Enquanto a população de sousliks despenca 99 por cento em 50 anos na Eslováquia, 800 esquilos terrestres são capturados em aeroportos, têm o DNA coletado, recebem marcação especial e são levados para formar novas colônias em locais seguros, na tentativa de salvar uma espécie inteira da Lista Vermelha de ameaçadas.
Os 800 esquilos que hoje se tornaram espécie de “refugiados de aeroportos” representam muito mais do que um projeto curioso de conservação. Eles sintetizam uma história de declínio silencioso, paisagens transformadas em monoculturas e uma última chance real de evitar que o souslik europeu desapareça, como já aconteceu com outras espécies outrora abundantes. Ao redor das pistas movimentadas do Aeroporto de Bratislava, em meio a barulho de jatos e caminhões, sobrevive uma das últimas populações realmente prósperas desse pequeno mamífero, que agora é a base de um plano de resgate ousado.
Ao mesmo tempo em que a espécie some de vastas áreas do continente, essa colônia robusta virou pista de decolagem para uma estratégia de renaturalização inédita. Capturar, transportar e soltar 800 esquilos terrestres entre aeroportos pode soar estranho, mas revela uma lógica precisa: se o habitat ideal hoje se esconde em margens gramadas e bem cuidadas ao lado de pistas, por que não replicar exatamente esse ambiente em outros pontos onde o souslik ainda tem chances de se recuperar?
Um aeroporto barulhento como último refúgio
Segundo relatório da organização Mossy Earth, responsável pelo projeto, a população de souslik europeu na Eslováquia sofreu uma queda de cerca de 99% em 50 anos, o que motivou uma operação estruturada de captura e translocação em larga escala.
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Em 2022, foram translocados 840 indivíduos a partir de colônias mais estáveis, como a do Aeroporto de Bratislava, para reforçar populações fragilizadas e fundar novas colônias em áreas com habitat adequado, seguindo uma estratégia de dispersão planejada.
Quando alguém anuncia “esquilo terrestre avistado no terminal um”, a imagem que vem à cabeça parece piada. Mas no Aeroporto de Bratislava, a cena é parte da rotina de pesquisadores e conservacionistas.
Ali, não dentro do terminal, mas ao lado das pistas de pouso e decolagem, vive uma das últimas populações fortes de souslik europeu em todo o país.
É um lugar aparentemente contraditório para se fazer conservação. Ruído constante, movimento intenso, asfalto por todos os lados.
Ainda assim, os esquilos terrestres estão prosperando ali enquanto desaparecem em quase toda a Europa, e isso oferece uma pista crucial sobre o que eles realmente precisam para viver bem.
As faixas de grama curta, mantidas sob controle para segurança da aviação, acabam reproduzindo o tipo de pradaria aberta que a espécie sempre usou.
Para os biólogos, esse aeroporto barulhento se transformou no equivalente a um último refúgio. Em uma paisagem rural tomada por monoculturas, pesticidas e perda de diversidade, o gramado aparado à beira da pista virou a porção de habitat funcional que restou.
Se o último lugar viável para uma espécie ameaçada é um aeroporto, o problema não está no animal, está na paisagem que o cerca.
Quem são os sousliks europeus

O protagonista dessa história é o esquilo-terrestre-europeu, também chamado de esquilo-europeu-do-sul, um pequeno mamífero do gênero Spermophilus.
Ele mede cerca de vinte centímetros, pesa em torno de 300 gramas e vive em grandes colônias em campos abertos.
Na prática, lembra um “primo distante” dos suricatos: fica em pé sobre as patas traseiras, vigia o horizonte e emite alertas de perigo para manter o grupo em segurança.
Esse comportamento depende diretamente de uma condição simples e ao mesmo tempo rara hoje em dia, a grama precisa ser curta e o campo aberto para que os esquilos mantenham contato visual entre si.
Por isso, eles sempre foram íntimos de pradarias, encostas gramadas, pastagens e margens de áreas agrícolas.
Em tempos mais selvagens, manadas de grandes herbívoros mantinham essas áreas aparadas. Depois, o gado, a agricultura diversificada e os prados cultivados assumiram esse papel.
