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Durante 17 anos, 60 mil operários chineses escavaram 20 km de túneis em segredo dentro de uma montanha — a caverna de 79 metros seria uma fábrica de armas nucleares, mas nunca funcionou

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 28/04/2026 às 19:30
Atualizado em 28/04/2026 às 22:13
Túneis subterrâneos abandonados do Projeto 816 na China
Representação artística — são 20 km de túneis, 13 níveis e 18 cavernas interligadas que 60 mil operários escavaram em segredo
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Durante 17 anos, a China escavou em segredo a maior caverna artificial do mundo — e depois abandonou tudo sem explicação

Em 1966, o premier Zhou Enlai aprovou pessoalmente um projeto que seria mantido em sigilo absoluto por quatro décadas: a construção de uma fábrica subterrânea de armas nucleares dentro de uma montanha na região de Fuling, hoje parte de Chongqing.

Segundo documentação do 816 Nuclear Military Plant, o projeto mobilizou mais de 60 mil operários que trabalharam em segredo por 17 anos, escavando rocha para criar a maior estrutura artificial subterrânea do mundo.

Contudo, em fevereiro de 1984, quando a obra estava 85% concluída, o governo simplesmente cancelou tudo.

Dessa forma, bilhões de yuans e o sacrifício de milhares de operários resultaram em uma caverna gigantesca que nunca cumpriu sua finalidade — assim como o depósito nuclear de Yucca Mountain, nos Estados Unidos, que também custou bilhões e nunca recebeu um único barril de resíduo.

Além disso, o projeto permaneceu classificado até 2002 e só foi aberto ao público em 2010.

Túneis subterrâneos do Projeto 816
Representação artística — 20 km de túneis, 13 níveis e 18 cavernas que 60 mil operários escavaram em segredo

Os números absurdos: 20 km de túneis, 13 níveis, 79 metros de altura e 80 estradas subterrâneas

A superfície total das cavernas ultrapassa 104 mil metros quadrados — mais de 10 campos de futebol escavados dentro de rocha sólida.

Consequentemente, o complexo é reconhecido como a maior estrutura artificial subterrânea do mundo.

Além disso, o interior tem 13 níveis, 18 cavernas interligadas, 80 estradas internas e 130 túneis de conexão.

Da mesma forma, a caverna principal — onde seria instalado o reator — tem 79,6 metros de altura, equivalente a um prédio de 20 andares completamente subterrâneo.

Para contextualizar, se a caverna principal fosse um edifício na superfície, seria mais alta que a maioria dos prédios comerciais da cidade que literalmente está acima dela.

Igualmente, o comprimento total de todos os túneis somados ultrapassa 20 quilômetros — a distância de uma meia-maratona inteira perfurada dentro de uma montanha.

Nesse sentido, os 60 mil operários escavaram ao longo de 17 anos o equivalente a remover uma montanha inteira de dentro para fora — e depois deixaram o buraco vazio.

O medo que criou a caverna: quando a China acreditava que a URSS podia invadi-la a qualquer momento

O Projeto 816 nasceu no contexto da Terceira Frente — campanha de industrialização defensiva lançada por Mao Zedong nos anos 1960.

De acordo com o Atlas Obscura, a Terceira Frente previa a transferência de indústrias estratégicas do litoral chinês para o interior montanhoso — longe de bombardeios soviéticos ou americanos.

Portanto, escavar uma fábrica nuclear dentro de uma montanha era doutrina militar de sobrevivência, não excentricidade.

Contudo, as relações sino-soviéticas melhoraram na década de 1980, e a ameaça desapareceu.

Como resultado, em 1984 Deng Xiaoping decidiu cancelar a obra — priorizando desenvolvimento econômico sobre paranoia nuclear.

Ainda assim, o projeto permaneceu em segredo por mais 18 anos — os moradores de Fuling não sabiam o que existia debaixo de suas montanhas.

