Durante 17 anos, a China escavou em segredo a maior caverna artificial do mundo — e depois abandonou tudo sem explicação
Em 1966, o premier Zhou Enlai aprovou pessoalmente um projeto que seria mantido em sigilo absoluto por quatro décadas: a construção de uma fábrica subterrânea de armas nucleares dentro de uma montanha na região de Fuling, hoje parte de Chongqing.
Segundo documentação do 816 Nuclear Military Plant, o projeto mobilizou mais de 60 mil operários que trabalharam em segredo por 17 anos, escavando rocha para criar a maior estrutura artificial subterrânea do mundo.
Contudo, em fevereiro de 1984, quando a obra estava 85% concluída, o governo simplesmente cancelou tudo.
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Dessa forma, bilhões de yuans e o sacrifício de milhares de operários resultaram em uma caverna gigantesca que nunca cumpriu sua finalidade — assim como o depósito nuclear de Yucca Mountain, nos Estados Unidos, que também custou bilhões e nunca recebeu um único barril de resíduo.
Além disso, o projeto permaneceu classificado até 2002 e só foi aberto ao público em 2010.

Os números absurdos: 20 km de túneis, 13 níveis, 79 metros de altura e 80 estradas subterrâneas
A superfície total das cavernas ultrapassa 104 mil metros quadrados — mais de 10 campos de futebol escavados dentro de rocha sólida.
Consequentemente, o complexo é reconhecido como a maior estrutura artificial subterrânea do mundo.
Além disso, o interior tem 13 níveis, 18 cavernas interligadas, 80 estradas internas e 130 túneis de conexão.
Da mesma forma, a caverna principal — onde seria instalado o reator — tem 79,6 metros de altura, equivalente a um prédio de 20 andares completamente subterrâneo.
Para contextualizar, se a caverna principal fosse um edifício na superfície, seria mais alta que a maioria dos prédios comerciais da cidade que literalmente está acima dela.
Igualmente, o comprimento total de todos os túneis somados ultrapassa 20 quilômetros — a distância de uma meia-maratona inteira perfurada dentro de uma montanha.
Nesse sentido, os 60 mil operários escavaram ao longo de 17 anos o equivalente a remover uma montanha inteira de dentro para fora — e depois deixaram o buraco vazio.
O medo que criou a caverna: quando a China acreditava que a URSS podia invadi-la a qualquer momento
O Projeto 816 nasceu no contexto da Terceira Frente — campanha de industrialização defensiva lançada por Mao Zedong nos anos 1960.
De acordo com o Atlas Obscura, a Terceira Frente previa a transferência de indústrias estratégicas do litoral chinês para o interior montanhoso — longe de bombardeios soviéticos ou americanos.
Portanto, escavar uma fábrica nuclear dentro de uma montanha era doutrina militar de sobrevivência, não excentricidade.
Contudo, as relações sino-soviéticas melhoraram na década de 1980, e a ameaça desapareceu.
Como resultado, em 1984 Deng Xiaoping decidiu cancelar a obra — priorizando desenvolvimento econômico sobre paranoia nuclear.
Ainda assim, o projeto permaneceu em segredo por mais 18 anos — os moradores de Fuling não sabiam o que existia debaixo de suas montanhas.
Sobretudo, o cancelamento quando faltavam apenas 15% para conclusão torna o 816 ainda mais surreal: a China investiu 17 anos para criar algo que abandonou na reta final.
60 mil operários que não podiam contar a ninguém o que faziam — durante quase duas décadas
Os trabalhadores viviam em acampamentos militarizados ao redor da montanha, sem contato com o exterior.
Conforme o Young Pioneer Tours, os operários eram proibidos de revelar qualquer detalhe — mesmo para familiares.
Além disso, as condições eram extremamente perigosas: escavação manual em rocha dura, ventilação precária e risco constante de desabamento.
De fato, estima-se que dezenas morreram durante a construção — embora números oficiais nunca tenham sido divulgados.
Consequentemente, o 816 é tanto proeza de engenharia quanto memorial ao custo humano da corrida armamentista da Guerra Fria.
Por outro lado, muitos dos sobreviventes só puderam contar suas histórias após a desclassificação em 2002 — quase 40 anos depois de terem começado a trabalhar.

Hoje visitantes caminham por túneis nucleares que nunca viram urânio
Em 2010, a caverna foi aberta como atração turística — 26 anos após o cancelamento.
Apenas uma fração dos 20 km é acessível, mas o que está aberto já causa espanto: corredores enormes, câmaras que parecem catedrais subterrâneas e equipamentos que nunca foram usados.
Apesar disso, o site recebe milhares de turistas que buscam a experiência de caminhar dentro de uma fábrica de armas nucleares abandonada.
A China gastou 17 anos, mobilizou 60 mil operários, escavou 20 km de túneis e criou a maior caverna artificial da história — tudo para fabricar armas nucleares que nunca foram fabricadas, dentro de uma instalação que nunca funcionou, num projeto que ninguém podia saber que existia.
O Projeto 816 é a prova definitiva de que, na corrida armamentista da Guerra Fria, o medo era capaz de mover montanhas — literalmente. E de que às vezes a história mais impressionante é a do projeto que nunca aconteceu.

O 816 no contexto dos megaprojetos subterrâneos: maior que o CERN e mais secreto que Cheyenne Mountain
Para ter uma dimensão da escala do Projeto 816, vale comparar com outros projetos subterrâneos famosos.
Além disso, o Grande Colisor de Hádrons (LHC) no CERN, Suíça, tem 27 km de circunferência subterrânea — mas é um túnel circular estreito, não um complexo de 13 níveis com 18 cavernas.
Da mesma forma, o Cheyenne Mountain nos EUA, famoso quartel-general do NORAD, tem aproximadamente 2 km de túneis — dez vezes menos que o 816.
Consequentemente, o Projeto 816 permanece incomparável em escala: nenhuma outra estrutura artificial subterrânea no mundo combina 20 km de túneis, 13 níveis e uma caverna de 80 metros de altura em um único complexo.
Sobretudo, a diferença crucial é que tanto o LHC quanto o Cheyenne Mountain estão em plena operação — enquanto o 816 foi abandonado sem nunca ter funcionado.
Igualmente, a história do 816 encontra paralelo em outros megaprojetos cancelados da Guerra Fria: os EUA também abandonaram projetos nucleares monumentais, como o reator de Clinch River, cancelado em 1983 após US$ 1,7 bilhão investido.
Portanto, o Projeto 816 não é apenas uma curiosidade chinesa — é um fenômeno universal da Guerra Fria, quando o medo nuclear motivava investimentos colossais em projetos que a paz tornava desnecessários.
No entanto, o 816 se destaca por sua escala absurda e pelo fato de ter sido mantido em segredo absoluto por 36 anos — um segredo que 60 mil pessoas guardaram durante a vida inteira.

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