Além de tudo, o souslik europeu funciona como espécie-chave do ecossistema. As tocas abertas pelos esquilos acabam servindo de abrigo para lagartos, para zangões que constroem ninhos em cavidades já abandonadas e até para abelhas solitárias, que precisam de solo nu para escavar.
Ao proteger 800 esquilos, o projeto está protegendo também uma rede inteira de espécies menores e discretas, que dependem indiretamente da engenharia natural desses pequenos roedores.
Do auge nas pradarias ao “apocalipse de repolhos”
Até a década de 1960, o cenário era outro. Em muitos países da Europa, os esquilos terrestres eram considerados pragas agrícolas, tão abundantes que se multiplicavam nas bordas de cultivos, prados e pastagens.
A combinação de diferentes usos do solo, com mosaicos de culturas, áreas pastadas e gramados, criava um ambiente ideal para essas colônias.
Com o avanço de modelos intensivos de agricultura, tudo mudou. A paisagem antes variada se transformou em algo que os conservacionistas descrevem como um verdadeiro “apocalipse de repolhos”, uma metáfora para o mar de monoculturas uniformes que se espalham por quilômetros.
Campos inteiros passaram a ser dominados por uma única cultura comercial, com pouca diversidade e quase nenhuma oportunidade para espécies silvestres sobreviverem ali.
O resultado chegou rápido e foi severo. Os esquilos terrestres desapareceram totalmente de países como Alemanha, Polônia e Croácia, e em outros, como a Eslováquia, suas populações despencaram de forma dramática.
Em menos de cinquenta anos, a Eslováquia viu uma queda de cerca de 99 por cento na população de sousliks, o que levou a espécie à categoria de ameaçada na Lista Vermelha da IUCN. É nesse contexto que os 800 esquilos se tornam símbolo de uma última chance de reverter o quadro.
Como 800 esquilos viraram refugiados de aeroportos
Hoje, os especialistas descrevem três grandes metapopulações de esquilos terrestres na Eslováquia: uma no oeste, outra na região central e uma terceira em Cerová vrchovina.
Cada uma é formada por pequenas colônias isoladas, com dificuldades próprias e risco constante de desaparecer.
Ao mesmo tempo, em cada metapopulação ainda existe pelo menos uma colônia robusta que pode atuar como doadora, fornecendo indivíduos para reforçar outras áreas.
Na metapopulação da Eslováquia Ocidental, o foco é justamente o Aeroporto de Bratislava, que abriga a colônia mais próspera.
A partir dali, nasceu o plano que envolve capturar e translocar 800 esquilos terrestres para criar cinco novas colônias e reforçar dez colônias existentes que estavam em declínio.
Em paralelo, outros grupos de esquilos são recolhidos em mais cinco localidades onde as populações ainda se mantêm fortes, mas precisam ganhar resiliência genética.
A urgência ficou ainda maior quando se descobriu que parte dessa colônia do aeroporto tinha se espalhado para um campo gramado em uma zona industrial próxima, área já planejada para desenvolvimento futuro.
De repente, 800 esquilos deixaram de ser apenas um número de projeto e passaram a representar uma corrida real contra o tempo, uma evacuação de fauna antes que o habitat se tornasse concreto e asfalto.
Captura, marcação e DNA para acompanhar cada indivíduo

Para tirar os esquilos de um aeroporto e levá-los com segurança a outro, cada etapa precisa ser planejada.
As equipes utilizam armadilhas vivas projetadas por zoólogos, montadas ao lado das tocas. Dentro delas, uma combinação simples de tecnologia e tentação: um mecanismo metálico que se fecha quando o animal entra para beliscar uma maçã fresca.
Pesquisadores monitoram a área com binóculos e sabem que há um esquilo capturado quando a pequena trava da armadilha muda de posição.
A captura costuma ser rápida, e logo os animais são transferidos para caixas de transporte especialmente desenhadas para reduzir o estresse.
A ideia não é capturar 800 esquilos a qualquer custo, mas garantir que cada indivíduo faça parte de um plano de conservação de longo prazo.
Em seguida, entra a parte mais técnica. De cada esquilo, são coletadas amostras de DNA para que os cientistas possam acompanhar, ao longo dos anos, como esse material genético se mistura às populações já existentes nas áreas de soltura.
Além disso, os animais recebem uma marca visual simples, feita na pelagem, permitindo que sejam identificados posteriormente em monitoramentos de campo.