Sobretudo, o cancelamento quando faltavam apenas 15% para conclusão torna o 816 ainda mais surreal: a China investiu 17 anos para criar algo que abandonou na reta final.

60 mil operários que não podiam contar a ninguém o que faziam — durante quase duas décadas

Os trabalhadores viviam em acampamentos militarizados ao redor da montanha, sem contato com o exterior.

Conforme o Young Pioneer Tours, os operários eram proibidos de revelar qualquer detalhe — mesmo para familiares.

Além disso, as condições eram extremamente perigosas: escavação manual em rocha dura, ventilação precária e risco constante de desabamento.

De fato, estima-se que dezenas morreram durante a construção — embora números oficiais nunca tenham sido divulgados.

Consequentemente, o 816 é tanto proeza de engenharia quanto memorial ao custo humano da corrida armamentista da Guerra Fria.

Por outro lado, muitos dos sobreviventes só puderam contar suas histórias após a desclassificação em 2002 — quase 40 anos depois de terem começado a trabalhar.

Equipamentos industriais abandonados na caverna do Projeto 816
Representação artística — equipamentos que nunca foram usados permanecem dentro da montanha

Hoje visitantes caminham por túneis nucleares que nunca viram urânio

Em 2010, a caverna foi aberta como atração turística — 26 anos após o cancelamento.

Apenas uma fração dos 20 km é acessível, mas o que está aberto já causa espanto: corredores enormes, câmaras que parecem catedrais subterrâneas e equipamentos que nunca foram usados.

Apesar disso, o site recebe milhares de turistas que buscam a experiência de caminhar dentro de uma fábrica de armas nucleares abandonada.

A China gastou 17 anos, mobilizou 60 mil operários, escavou 20 km de túneis e criou a maior caverna artificial da história — tudo para fabricar armas nucleares que nunca foram fabricadas, dentro de uma instalação que nunca funcionou, num projeto que ninguém podia saber que existia.

O Projeto 816 é a prova definitiva de que, na corrida armamentista da Guerra Fria, o medo era capaz de mover montanhas — literalmente. E de que às vezes a história mais impressionante é a do projeto que nunca aconteceu.

Equipamentos industriais abandonados na caverna do Projeto 816
Representação artística — equipamentos nunca usados permanecem 40 anos após o cancelamento

O 816 no contexto dos megaprojetos subterrâneos: maior que o CERN e mais secreto que Cheyenne Mountain

Para ter uma dimensão da escala do Projeto 816, vale comparar com outros projetos subterrâneos famosos.

Além disso, o Grande Colisor de Hádrons (LHC) no CERN, Suíça, tem 27 km de circunferência subterrânea — mas é um túnel circular estreito, não um complexo de 13 níveis com 18 cavernas.

Da mesma forma, o Cheyenne Mountain nos EUA, famoso quartel-general do NORAD, tem aproximadamente 2 km de túneis — dez vezes menos que o 816.

Consequentemente, o Projeto 816 permanece incomparável em escala: nenhuma outra estrutura artificial subterrânea no mundo combina 20 km de túneis, 13 níveis e uma caverna de 80 metros de altura em um único complexo.

Sobretudo, a diferença crucial é que tanto o LHC quanto o Cheyenne Mountain estão em plena operação — enquanto o 816 foi abandonado sem nunca ter funcionado.

Igualmente, a história do 816 encontra paralelo em outros megaprojetos cancelados da Guerra Fria: os EUA também abandonaram projetos nucleares monumentais, como o reator de Clinch River, cancelado em 1983 após US$ 1,7 bilhão investido.

Portanto, o Projeto 816 não é apenas uma curiosidade chinesa — é um fenômeno universal da Guerra Fria, quando o medo nuclear motivava investimentos colossais em projetos que a paz tornava desnecessários.

No entanto, o 816 se destaca por sua escala absurda e pelo fato de ter sido mantido em segredo absoluto por 36 anos — um segredo que 60 mil pessoas guardaram durante a vida inteira.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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