Povos originários desenvolveram soluções sofisticadas ao longo de séculos, que só recentemente passaram a ser valorizadas pela ciência moderna em áreas como saúde, nutrição, engenharia e mudanças climáticas
Ao longo da história, os povos indígenas contribuíram de forma decisiva para o avanço do conhecimento humano. No entanto, muitas dessas contribuições ficaram invisíveis por séculos. Ainda assim, técnicas, alimentos, medicamentos e observações ambientais criadas por comunidades originárias sustentam hoje áreas inteiras da ciência moderna, como a medicina, a agricultura, a biologia e até os estudos climáticos.
A informação foi divulgada pela BBC News Mundo, serviço internacional da BBC, em reportagem assinada por Fernanda Paúl e publicada em 9 de agosto de 2024, em alusão ao Dia Internacional dos Povos Indígenas. Segundo o levantamento, aquilo que a ciência ocidental passou a “descobrir” recentemente já fazia parte do cotidiano indígena há centenas — e, em alguns casos, milhares — de anos.
“O conhecimento ancestral é tão rigoroso e válido quanto a ciência moderna”, afirma Hugo Us Álvarez, especialista em desenvolvimento social do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Da mesma forma, o antropólogo George Nicholas, da Universidade Simon Fraser, no Canadá, reforça que “conhecimento é conhecimento, independentemente da forma que assuma”.
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Medicina, alimentos e soluções naturais criadas muito antes dos laboratórios
Desde muito antes da existência de hospitais e laboratórios, os povos indígenas já dominavam práticas médicas sofisticadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 40% dos medicamentos utilizados atualmente têm origem direta no conhecimento tradicional.
Um exemplo emblemático é a aspirina. A substância que deu origem ao medicamento moderno, o ácido salicílico, era extraída da casca do salgueiro por povos indígenas da América do Norte há centenas de anos. Eles utilizavam esse composto para aliviar dores musculares e ósseas, muito antes da indústria farmacêutica.
Além disso, durante a pandemia de covid-19, cientistas descobriram na quilaia, árvore endêmica do Chile, um componente essencial para vacinas. No entanto, muito antes disso, os indígenas mapuche já usavam a planta para tratar problemas estomacais, respiratórios, de pele e até reumatismo.
Da mesma forma, plantas como o inhame selvagem mexicano, o espinheiro e a dedaleira forneceram princípios ativos para anticoncepcionais e tratamentos cardiovasculares. Assim, a ciência moderna apenas sistematizou práticas que já existiam na tradição indígena.
Superalimentos que os povos indígenas já consumiam há séculos

Nos últimos anos, alimentos classificados como superalimentos ganharam destaque mundial. Entretanto, muitos deles já faziam parte da dieta indígena há séculos.
A spirulina, por exemplo, hoje presente em shakes, saladas e suplementos, era colhida pelos povos mexicas, descendentes dos astecas, no Lago Texcoco. Rica em proteínas, a microalga servia como fonte de energia para longas jornadas.
O mesmo ocorreu com a quinoa, base alimentar dos incas, e com a chia, cultivada por povos da América Central e do Sul. Além disso, o amaranto, semente rica em ferro e proteínas, era amplamente utilizado por comunidades mesoamericanas.
Somente recentemente o mundo ocidental passou a reconhecer o valor nutricional desses alimentos, que sempre estiveram presentes na cultura indígena.
Invenções e técnicas que anteciparam a ciência moderna

Muito antes da medicina moderna, povos indígenas já utilizavam instrumentos semelhantes às seringas. Evidências arqueológicas mostram que comunidades da América do Sul usavam ossos de pássaros conectados a bexigas de animais para introduzir líquidos no corpo, lavar feridas e administrar medicamentos.
Da mesma forma, técnicas de proteção solar também existiam há séculos. Povos indígenas utilizavam óleos naturais, como o de urucum, girassol e opuntia, para proteger a pele do sol. Além disso, os povos innuit, no Ártico, criaram os primeiros óculos escuros, feitos de madeira ou ossos, para reduzir o reflexo do sol na neve.
Essas soluções simples e eficazes só foram reconhecidas pela ciência muito tempo depois.
Agricultura avançada e domínio da hibridação de plantas
Na agricultura, o conhecimento indígena também se mostrou extremamente sofisticado. Muito antes de Gregor Mendel, considerado o pai da genética, povos originários já dominavam técnicas de hibridação de plantas.
Eles aprenderam, por meio da observação e da prática, que a seleção contínua de sementes permitia controlar a diversidade das colheitas. Assim surgiram variedades de milho, feijão, abóbora e batata que conhecemos hoje.
Segundo pesquisadores, os incas chegaram a domesticar dezenas de espécies de batata, criando combinações genéticas muito antes da ciência formal compreender esses processos.
Observações indígenas ajudam a entender as mudanças climáticas

Atualmente, cientistas utilizam satélites e modelos computacionais para estudar o clima. No entanto, cada vez mais, pesquisadores recorrem ao conhecimento indígena.
Isso ocorre porque essas comunidades mantêm registros orais detalhados sobre mudanças nos padrões climáticos, comportamento animal e alterações na vegetação ao longo de gerações.
O antropólogo Richard Stoffle, da Universidade do Arizona, afirma que os povos indígenas monitoram as mudanças climáticas “muito antes de se tornarem um tema regular de debate público”. Dessa forma, suas observações oferecem uma visão mais completa da realidade ambiental.
Os “falcões de fogo” e o conhecimento ancestral ignorado
Um dos exemplos mais curiosos envolve as chamadas aves de rapina incendiárias, conhecidas como “falcões de fogo”. Pesquisas recentes comprovaram que essas aves espalham fogo intencionalmente para forçar presas a fugir.
Contudo, povos indígenas do norte da Austrália já conheciam esse comportamento há séculos. Inclusive, cerimônias tradicionais já retratavam aves transportando fogo, algo que a ciência ignorou por muito tempo.
Somente agora, esse conhecimento ancestral passou a ser valorizado, inclusive como ferramenta para o controle de incêndios florestais.
Um saber antigo que segue atual
Ao observar esses exemplos, fica claro que a ciência moderna ainda está “correndo atrás” do conhecimento indígena. Por isso, especialistas defendem que integrar saberes tradicionais à pesquisa científica não é apenas justo, mas essencial para enfrentar desafios globais.
Na sua opinião, a ciência moderna deveria reconhecer mais rapidamente o conhecimento indígena e integrá-lo às pesquisas atuais?

Conheci um senhor que bastava olhar pro céu e sabia dizer até que horas ia chover. Era um lavrador.