Túnel subaquático do Rio das Pérolas atinge 113 metros abaixo do fundo do mar, usa tuneladora chinesa de 13,42 metros e vai reduzir viagem entre Shenzhen e Jiangmen para menos de 1 hora.
Segundo a CGTN, o túnel subaquático do estuário do Rio das Pérolas, parte da ferrovia de alta velocidade Shenzhen-Jiangmen de 116 km, atingiu em abril de 2026 a profundidade recorde de 113 metros abaixo do fundo do mar. A marca estabeleceu o recorde mundial de túnel ferroviário de alta velocidade mais profundo já construído. A tuneladora Shenjiang-1, desenvolvida e fabricada inteiramente na China, tem diâmetro de corte de 13,42 metros e trabalhou sem parar por quatro anos para avançar os primeiros 4 km do trecho. O ritmo médio foi de apenas 2 metros por dia, reflexo de uma das condições geológicas mais hostis já enfrentadas por uma tuneladora.
O túnel subaquático terá 13,69 km de extensão total e cruzará o estuário do Rio das Pérolas entre Dongguan e Guangzhou, na Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. O ponto mais profundo ainda está por vir: os engenheiros projetam que o túnel chegará a 116 metros abaixo do fundo do mar antes de subir em direção à outra margem.
Túnel subaquático do Rio das Pérolas bate recorde mundial de profundidade ferroviária
A profundidade de 113 metros abaixo do fundo do mar não é apenas um dado de recorde. Ela muda completamente a engenharia necessária para manter a frente de escavação estável, proteger o revestimento de concreto e garantir que o túnel suporte décadas de operação ferroviária.
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A pressão hidrostática aumenta cerca de 1 bar a cada 10 metros de profundidade. Isso significa que, a 113 metros abaixo do fundo do mar, a pressão sobre a estrutura se aproxima de 11 bar, semelhante à pressão enfrentada por mergulhadores em profundidades extremas.
Nessas condições, nenhum trabalhador pode entrar normalmente na frente de escavação. Toda a operação precisa ser controlada remotamente, com a câmara da tuneladora pressurizada por lama de bentonita para equilibrar a pressão da água e do solo.
Shenjiang-1 opera sob pressão extrema para escavar túnel ferroviário de alta velocidade
A tuneladora Shenjiang-1 foi projetada para trabalhar em um ambiente onde a falha de pressão poderia causar entrada repentina de água, instabilidade do solo e risco estrutural. Por isso, o sistema de escavação precisa manter equilíbrio contínuo entre avanço mecânico, pressão da lama e retirada de material.
O revestimento do túnel é formado por anéis de concreto pré-fabricado compostos por nove segmentos. Cada peça precisa ser instalada com precisão milimétrica para suportar cargas elevadas e garantir vida útil projetada de 100 anos.

Essa precisão é ainda mais crítica porque o túnel receberá trens de alta velocidade. Qualquer desalinhamento acumulado ao longo dos 13,69 km poderia comprometer a suavidade dos trilhos e a segurança operacional em velocidades elevadas.
Geologia do estuário do Rio das Pérolas tem 13 camadas e 6 zonas de falha
O estuário do Rio das Pérolas possui um dos perfis geológicos mais complexos da China meridional. A Shenjiang-1 precisa atravessar sedimentos marinhos, rochas sedimentares, materiais metamórficos e formações ígneas acumuladas ao longo de milhões de anos.
O trecho reúne 13 camadas geológicas distintas, 5 tipos de rocha composta e 6 zonas de falha. Cada camada reage de forma diferente à escavação, exigindo ajustes constantes na rotação da roda de corte, na pressão da lama e na velocidade de avanço.
Argila mole pode fluir quando perturbada, areia fina pode liquefazer sob vibração, rocha fraturada pode colapsar em blocos e granito intacto desgasta rapidamente as ferramentas. Essa combinação explica por que a tuneladora avançou apenas 2 metros por dia em parte da obra.
Lama de bentonita mantém pressão e impede entrada de água no túnel subaquático
O método de escavação por lama, conhecido como slurry shield, é essencial em túneis subaquáticos profundos e solos saturados. A bentonita forma uma pasta capaz de sustentar a frente de escavação e impedir que água e solo entrem no túnel.

