1. Início
  2. Economia
  3. A América Latina está olhando mais para a Ásia do que para o Ocidente e os números confirmam: pesquisa com 12 mil pessoas em dez países mostra que 36% já veem a China como referência em desenvolvimento, superando os Estados Unidos, que caíram 13 pontos em apenas quatro anos
Faça um comentário 6 min de leitura

A América Latina está olhando mais para a Ásia do que para o Ocidente e os números confirmam: pesquisa com 12 mil pessoas em dez países mostra que 36% já veem a China como referência em desenvolvimento, superando os Estados Unidos, que caíram 13 pontos em apenas quatro anos

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 22/04/2026 às 13:45 Atualizado em 22/04/2026 às 13:55
Pesquisa mostra que a China superou os Estados Unidos como referência de desenvolvimento na América Latina. Prestígio americano caiu 13 pontos em 4 anos.
Pesquisa mostra que a China superou os Estados Unidos como referência de desenvolvimento na América Latina. Prestígio americano caiu 13 pontos em 4 anos.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Pesquisa divulgada nesta quarta-feira (22) pela fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung com 12 mil entrevistados em dez países da América Latina mostra que a China foi a única potência a ganhar prestígio na região desde 2022, com 36,1% dos latino-americanos apontando o país asiático como referência em desenvolvimento, contra 31,5% dos Estados Unidos, que perderam 13 pontos percentuais no mesmo período.

A América Latina está mudando de referencial. Uma pesquisa publicada nesta quarta-feira com 12 mil entrevistados em dez países da região revela que a China foi a única entre sete potências avaliadas a ampliar seu prestígio nos últimos quatro anos. Enquanto Estados Unidos, Espanha, Alemanha, França, Reino Unido e Rússia registraram quedas significativas na percepção dos latino-americanos, Pequim avançou 6 pontos percentuais e se consolidou como a principal referência em desenvolvimento para 36,1% dos entrevistados, superando os americanos, que ficaram com 31,5%.

A pesquisadora Monica Hirst, que colaborou na elaboração do estudo, resumiu a mudança em uma frase direta à Folha de S.Paulo: “A América Latina está olhando mais positivamente para a Ásia do que para o Ocidente.” O levantamento foi publicado pela fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung, pela revista Nueva Sociedad e pelo grupo Diálogo e Paz, com implementação metodológica da consultoria chilena Latinobarómetro. Os dados foram coletados entre outubro e novembro do ano passado, com margem de erro de três pontos percentuais, e ouviram pessoas com oito ou mais anos de escolaridade na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela.

Como a China superou os Estados Unidos como referência em desenvolvimento

Segundo informações divulgadas pelo portal Brasil247, o dado mais expressivo do levantamento está no campo do desenvolvimento. Quando perguntados sobre qual país consideram referência nessa área, 36,1% dos entrevistados apontaram a China, contra 31,5% dos Estados Unidos. O avanço chinês foi de 7 pontos percentuais em relação a 2022, enquanto os americanos recuaram 13 pontos no mesmo intervalo, uma inversão que reflete tanto o crescimento da percepção positiva sobre Pequim quanto o desgaste acelerado da imagem de Washington na região.

A pesquisa indica que a China é vista como liderança especialmente nas áreas de educação, ciência, tecnologia e inteligência artificial. Os Estados Unidos seguem reconhecidos pelo peso econômico e militar, mas enfrentam níveis mais altos de desconfiança e avaliações negativas sobre sua liderança política. Hirst destacou um ponto central da imagem chinesa na América Latina: o país asiático não é percebido como ameaça ou fator de tensão, e sua capacidade tecnológica é associada ao uso civil, não militar.

O que explica o desgaste dos Estados Unidos e da Europa na região

A queda de prestígio das potências ocidentais não aconteceu por acaso. As entrevistas foram realizadas em um contexto internacional de guerras, tensões geopolíticas e enfraquecimento das normas multilaterais, fatores que afetam diretamente a percepção sobre países que integram a Otan e apoiam militarmente a Ucrânia desde a invasão russa de 2022. Washington também é o principal aliado de Israel, cujas ações após o atentado do Hamas, em outubro de 2023, desencadearam uma grave crise humanitária na Faixa de Gaza.

O impacto de Donald Trump sobre a imagem dos Estados Unidos aparece de forma contundente nos dados. O presidente americano foi citado como a liderança que mais desperta desconfiança entre os latino-americanos, com 25,3% das menções, muito à frente de Vladimir Putin, com 12,3%, e Nicolás Maduro, com 4,9%. A pesquisadora Monica Hirst foi direta ao avaliar o efeito: Trump teve “impacto devastador em termos reputacionais” para os americanos na América Latina.

A percepção de um mundo mais hostil e menos regulado

Além de medir a reputação das potências, o levantamento captou o clima de apreensão que atravessa a América Latina. A incerteza foi o sentimento predominante, citada por 40% dos entrevistados, e as percepções negativas sobre a situação global superaram as positivas por larga margem, com 32% contra 22%. Quando questionados sobre a direção do mundo, 78% disseram discordar de que ele esteja no rumo correto.

Os dados sobre conflito e regulação internacional são igualmente reveladores. 70% dos entrevistados concordam que “Começou uma era de guerras e de conflitos no mundo”, e 53% afirmam que leis e normas internacionais já não são relevantes. O retrato que emerge é o de uma região que enxerga o sistema internacional como mais duro, menos previsível e crescentemente orientado pela força em vez da cooperação. Esse cenário de desconfiança generalizada ajuda a explicar por que a China, que não está envolvida diretamente nos principais conflitos atuais, ganha espaço na percepção regional.

O que os números dizem sobre democracia e poder brando

Os Estados Unidos registraram, ao lado da Venezuela, a maior retração na categoria de avaliação democrática, com perda de 1,5 ponto percentual. Em uma escala de 1 a 10, os americanos receberam nota 6,2, enquanto a Venezuela ficou com 2,5. A China marcou 4,4 e apresentou crescimento de 0,4 ponto percentual, indicando melhora relativa de sua imagem mesmo em um campo que tradicionalmente não lhe é favorável.

A Europa continua sendo vista como referência em direitos humanos, assistência humanitária e proteção ambiental. No entanto, o chamado poder brando europeu perdeu vigor, assim como as percepções sobre sua autonomia estratégica e relevância como modelo de desenvolvimento e integração. A cooperação entre América Latina e Europa já não é percebida como necessariamente estratégica ou concreta, o que explica por que, mesmo preservando atributos positivos, os europeus também perderam reputação no imaginário regional.

O que a pesquisa revela sobre o futuro das alianças na América Latina

O principal recado do levantamento é que a América Latina está revendo seus referenciais internacionais. Em meio à crise de legitimidade do Ocidente, a Ásia ganha espaço como polo de estabilidade tecnológica, capacidade produtiva e horizonte de desenvolvimento. A ascensão da China não reflete apenas melhora de imagem, mas uma mudança mais profunda na forma como os latino-americanos avaliam poder, progresso e influência global.

O desgaste dos Estados Unidos e da Europa sugere que o eixo atlântico já não exerce o mesmo fascínio político, econômico e simbólico sobre a região. O cenário aponta para uma reconfiguração da opinião pública latino-americana em relação à disputa por influência no sistema internacional, com consequências práticas para as políticas de alianças, comércio e cooperação que os governos da região adotarão nos próximos anos.

Você acha que a América Latina está certa em olhar mais para a China como referência, ou o desgaste dos Estados Unidos é passageiro e a relação com o Ocidente vai se recuperar? Deixe sua opinião nos comentários, queremos saber como você enxerga essa mudança de percepção na região.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x