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A 113 metros abaixo do fundo do mar, a China escava o túnel ferroviário submarino mais profundo do mundo e coloca a Shenjiang-1 para atravessar 13 camadas geológicas, 6 zonas de falha e pressão equivalente à de um mergulhador a 120 metros, em uma obra mais extrema que os 50 km perfurados pelo Túnel da Mancha entre Inglaterra e França ao longo de 6 anos

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 18/05/2026 às 19:40
Atualizado em 18/05/2026 às 19:43
Assista o vídeoTúnel subaquático do Rio das Pérolas atinge 113 metros abaixo do fundo do mar, usa tuneladora chinesa de 13,42 metros e vai reduzir viagem entre Shenzhen e Jiangmen para menos de 1 hora.
Underwater tunnel construction beneath coastal city
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Túnel subaquático do Rio das Pérolas atinge 113 metros abaixo do fundo do mar, usa tuneladora chinesa de 13,42 metros e vai reduzir viagem entre Shenzhen e Jiangmen para menos de 1 hora.

Segundo a CGTN, o túnel subaquático do estuário do Rio das Pérolas, parte da ferrovia de alta velocidade Shenzhen-Jiangmen de 116 km, atingiu em abril de 2026 a profundidade recorde de 113 metros abaixo do fundo do mar. A marca estabeleceu o recorde mundial de túnel ferroviário de alta velocidade mais profundo já construído. A tuneladora Shenjiang-1, desenvolvida e fabricada inteiramente na China, tem diâmetro de corte de 13,42 metros e trabalhou sem parar por quatro anos para avançar os primeiros 4 km do trecho. O ritmo médio foi de apenas 2 metros por dia, reflexo de uma das condições geológicas mais hostis já enfrentadas por uma tuneladora.

O túnel subaquático terá 13,69 km de extensão total e cruzará o estuário do Rio das Pérolas entre Dongguan e Guangzhou, na Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. O ponto mais profundo ainda está por vir: os engenheiros projetam que o túnel chegará a 116 metros abaixo do fundo do mar antes de subir em direção à outra margem.

Túnel subaquático do Rio das Pérolas bate recorde mundial de profundidade ferroviária

A profundidade de 113 metros abaixo do fundo do mar não é apenas um dado de recorde. Ela muda completamente a engenharia necessária para manter a frente de escavação estável, proteger o revestimento de concreto e garantir que o túnel suporte décadas de operação ferroviária.

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A pressão hidrostática aumenta cerca de 1 bar a cada 10 metros de profundidade. Isso significa que, a 113 metros abaixo do fundo do mar, a pressão sobre a estrutura se aproxima de 11 bar, semelhante à pressão enfrentada por mergulhadores em profundidades extremas.

Nessas condições, nenhum trabalhador pode entrar normalmente na frente de escavação. Toda a operação precisa ser controlada remotamente, com a câmara da tuneladora pressurizada por lama de bentonita para equilibrar a pressão da água e do solo.

Shenjiang-1 opera sob pressão extrema para escavar túnel ferroviário de alta velocidade

A tuneladora Shenjiang-1 foi projetada para trabalhar em um ambiente onde a falha de pressão poderia causar entrada repentina de água, instabilidade do solo e risco estrutural. Por isso, o sistema de escavação precisa manter equilíbrio contínuo entre avanço mecânico, pressão da lama e retirada de material.

O revestimento do túnel é formado por anéis de concreto pré-fabricado compostos por nove segmentos. Cada peça precisa ser instalada com precisão milimétrica para suportar cargas elevadas e garantir vida útil projetada de 100 anos.

Foto: Global Highways

Essa precisão é ainda mais crítica porque o túnel receberá trens de alta velocidade. Qualquer desalinhamento acumulado ao longo dos 13,69 km poderia comprometer a suavidade dos trilhos e a segurança operacional em velocidades elevadas.

Geologia do estuário do Rio das Pérolas tem 13 camadas e 6 zonas de falha

O estuário do Rio das Pérolas possui um dos perfis geológicos mais complexos da China meridional. A Shenjiang-1 precisa atravessar sedimentos marinhos, rochas sedimentares, materiais metamórficos e formações ígneas acumuladas ao longo de milhões de anos.

O trecho reúne 13 camadas geológicas distintas, 5 tipos de rocha composta e 6 zonas de falha. Cada camada reage de forma diferente à escavação, exigindo ajustes constantes na rotação da roda de corte, na pressão da lama e na velocidade de avanço.

Argila mole pode fluir quando perturbada, areia fina pode liquefazer sob vibração, rocha fraturada pode colapsar em blocos e granito intacto desgasta rapidamente as ferramentas. Essa combinação explica por que a tuneladora avançou apenas 2 metros por dia em parte da obra.

Lama de bentonita mantém pressão e impede entrada de água no túnel subaquático

O método de escavação por lama, conhecido como slurry shield, é essencial em túneis subaquáticos profundos e solos saturados. A bentonita forma uma pasta capaz de sustentar a frente de escavação e impedir que água e solo entrem no túnel.

