Pesquisa divulgada nesta quarta-feira (22) pela fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung com 12 mil entrevistados em dez países da América Latina mostra que a China foi a única potência a ganhar prestígio na região desde 2022, com 36,1% dos latino-americanos apontando o país asiático como referência em desenvolvimento, contra 31,5% dos Estados Unidos, que perderam 13 pontos percentuais no mesmo período.
A América Latina está mudando de referencial. Uma pesquisa publicada nesta quarta-feira com 12 mil entrevistados em dez países da região revela que a China foi a única entre sete potências avaliadas a ampliar seu prestígio nos últimos quatro anos. Enquanto Estados Unidos, Espanha, Alemanha, França, Reino Unido e Rússia registraram quedas significativas na percepção dos latino-americanos, Pequim avançou 6 pontos percentuais e se consolidou como a principal referência em desenvolvimento para 36,1% dos entrevistados, superando os americanos, que ficaram com 31,5%.
A pesquisadora Monica Hirst, que colaborou na elaboração do estudo, resumiu a mudança em uma frase direta à Folha de S.Paulo: “A América Latina está olhando mais positivamente para a Ásia do que para o Ocidente.” O levantamento foi publicado pela fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung, pela revista Nueva Sociedad e pelo grupo Diálogo e Paz, com implementação metodológica da consultoria chilena Latinobarómetro. Os dados foram coletados entre outubro e novembro do ano passado, com margem de erro de três pontos percentuais, e ouviram pessoas com oito ou mais anos de escolaridade na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela.
Como a China superou os Estados Unidos como referência em desenvolvimento
Segundo informações divulgadas pelo portal Brasil247, o dado mais expressivo do levantamento está no campo do desenvolvimento. Quando perguntados sobre qual país consideram referência nessa área, 36,1% dos entrevistados apontaram a China, contra 31,5% dos Estados Unidos. O avanço chinês foi de 7 pontos percentuais em relação a 2022, enquanto os americanos recuaram 13 pontos no mesmo intervalo, uma inversão que reflete tanto o crescimento da percepção positiva sobre Pequim quanto o desgaste acelerado da imagem de Washington na região.
-
SpaceX define ação a US$ 135 e mira IPO histórico de US$ 75 bilhões para estrear na Nasdaq com valor de mercado trilionário
-
Enquanto o mundo corre para minerar o lítio do Congo e do Chile, o Brasil senta sobre uma das maiores reservas e mal começou a explorar
-
Herdeiro trabalhou aos treze anos em fábrica de sorvete sem revelar ser filho do dono; hoje, aos vinte e cinco, lidera a marca de sorvete para consumo doméstico mais vendida do Nordeste, fatura quase R$ 300 milhões, tem 145 lojas e enfrenta multinacionais com sabores regionais
-
Fabricante gaúcha de fechaduras investe R$ 150 milhões para superar R$ 1 bilhão em faturamento, criar 200 empregos e dobrar armazenagem, enquanto escolhe Santa Catarina para instalar novo centro logístico e acelerar entregas no Sul do Brasil
A pesquisa indica que a China é vista como liderança especialmente nas áreas de educação, ciência, tecnologia e inteligência artificial. Os Estados Unidos seguem reconhecidos pelo peso econômico e militar, mas enfrentam níveis mais altos de desconfiança e avaliações negativas sobre sua liderança política. Hirst destacou um ponto central da imagem chinesa na América Latina: o país asiático não é percebido como ameaça ou fator de tensão, e sua capacidade tecnológica é associada ao uso civil, não militar.
O que explica o desgaste dos Estados Unidos e da Europa na região
A queda de prestígio das potências ocidentais não aconteceu por acaso. As entrevistas foram realizadas em um contexto internacional de guerras, tensões geopolíticas e enfraquecimento das normas multilaterais, fatores que afetam diretamente a percepção sobre países que integram a Otan e apoiam militarmente a Ucrânia desde a invasão russa de 2022. Washington também é o principal aliado de Israel, cujas ações após o atentado do Hamas, em outubro de 2023, desencadearam uma grave crise humanitária na Faixa de Gaza.
O impacto de Donald Trump sobre a imagem dos Estados Unidos aparece de forma contundente nos dados. O presidente americano foi citado como a liderança que mais desperta desconfiança entre os latino-americanos, com 25,3% das menções, muito à frente de Vladimir Putin, com 12,3%, e Nicolás Maduro, com 4,9%. A pesquisadora Monica Hirst foi direta ao avaliar o efeito: Trump teve “impacto devastador em termos reputacionais” para os americanos na América Latina.
A percepção de um mundo mais hostil e menos regulado
Além de medir a reputação das potências, o levantamento captou o clima de apreensão que atravessa a América Latina. A incerteza foi o sentimento predominante, citada por 40% dos entrevistados, e as percepções negativas sobre a situação global superaram as positivas por larga margem, com 32% contra 22%. Quando questionados sobre a direção do mundo, 78% disseram discordar de que ele esteja no rumo correto.
Os dados sobre conflito e regulação internacional são igualmente reveladores. 70% dos entrevistados concordam que “Começou uma era de guerras e de conflitos no mundo”, e 53% afirmam que leis e normas internacionais já não são relevantes. O retrato que emerge é o de uma região que enxerga o sistema internacional como mais duro, menos previsível e crescentemente orientado pela força em vez da cooperação. Esse cenário de desconfiança generalizada ajuda a explicar por que a China, que não está envolvida diretamente nos principais conflitos atuais, ganha espaço na percepção regional.
O que os números dizem sobre democracia e poder brando
Os Estados Unidos registraram, ao lado da Venezuela, a maior retração na categoria de avaliação democrática, com perda de 1,5 ponto percentual. Em uma escala de 1 a 10, os americanos receberam nota 6,2, enquanto a Venezuela ficou com 2,5. A China marcou 4,4 e apresentou crescimento de 0,4 ponto percentual, indicando melhora relativa de sua imagem mesmo em um campo que tradicionalmente não lhe é favorável.
A Europa continua sendo vista como referência em direitos humanos, assistência humanitária e proteção ambiental. No entanto, o chamado poder brando europeu perdeu vigor, assim como as percepções sobre sua autonomia estratégica e relevância como modelo de desenvolvimento e integração. A cooperação entre América Latina e Europa já não é percebida como necessariamente estratégica ou concreta, o que explica por que, mesmo preservando atributos positivos, os europeus também perderam reputação no imaginário regional.
O que a pesquisa revela sobre o futuro das alianças na América Latina
O principal recado do levantamento é que a América Latina está revendo seus referenciais internacionais. Em meio à crise de legitimidade do Ocidente, a Ásia ganha espaço como polo de estabilidade tecnológica, capacidade produtiva e horizonte de desenvolvimento. A ascensão da China não reflete apenas melhora de imagem, mas uma mudança mais profunda na forma como os latino-americanos avaliam poder, progresso e influência global.
O desgaste dos Estados Unidos e da Europa sugere que o eixo atlântico já não exerce o mesmo fascínio político, econômico e simbólico sobre a região. O cenário aponta para uma reconfiguração da opinião pública latino-americana em relação à disputa por influência no sistema internacional, com consequências práticas para as políticas de alianças, comércio e cooperação que os governos da região adotarão nos próximos anos.
Você acha que a América Latina está certa em olhar mais para a China como referência, ou o desgaste dos Estados Unidos é passageiro e a relação com o Ocidente vai se recuperar? Deixe sua opinião nos comentários, queremos saber como você enxerga essa mudança de percepção na região.

Seja o primeiro a reagir!