Marcar ora o lado direito, ora o esquerdo, e registrar essa informação, ajuda a saber se aquele indivíduo ainda está presente na colônia no futuro.
Novas colônias em aeroportos menores e uma disputa com o relógio
Um dos destinos desses 800 esquilos é um aeroporto bem diferente de Bratislava. Em vez de jatos e grandes terminais, trata-se de um pequeno aeroclube, com pistas mais tranquilas e um entorno bem mais silencioso.
À primeira vista, pode parecer um lugar menos “natural” para um animal ameaçado, mas a lógica é parecida: campos abertos, grama mantida curta e pouca interferência urbana direta.
Antes de serem soltos, os pesquisadores escolhem cuidadosamente tocas adequadas, muitas vezes buracos já existentes e bem posicionados, como túneis inclinados que funcionam como rotas de fuga em caso de predadores.
Não basta abrir a caixa e deixar o esquilo correr, porque ele não conhece a área e pode simplesmente fugir em direção errada, atravessar campos e nunca mais encontrar a colônia.
Por isso, cada animal é conduzido para uma entrada específica, capaz de oferecer abrigo imediato até que ele se acalme e comece a explorar o novo lar.
Nem sempre tudo sai perfeito. Fugitivos acontecem, alguns animais tentam escapar em campo aberto, outros “congelam” e se fingem de mortos por puro pânico, dando chance para a equipe recuperá-los e recolocá-los em segurança.
Mas, ao longo do verão, o processo se repete em diversos locais. Ao final, mais de 800 esquilos são capturados, transportados e soltos em novas áreas, reforçando colônias frágeis e inaugurando núcleos que não existiam antes.
Conservação financiada no detalhe e pensada em rede
Por trás dos 800 esquilos em caixas de transporte, há uma infraestrutura humana e financeira relativamente modesta, porém decisiva.
O projeto mobiliza organizações locais, como a BROZ, que conhecem bem o território, e recebe apoio de iniciativas como a Mossy Earth, que canaliza contribuições de membros para ações concretas.
Para um único verão de trabalho intenso com armadilhas, transporte e logística, os custos giram em torno de 13.700 euros, com o compromisso de apoiar o projeto com cerca de 54.000 euros até 2027.
Em números globais de conservação, pode parecer pouco, mas cada euro aplicado aqui representa uma chance real de manter vivas colônias que, sem intervenção, provavelmente desapareceriam em silêncio.
Além disso, o projeto com os 800 esquilos terrestres se conecta a uma rede maior de ações, que vão desde o fundo do oceano até desertos áridos, passando por florestas frias e florestas tropicais.
A mesma abordagem que salva uma espécie de roedor em pradarias de aeroporto inspira trabalhos em ecossistemas completamente diferentes, sempre com uma combinação de ciência, planejamento e contato próximo com a realidade local.
Lições de conservação que vão além dos 800 esquilos
A história dos 800 esquilos souslik europeus, transformados em refugiados de aeroportos, lembra outros alertas que a humanidade ignorou no passado, como o do pombo-passageiro na América do Norte, que já representou uma fatia enorme das aves do continente e mesmo assim foi caçado até o desaparecimento. Desta vez, porém, os sinais estão sendo notados antes do ponto sem retorno.
Ao capturar, monitorar geneticamente e reassentar 800 esquilos, cientistas e conservacionistas mostram que ainda há tempo para agir quando a sociedade escolhe investir em soluções concretas.
A pergunta que permanece é se esse esforço será suficiente e se ele virá acompanhado de mudanças mais amplas na forma como usamos o solo, produzimos alimentos e planejamos a paisagem.
No fim das contas, o que acontece com esses pequenos roedores europeus dentro e fora de aeroportos é um retrato de até onde estamos dispostos a ir para evitar que mais uma espécie se perca.
Se um aeroporto passou a ser refúgio, talvez seja hora de pensar que tipo de mundo estamos construindo fora das pistas.
E você, o que acha dessa estratégia de resgatar 800 esquilos de aeroportos para criar novas colônias e tentar salvar o souslik europeu da extinção?


Achei sensacional! Renovei um pouco da minha fé na humanidade! Parece que o ser humano tem alguma chance de salvação…