Túnel subaquático do Rio das Pérolas atinge 113 metros abaixo do fundo do mar, usa tuneladora chinesa de 13,42 metros e vai reduzir viagem entre Shenzhen e Jiangmen para menos de 1 hora.
Underwater tunnel construction beneath coastal city

O primeiro circuito leva lama fresca diretamente à câmara pressurizada. Essa lama cria uma barreira de suporte contra a pressão externa, calibrada continuamente para manter equilíbrio com a água e o terreno ao redor.

O controle precisa ser extremamente preciso. Se a pressão cair, a frente pode desestabilizar; se subir demais, pode causar deformações no solo e afetar a segurança da escavação.

Dois circuitos de lama mantêm a Shenjiang-1 trabalhando 24 horas por dia

O segundo circuito transporta para a superfície a lama carregada de detritos, misturada ao material escavado. Essa mistura sobe por tubulações até uma usina de separação, onde a bentonita é tratada e bombeada de volta para a tuneladora.

O volume de material removido equivale a encher um caminhão-tanque a cada hora de operação. Enquanto isso, atrás da câmara de escavação, trabalhadores instalam os segmentos de concreto com ajuda de um eretor robótico.

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Esse sistema não pode parar em trechos críticos. A escavação funciona como uma fábrica subterrânea contínua, em que pressão, lama, concreto, sensores e avanço mecânico precisam operar sem interrupção.

Sete inovações foram criadas para o túnel de alta velocidade Shenzhen-Jiangmen

O desenvolvimento da Shenjiang-1 exigiu soluções específicas da China Railway Construction Corporation para uma combinação rara de profundidade, pressão e complexidade geológica. A máquina precisou resolver problemas que tuneladoras convencionais não enfrentam simultaneamente.

A primeira inovação foi o sistema de troca rápida de ferramentas de corte sob pressão ultra-alta, sem entrada de trabalhadores na câmara. Em tuneladoras convencionais, esse tipo de manutenção costuma exigir mergulhadores especializados e longos protocolos de descompressão.

A segunda foi o sistema de desmontagem in situ da tuneladora em espaço confinado sob o fundo do mar. Essa solução é necessária porque nem todos os pontos do estuário permitem poços de chegada tradicionais para retirada da máquina.

Tuneladora chinesa usa monitoramento em tempo real e protocolos de emergência geológica

As outras inovações incluem controle de assentamento em solos ultracomplexos, monitoramento em tempo real dos parâmetros de escavação, gestão térmica da câmara pressurizada, comunicação redundante a grande profundidade e protocolos de resposta a emergências geológicas.

Essas soluções foram documentadas como tecnologias replicáveis para futuros projetos submarinos. Isso indica que a China não está tratando o túnel Shenzhen-Jiangmen apenas como uma obra isolada, mas como laboratório para uma nova geração de túneis subaquáticos.

O aprendizado acumulado pode ser aplicado em travessias ferroviárias, rodoviárias e logísticas em outros estuários complexos. A Shenjiang-1 não apenas escava um túnel, mas testa o limite industrial da tunelagem chinesa em alta pressão.

Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau depende do túnel para integrar suas margens

A ferrovia Shenzhen-Jiangmen é projeto prioritário da estratégia chinesa para integrar a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, região com cerca de 86 milhões de habitantes e PIB combinado próximo de US$ 2 trilhões.

O estuário do Rio das Pérolas funciona como barreira geográfica central. A margem leste, onde ficam Shenzhen e Hong Kong, e a margem oeste, onde ficam Guangzhou, Jiangmen e Zhongshan, são próximas no mapa, mas separadas por travessias demoradas.

Hoje, o deslocamento pode exigir balsa ou trajetos rodoviários de mais de 2 horas. Com a ferrovia, o tempo entre Shenzhen e Jiangmen cairá para menos de 1 hora, e o trecho entre Qianhai e Nansha poderá ser feito em cerca de 30 minutos.

Ferrovia Shenzhen-Jiangmen deve reduzir tempo de viagem e redesenhar a economia regional

A redução do tempo de deslocamento deve alterar a lógica econômica da Grande Baía. Trabalhadores que moram em Jiangmen poderão acessar empregos em Shenzhen com mais facilidade, enquanto empresas poderão escolher localizações antes limitadas pela barreira do estuário.

O túnel também pode reduzir custos logísticos entre as duas margens, aproximando cadeias produtivas, zonas de livre comércio e polos industriais. Em uma região com alta densidade econômica, cada minuto economizado em transporte tem impacto direto sobre produtividade.

A obra não é apenas uma travessia subterrânea. O túnel subaquático do Rio das Pérolas vai influenciar onde empresas se instalam, onde pessoas moram e como uma das regiões mais produtivas da China distribuirá crescimento nas próximas décadas.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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