O primeiro circuito leva lama fresca diretamente à câmara pressurizada. Essa lama cria uma barreira de suporte contra a pressão externa, calibrada continuamente para manter equilíbrio com a água e o terreno ao redor.
O controle precisa ser extremamente preciso. Se a pressão cair, a frente pode desestabilizar; se subir demais, pode causar deformações no solo e afetar a segurança da escavação.
Dois circuitos de lama mantêm a Shenjiang-1 trabalhando 24 horas por dia
O segundo circuito transporta para a superfície a lama carregada de detritos, misturada ao material escavado. Essa mistura sobe por tubulações até uma usina de separação, onde a bentonita é tratada e bombeada de volta para a tuneladora.
O volume de material removido equivale a encher um caminhão-tanque a cada hora de operação. Enquanto isso, atrás da câmara de escavação, trabalhadores instalam os segmentos de concreto com ajuda de um eretor robótico.
Esse sistema não pode parar em trechos críticos. A escavação funciona como uma fábrica subterrânea contínua, em que pressão, lama, concreto, sensores e avanço mecânico precisam operar sem interrupção.
Sete inovações foram criadas para o túnel de alta velocidade Shenzhen-Jiangmen
O desenvolvimento da Shenjiang-1 exigiu soluções específicas da China Railway Construction Corporation para uma combinação rara de profundidade, pressão e complexidade geológica. A máquina precisou resolver problemas que tuneladoras convencionais não enfrentam simultaneamente.
A primeira inovação foi o sistema de troca rápida de ferramentas de corte sob pressão ultra-alta, sem entrada de trabalhadores na câmara. Em tuneladoras convencionais, esse tipo de manutenção costuma exigir mergulhadores especializados e longos protocolos de descompressão.
A segunda foi o sistema de desmontagem in situ da tuneladora em espaço confinado sob o fundo do mar. Essa solução é necessária porque nem todos os pontos do estuário permitem poços de chegada tradicionais para retirada da máquina.
Tuneladora chinesa usa monitoramento em tempo real e protocolos de emergência geológica
As outras inovações incluem controle de assentamento em solos ultracomplexos, monitoramento em tempo real dos parâmetros de escavação, gestão térmica da câmara pressurizada, comunicação redundante a grande profundidade e protocolos de resposta a emergências geológicas.
Essas soluções foram documentadas como tecnologias replicáveis para futuros projetos submarinos. Isso indica que a China não está tratando o túnel Shenzhen-Jiangmen apenas como uma obra isolada, mas como laboratório para uma nova geração de túneis subaquáticos.
O aprendizado acumulado pode ser aplicado em travessias ferroviárias, rodoviárias e logísticas em outros estuários complexos. A Shenjiang-1 não apenas escava um túnel, mas testa o limite industrial da tunelagem chinesa em alta pressão.
Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau depende do túnel para integrar suas margens
A ferrovia Shenzhen-Jiangmen é projeto prioritário da estratégia chinesa para integrar a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, região com cerca de 86 milhões de habitantes e PIB combinado próximo de US$ 2 trilhões.
O estuário do Rio das Pérolas funciona como barreira geográfica central. A margem leste, onde ficam Shenzhen e Hong Kong, e a margem oeste, onde ficam Guangzhou, Jiangmen e Zhongshan, são próximas no mapa, mas separadas por travessias demoradas.
Hoje, o deslocamento pode exigir balsa ou trajetos rodoviários de mais de 2 horas. Com a ferrovia, o tempo entre Shenzhen e Jiangmen cairá para menos de 1 hora, e o trecho entre Qianhai e Nansha poderá ser feito em cerca de 30 minutos.
Ferrovia Shenzhen-Jiangmen deve reduzir tempo de viagem e redesenhar a economia regional
A redução do tempo de deslocamento deve alterar a lógica econômica da Grande Baía. Trabalhadores que moram em Jiangmen poderão acessar empregos em Shenzhen com mais facilidade, enquanto empresas poderão escolher localizações antes limitadas pela barreira do estuário.
O túnel também pode reduzir custos logísticos entre as duas margens, aproximando cadeias produtivas, zonas de livre comércio e polos industriais. Em uma região com alta densidade econômica, cada minuto economizado em transporte tem impacto direto sobre produtividade.
A obra não é apenas uma travessia subterrânea. O túnel subaquático do Rio das Pérolas vai influenciar onde empresas se instalam, onde pessoas moram e como uma das regiões mais produtivas da China distribuirá crescimento nas próximas décadas.


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