelo menos 60.000 anos, de acordo com os dados mencionados no estudo.

A descoberta reforça a importância de Sulawesi como ponto estratégico no deslocamento humano entre a Ásia continental e o antigo continente de Sahul, que incluía Austrália e Nova Guiné.

Técnica de datação e análise dos vestígios

Os pesquisadores analisaram 11 desenhos pré-históricos encontrados em oito cavernas de Sulawesi, incluindo sete estênceis de mãos, duas figuras humanas e dois padrões geométricos.

Todas essas obras apresentavam depósitos de carbonato de cálcio conhecidos como “pipoca de caverna”, que se formam naturalmente sobre as superfícies rochosas ao longo do tempo.

Como esses depósitos se desenvolvem após a criação da arte, sua datação fornece uma idade mínima para as imagens subjacentes, permitindo estimar quando os desenhos foram feitos.

Em alguns casos, os pesquisadores também conseguiram obter idades máximas, pois observaram situações em que o pigmento da arte rupestre se sobrepunha a esses depósitos minerais.

A combinação dessas análises permitiu determinar que o estêncil de mão mais antigo foi criado há pelo menos 67.800 anos, tornando-o 1.100 anos mais antigo que a arte rupestre associada aos neandertais na Espanha.

Comparação com outras manifestações artísticas antigas

Antes dessa descoberta, a arte rupestre mais antiga já identificada era um estêncil de mão com cerca de 66.700 anos encontrado na Espanha, que se acreditava ter sido produzido por neandertais.

Essa atribuição baseava-se no fato de que as evidências indicam que os humanos modernos chegaram à Europa apenas há cerca de 54.000 anos, embora a técnica de datação usada nesse caso seja debatida.

A arte pré-histórica em superfícies rochosas é conhecida em várias regiões do mundo, com exemplos que vão desde gravuras de 12.000 anos na Arábia Saudita até pinturas de 4.000 anos na fronteira entre os Estados Unidos e o México.

Além disso, existem registros ainda mais antigos de expressão simbólica, como um desenho em forma de hashtag datado de 73.000 anos na África do Sul.

Outro exemplo citado no estudo é uma concha da Indonésia com entalhes em ziguezague, datada de 540.000 anos, que pode ter sido produzida pelo Homo erectus.

Características artísticas e autoria das pinturas

O estêncil de mão mais antigo de Sulawesi apresenta uma característica singular: os dedos foram propositalmente afilados, uma técnica considerada artisticamente complexa.

Segundo os pesquisadores, esse tipo de detalhe foi encontrado apenas em Sulawesi, o que reforça a ideia de uma tradição artística local específica.

Embora outras espécies humanas tenham habitado Sulawesi no passado, os autores do estudo atribuem essas obras ao Homo sapiens, devido à complexidade técnica envolvida e à presença comprovada de humanos modernos na região naquele período.

A imagem mais antiga está bastante desbotada, mas ainda permite identificar vagamente os contornos dos dedos e da palma da mão, preservando elementos essenciais para a análise.

Esses estênceis com dedos afilados também foram encontrados em outros locais da ilha, como em Leang Jarie, no sul de Sulawesi, indicando uma prática recorrente.

Significado cultural dos estênceis de mãos

Embora o significado original da arte rupestre seja desconhecido, os pesquisadores sugerem que os estênceis de mãos podem indicar a existência de um grupo relativamente grande com identidade cultural própria.

De acordo com Maxime Aubert, arqueólogo e geoquímico da Universidade Griffith e coautor do estudo, esses estênceis poderiam simbolizar a filiação a um grupo específico.

Segundo ele, o conhecimento da caverna e da arte rupestre associada a ela poderia funcionar como um marcador de pertencimento cultural entre os indivíduos que frequentavam o local.

Essa interpretação aponta para a existência de tradições simbólicas complexas entre os humanos modernos que habitavam Sulawesi nesse período remoto.

A presença contínua de arte ao longo de dezenas de milhares de anos sugere que a caverna teve importância duradoura para diferentes gerações de habitantes pré-históricos.

Implicações para as rotas migratórias humanas

A identificação da arte rupestre mais antiga em Sulawesi adiciona um novo ponto de dados ao entendimento da dispersão humana pelo Sudeste Asiático insular e pela Austrália.

Os autores do estudo destacam que a localização da caverna apoia a hipótese de que os humanos modernos chegaram à Austrália por uma rota ao norte.

Essa rota teria partido do atual Bornéu, passado por Sulawesi e seguido em direção à Papua Ocidental, na metade ocidental da ilha da Nova Guiné, ou à ilha indonésia de Misool.

A posição geográfica de Sulawesi como elo intermediário reforça seu papel central nas migrações humanas que envolveram travessias marítimas significativas.

A descoberta também sugere que essas populações não apenas se deslocavam, mas mantinham práticas culturais elaboradas durante suas jornadas.

Avaliação externa e importância do achado

Chris Clarkson, professor de arqueologia da Universidade Griffith que não participou do estudo, classificou a descoberta como impressionante em comunicação enviada à Live Science.

Ele concordou que os humanos modernos antigos são os artistas mais prováveis dos estênceis de mãos, pois as datas obtidas coincidem com a chegada do Homo sapiens à região.

Clarkson destacou que as obras estão localizadas exatamente em uma rota migratória para a Austrália, reforçando a interpretação apresentada pelos autores do estudo.

Segundo ele, o achado demonstra que os primeiros habitantes da Austrália tinham uma vida cultural rica e complexa, e não apenas estratégias de sobrevivência.

Para o pesquisador, esses grupos cruzavam oceanos, produziam arte e carregavam consigo tradições simbólicas elaboradas, revelando uma dimensão cultural profunda desde os estágios iniciais da ocupação humana na região.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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